O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve utilizar o discurso de abertura na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, marcada para o próximo dia 22 em Nova York, para detalhar os esforços e as medidas adotadas pelo Brasil no combate ao crime organizado. A informação foi divulgada nesta quarta-feira pelo secretário de Assuntos Multilaterais Políticos do Itamaraty, o embaixador Carlos Márcio Cozendey, durante um briefing à imprensa sobre a viagem oficial.
A expectativa em torno do pronunciamento ocorre em um cenário de atritos diplomáticos após o governo dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, divulgar um documento no qual acusa o Brasil de falhar ao confrontar facções como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho. O Departamento de Estado norte-americano listou o país entre as nações produtoras ou de trânsito de drogas ilícitas, exigindo ações mais agressivas.
Diante das pressões externas e da classificação de grupos criminosos como entidades terroristas por Washington, a administração federal tem reiterado a defesa da soberania nacional. O governo brasileiro tem repudiado publicamente qualquer tipo de interferência estrangeira em assuntos internos, enquanto o Itamaraty ressalta que o país mantém parcerias constantes com vizinhos e com os próprios norte-americanos na troca de informações e responsabilização criminal.
Esforços e cooperações
Segundo o Itamaraty, o chefe do Executivo municipal e federal deve citar durante o evento internacional os recentes acordos de cooperação firmados para ampliar o trabalho conjunto contra o crime transnacional. A gestão também planeja negociar futuramente um protocolo adicional na Convenção da ONU contra o Crime Organizado Transnacional voltado especificamente para o combate a crimes ambientais.
A atuação conjunta com autoridades estrangeiras ocorre em paralelo às cobranças feitas pelo governo dos Estados Unidos. O embaixador Cozendey pontuou que os canais de diálogo e troca de dados seguem ativos para permitir a responsabilização de facções criminosas de maneira constante.
As diretrizes apresentadas buscam contrapor as avaliações externas ao demonstrar o volume de trabalho já executado pelas forças brasileiras no enfrentamento ao narcotráfico e às organizações criminosas estruturadas.
Defesa do multilateralismo
Além da segurança pública, o pronunciamento na tribuna da Assembleia Geral deve contemplar as linhas tradicionais da política externa brasileira. Entre os temas previstos estão a defesa do multilateralismo, o apoio a negociações de paz em conflitos internacionais, o respeito estrito ao direito internacional humanitário e o fortalecimento institucional da ONU.
O texto oficial do discurso ainda passará por ajustes finais na véspera do evento, conforme informou a pasta diplomática. A diplomacia brasileira reforça que a mensagem central manterá o tom de preservação da autonomia do país frente a pressões externas.
A pauta multilateral consolida a postura histórica do Brasil nos debates globais, priorizando o diálogo diplomático e a solução pacífica de controvérsias entre as nações.
Agenda em Nova York
A programação oficial do presidente na cidade norte-americana inclui a chegada prevista para o próximo domingo e reuniões bilaterais na segunda-feira. Até o momento, está confirmada a agenda com o secretário-geral da ONU, António Guterres, além de um encontro com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani.
A possibilidade de reuniões adicionais com outros chefes de Estado permanece aberta, podendo ocorrer de forma improvisada nos bastidores da sede da organização. Contudo, ainda não há confirmação de um encontro bilateral com o presidente Donald Trump.
A permanência de Lula no exterior será breve, com retorno programado imediatamente após a conclusão do discurso de abertura na terça-feira.
Comitiva presidencial enxuta
O retorno imediato ao território nacional faz parte de uma estratégia para manter uma comitiva ministerial reduzida ao máximo, motivada pelos compromissos da agenda de campanha eleitoral no Brasil. A delegação oficial contará apenas com quatro ministros e assessores diretos.
Integrarão a comitiva o chanceler Mauro Vieira, as ministras Esther Dweck, Sônia Guajajara e Raquel Barros, além do assessor especial para Assuntos Internacionais, Celso Amorim. O restante da delegação será composto estritamente por equipes técnicas e de segurança.
O formato enxuto representa uma mudança significativa em relação a anos anteriores, quando as delegações federais superavam a marca de cem pessoas e geravam despesas milionárias com diárias, hospedagens e transporte oficial.


