A rotina de atendimento a mulheres vítimas de agressão em hospitais da rede pública exige preparo constante das equipes de enfermagem, que atuam na linha de frente para identificar sinais físicos e comportamentais de violência doméstica. No Hospital Geral do Grajaú, unidade de referência gerida pelo Instituto de Responsabilidade Social do Sírio-Libanês na zona sul de São Paulo, o acolhimento segue protocolos rigorosos de segurança para evitar a revitimização das pacientes que chegam gravemente feridas ao pronto-socorro.
Entre o ano passado e agosto de 2026, a unidade registrou uma média de três atendimentos semanais específicos para casos de violência contra a mulher, totalizando 269 ocorrências no período. Em âmbito nacional, dados de um estudo da Universidade Federal de São Paulo indicam que ao menos 15 mulheres são internadas diariamente em hospitais brasileiros em decorrência de agressões domésticas, evidenciando a dimensão do problema enfrentado pelos serviços de saúde.
As pacientes frequentemente dão entrada na unidade com politraumatismos, fraturas graves que simulam acidentes de trânsito e o rosto desfigurado. A gravidade das lesões e o abalo emocional exigem sensibilidade e discrição dos profissionais durante a avaliação inicial no pronto-atendimento, onde as vítimas podem chegar sozinhas, acompanhadas por familiares ou pelo próprio agressor.
Sinais de alerta na triagem
O primeiro contato ocorre tipicamente na triagem ou classificação de risco realizada pela enfermagem. Nesse momento inicial, os profissionais buscam identificar indícios que vão além dos ferimentos físicos, observando atentamente a postura da paciente, reações de medo, ansiedade, choro frequente ou tremores nas extremidades do corpo.
Dores crônicas sem causa aparente e lesões corporais cujas explicações dadas pela mulher entram em contradição com o quadro clínico também acendem alertas imediatos nas equipes de saúde. Um exemplo comum relatado pelas equipes envolve situações em que a paciente relata ferimentos decorrentes de acidentes de trânsito, mas apresenta incoerências nos relatos e lesões incompatíveis com a dinâmica descrita.
A presença de acompanhantes masculinos que tentam responder no lugar da paciente e a repetição constante de visitas ao serviço de saúde por motivos inespecíficos complementam o conjunto de fatores avaliados. Diante de qualquer suspeita fundamentada, o fluxo de atendimento é imediatamente adaptado para garantir a segurança e a integridade física da mulher dentro do ambiente hospitalar.
Como às vezes elas são espancadas com socos ou objetos, chegam com fraturas que lembram um acidente de moto ou de carro. Ficam envergonhadas e extremamente abaladas.”
Michelle Sousa, supervisora de enfermagem
Protocolo de sigilo e prioridade
Para resguardar a integridade das pacientes identificadas como vítimas de violência, o hospital adota o uso de uma pulseira de cor diferenciada. Esse recurso visual orienta as equipes de atendimento a priorizar o fluxo clínico sem que o acompanhante ou o agressor compreendam o significado real da identificação adotada.
Com o auxílio da pulseira especial, a mulher ganha acesso a salas reservadas e pode decidir livremente se prefere permanecer sozinha ou acompanhada, além de ter o poder de restringir a entrada do agressor nas dependências do hospital. O objetivo central dessa estratégia é impedir a exposição desnecessária e afastar qualquer risco iminente de novas agressões durante o período de internação.
Paralelamente, todas as características físicas das lesões e os relatos obtidos são registrados de forma minuciosa no prontuário eletrônico. Esse documento clínico serve como respaldo técnico fundamental caso a paciente decida posteriormente formalizar a denúncia e registrar um boletim de ocorrência contra o agressor.
Suporte integrado e rede protetiva
Após os cuidados médicos emergenciais voltados ao tratamento dos ferimentos físicos, a paciente é encaminhada para o atendimento especializado com equipes de serviço social e psicologia. O trabalho desses profissionais é conduzido sem qualquer tipo de julgamento ou imposição, respeitando rigorosamente a autonomia da mulher sobre as decisões que deseja tomar.
O serviço social apresenta os direitos legais garantidos por lei e orienta sobre as alternativas disponíveis na rede de proteção, permitindo que a vítima avalie o melhor caminho a seguir. A coordenação do cuidado visa assegurar uma alta hospitalar segura, articulando o encaminhamento para unidades básicas de saúde, centros especializados em violência sexual ou abrigos sigilosos.
O suporte contínuo busca transformar o ambiente hospitalar em um ponto de apoio confiável, onde as pacientes encontram suporte físico e psicoemocional para romper o ciclo de violência. A articulação entre os diferentes setores da saúde pública reforça a importância de manter canais abertos e seguros para o acolhimento dessas mulheres em toda a rede de atendimento.
Atendimento na rede pública de saúde
Embora unidades de maior complexidade recebam os casos mais graves e politraumatizados, todas as instâncias do Sistema Único de Saúde possuem diretrizes padronizadas para o acolhimento de vítimas de violência. Unidades Básicas de Saúde e Unidades de Pronto Atendimento contam com fluxos específicos para identificar e direcionar mulheres em situação de vulnerabilidade.
A capacitação contínua das equipes de atendimento em todos os níveis da rede pública é apontada por especialistas como um fator decisivo para a detecção precoce de agressões. O reconhecimento de sinais sutis de violência em consultas de rotina pode evitar o agravamento de quadros clínicos e salvar vidas antes que ocorram lesões irreversíveis.


