O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elevou o tom contra o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) nesta sexta-feira, 18 de setembro, ao afirmar que o adversário teria ligação com milicianos no Rio de Janeiro. A declaração foi feita durante entrevista à Rádio Tupi, na capital fluminense, e integra a disputa política da campanha presidencial de 2026.
Lula também voltou a relacionar o Banco Master ao período em que Jair Bolsonaro ocupava a Presidência. A fala do petista mistura uma acusação política, que exige atribuição clara, com um fato cronológico verificável sobre a trajetória da instituição financeira. Registros públicos mostram que Daniel Vorcaro recebeu autorização para assumir o controle do então Banco Máxima em 2019, já no governo Bolsonaro.
Lula amplia ataque a Flávio
Na entrevista, Lula afirmou que existe “um candidato a presidente” ligado a milicianos no Rio de Janeiro e fez referência direta a integrantes da família Bolsonaro. O presidente não apresentou, durante o trecho divulgado, novos documentos ou elementos de investigação para sustentar a acusação específica contra Flávio.
“Tem um candidato a presidente que é ligado aos milicianos no Rio de Janeiro.”
Luiz Inácio Lula da Silva
A fala deve ser entendida como declaração do presidente e candidato à reeleição, não como conclusão judicial. Flávio Bolsonaro tem histórico de relações políticas e funcionais que já foram objeto de escrutínio público no Rio, mas isso não equivale, por si só, a uma decisão judicial que estabeleça vínculo pessoal do senador com uma milícia.
Até a conclusão desta apuração, não foi localizada resposta pública de Flávio Bolsonaro especificamente à declaração feita por Lula nesta sexta-feira. O espaço para manifestação do senador permanece relevante porque a acusação foi feita no contexto direto da disputa eleitoral.
Histórico alimenta embate político
Parte do histórico citado em debates sobre Flávio envolve o ex-policial militar Adriano da Nóbrega, apontado por investigadores como liderança de grupo miliciano no Rio. A mãe e a ex-mulher de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio quando ele era deputado estadual.
Documentos de investigações no Rio também mostraram movimentações e relações financeiras envolvendo pessoas ligadas a Adriano. Reportagens baseadas em material apreendido pelo Ministério Público registraram que contas pessoais e de familiares do ex-PM eram pagas por integrantes de uma milícia.
Esses fatos ajudam a explicar por que o tema reaparece no debate político, mas não autorizam transformar a declaração de Lula em fato judicialmente estabelecido contra Flávio. A distinção entre relações de terceiros, vínculos funcionais e responsabilidade pessoal é central para uma leitura precisa do caso.
No ambiente eleitoral, Lula usa esse histórico para pressionar Flávio, enquanto o senador e seus aliados têm acusado o governo de explorar politicamente investigações e controvérsias envolvendo o grupo Bolsonaro.
Master entra novamente na disputa
Durante a mesma entrevista, Lula também afirmou que o “Master virou banco no governo Bolsonaro”. A formulação exige precisão histórica, porque o Banco Máxima já funcionava como instituição bancária antes de 2019.
O que ocorreu naquele ano foi uma mudança de controle. Notas taquigráficas do Senado registram que, em 14 de outubro de 2019, a diretoria colegiada do Banco Central autorizou a transferência de controle do Banco Máxima para Daniel Vorcaro. A autorização foi publicada no Diário Oficial da União em 24 de outubro.
A operação ocorreu durante a gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central e de Jair Bolsonaro na Presidência da República. O Máxima foi posteriormente reestruturado e passou a usar o nome Banco Master.
Demonstrações financeiras da própria instituição registram o Banco Master S.A. como ex-Banco Máxima e apontam que o grupo iniciou uma nova fase a partir de 2020. A mudança de nome se consolidou em 2021.
Controle mudou em 2019
A trajetória da operação é relevante porque a transferência de controle havia sido rejeitada anteriormente. Em fevereiro de 2019, ainda sob outra composição da diretoria do Banco Central, a aquisição não recebeu aval.
Meses depois, após novos documentos e ajustes apresentados no processo, a diretoria aprovou a entrada de Vorcaro no controle da instituição. A autorização ocorreu de forma colegiada e dentro das competências do Banco Central.
Isso significa que é correto afirmar que Vorcaro assumiu o controle do banco no governo Bolsonaro. Já dizer que o Master “virou banco” naquele período simplifica uma história mais longa, pois o Banco Máxima já atuava como banco antes da mudança societária.
A diferença é relevante porque separa a criação de uma instituição financeira da transferência de seu controle e da posterior adoção de uma nova marca. Em uma campanha eleitoral, esses detalhes costumam ser comprimidos em frases de efeito, mas permanecem importantes para avaliar a precisão factual das declarações.
Caso Master cerca campanha
O Banco Master se tornou tema recorrente da eleição após investigações sobre Daniel Vorcaro e operações financeiras do grupo. Flávio Bolsonaro também entrou no foco de apurações relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, projeto sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
Em setembro, veio a público que Flávio é investigado em inquérito autorizado no Supremo Tribunal Federal sobre repasses ligados ao projeto audiovisual. A investigação apura suspeitas e movimentações financeiras, sem representar condenação ou conclusão definitiva sobre responsabilidade criminal.
O senador reconheceu ter mantido contato com Vorcaro em assuntos relacionados ao filme. A campanha de Lula tem usado essas comunicações para associar o adversário ao caso Master, enquanto Flávio contesta a tentativa de vinculá-lo às fraudes investigadas no banco.
Esse embate transformou o caso financeiro em argumento eleitoral dos dois lados. Lula tenta aproximar Flávio de Vorcaro e do histórico do Master; Flávio, por sua vez, procura relacionar o escândalo a integrantes e aliados do atual governo.
Declarações exigem atribuição clara
A fala de Lula nesta sexta-feira reúne duas frentes de ataque: segurança pública e sistema financeiro. A primeira envolve uma acusação direta contra o adversário, enquanto a segunda se apoia em uma cronologia parcialmente verificável, embora formulada de maneira resumida.
“O Master virou banco no governo Bolsonaro.”
Luiz Inácio Lula da Silva
Os registros disponíveis confirmam que Vorcaro passou a controlar o Banco Máxima em 2019 e que a instituição passou posteriormente a se chamar Banco Master. Não confirmam, no entanto, a ideia literal de que o banco tenha sido criado naquele momento.
Quanto à acusação sobre milícias, o histórico público apresenta relações de pessoas que trabalharam no gabinete de Flávio com figuras investigadas nesse universo, mas a fala de Lula permanece uma acusação política atribuída ao presidente. Não há, nos elementos consultados para esta matéria, decisão judicial que estabeleça como fato a formulação usada pelo petista.
Com a campanha presidencial em curso, o episódio reforça a necessidade de separar afirmações eleitorais de fatos documentados. A disputa entre Lula e Flávio tem incorporado investigações, relações políticas e casos ainda em andamento, o que torna a contextualização essencial para evitar que acusações de campanha sejam apresentadas como conclusões definitivas.


