A economia argentina chega ao terceiro trimestre de 2026 com sinais que apontam em direções diferentes. A inflação mensal caiu para 1,7% em agosto, o governo mantém superávit fiscal acumulado e o Produto Interno Bruto cresceu 2% no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2025. Ao mesmo tempo, o PIB recuou 0,6% frente aos três primeiros meses do ano, o desemprego chegou a 7,9% e a produção da indústria manufatureira caiu 5% em julho na comparação anual.
Os números ajudam a explicar por que aumentou o debate sobre a sustentabilidade e a distribuição dos resultados do programa econômico do presidente Javier Milei. O governo destaca o controle da inflação, o equilíbrio das contas públicas e a recuperação do nível de atividade após a recessão de 2024. Críticos e economistas ouvidos por diferentes veículos chamam atenção para o mercado de trabalho, a perda de empresas, a fragilidade do consumo de parte das famílias e o aumento da inadimplência.
O quadro, portanto, não é de uma economia uniformemente em alta ou em queda. A Argentina combina avanços macroeconômicos mensuráveis com uma recuperação desigual entre setores e grupos de renda. Energia, mineração, agricultura e exportações têm sustentado parte do crescimento, enquanto a indústria e segmentos mais dependentes da demanda doméstica enfrentam maior pressão.
Inflação perde força
O dado mais favorável ao governo é a trajetória dos preços. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina, o INDEC, a inflação ao consumidor foi de 1,7% em agosto. O resultado representa uma diferença expressiva em relação ao cenário encontrado no início da gestão Milei, quando a variação mensal chegou a superar 25%.
A desaceleração está ligada a uma combinação de forte ajuste fiscal, menor financiamento monetário do Tesouro, mudanças no regime cambial e política monetária restritiva. O próprio Milei afirma que não pretende alterar os pilares fiscal e monetário de sua estratégia e continua defendendo o equilíbrio das contas como condição para reduzir a inflação de forma duradoura.
O Fundo Monetário Internacional também reconhece a continuidade do processo de desinflação. Em julho, o organismo projetou crescimento de 3,5% para a Argentina em 2026 e avaliou que a inflação deve seguir caindo gradualmente. A instituição, contudo, tem ressaltado a importância de acumular reservas, preservar a disciplina fiscal e manter condições que sustentem o acesso do país ao financiamento.
A queda da inflação não significa que os preços tenham voltado aos níveis anteriores. Ela mede a velocidade de aumento, não uma reversão do encarecimento acumulado. Para famílias que tiveram renda corroída nos anos de inflação muito alta, a estabilização pode levar tempo para se converter em recuperação integral do poder de compra.
PIB cresce de forma desigual
O PIB argentino avançou 2% no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2025, acima de previsões privadas divulgadas antes do dado. O crescimento anual foi impulsionado por atividades ligadas à pesca, mineração, petróleo, gás e agropecuária, além do desempenho das exportações.
A leitura trimestral, porém, mostra desaceleração. Na comparação com o primeiro trimestre, já descontados efeitos sazonais, a economia encolheu 0,6%. Foi uma reversão depois de crescimento de 0,7% nos primeiros três meses do ano e indica que a recuperação não manteve o mesmo ritmo ao longo do primeiro semestre.
A indústria apresenta uma das diferenças mais claras entre os setores. O índice de produção industrial manufatureira do INDEC caiu 5% em julho na comparação com o mesmo mês de 2025. No PIB do segundo trimestre, a indústria de transformação também registrou retração anual, enquanto atividades ligadas a recursos naturais tiveram desempenho mais forte.
O FMI mantém previsão de crescimento de 3,5% para o conjunto de 2026, após alta de 4,4% em 2025 e contração de 1,3% em 2024. A projeção mostra que o organismo ainda espera expansão no ano, embora em ritmo menor que o observado durante a recuperação de 2025.
| Indicador, Dado mais recente e Referência | ||
|---|---|---|
| Indicador | Dado mais recente | Referência |
| Inflação mensal | 1,7% | Agosto de 2026 |
| PIB anual | +2,0% | 2º trimestre de 2026 |
| PIB trimestral dessazonalizado | -0,6% | 2º trimestre ante o 1º trimestre |
| Desemprego | 7,9% | 2º trimestre de 2026 |
| Produção industrial manufatureira | -5,0% | Julho de 2026, variação anual |
| Superávit primário acumulado | Cerca de 0,9% do PIB | Janeiro a julho de 2026 |
| Superávit financeiro acumulado | Cerca de 0,1% do PIB | Janeiro a julho de 2026 |
| Projeção de crescimento do PIB | 3,5% | FMI para 2026 |
Fonte: INDEC, Ministério da Economia da Argentina e FMI.
Emprego mostra pressão
O mercado de trabalho é uma das áreas em que as dificuldades aparecem com mais força. O desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026 nos 31 principais aglomerados urbanos pesquisados pelo INDEC. A taxa ficou acima dos níveis registrados antes do início do atual governo.
O fechamento de empresas e a redução do emprego formal tornaram-se pontos centrais da discussão econômica argentina. Parte das empresas industriais enfrenta demanda doméstica mais fraca e maior concorrência de importados depois das medidas de abertura comercial. O governo argumenta que a reorganização é parte de uma economia mais competitiva, enquanto entidades empresariais e trabalhistas apontam custos importantes durante a transição.
O crédito também ganhou relevância. Dados do Banco Central mostram que 6,9 milhões de pessoas tinham financiamento junto a provedores não financeiros de crédito em fevereiro de 2026, aumento de 6,8% em seis meses. A irregularidade total dessa carteira chegou a 26,9%, com índice de 34,1% nos empréstimos pessoais.
Esses números não significam que todos os tomadores estejam inadimplentes, mas mostram aumento do risco de crédito em segmentos fora dos bancos tradicionais. A expansão do financiamento ocorreu depois de anos em que a inflação muito elevada e a instabilidade macroeconômica limitaram o mercado de crédito, criando ao mesmo tempo novas possibilidades de consumo e novas vulnerabilidades financeiras.
Superávit sustenta estratégia
As contas públicas continuam sendo o principal ponto de sustentação da estratégia oficial. Em julho, o Setor Público Nacional registrou superávit financeiro de 244,9 bilhões de pesos e resultado primário positivo de aproximadamente 2,96 trilhões de pesos. No acumulado dos sete primeiros meses, o superávit financeiro equivalia a cerca de 0,1% do PIB e o primário, a aproximadamente 0,9%.
O ajuste fiscal começou com cortes de despesas, redução de subsídios, interrupção de obras públicas e diminuição de transferências discricionárias. A medida permitiu eliminar déficits que haviam sido recorrentes, mas também transferiu custos para consumidores, governos provinciais e setores dependentes de gastos públicos.
Milei insiste que não pretende abandonar esse caminho. Em setembro, afirmou que seguirá com equilíbrio fiscal e com política monetária restritiva até consolidar a redução da inflação. A avaliação do governo é que estabilidade de preços e previsibilidade fiscal criarão condições para investimentos privados e crescimento sustentado.
Os dados disponíveis mostram que parte desse objetivo foi alcançada, especialmente na inflação e nas contas públicas. O desafio agora está na velocidade e na abrangência da recuperação. O crescimento anual do PIB convive com uma retração trimestral, a indústria permanece pressionada e o desemprego aumentou. A evolução desses indicadores nos próximos meses deverá mostrar se a estabilização macroeconômica consegue se traduzir em melhora mais ampla do emprego, da renda e da atividade produtiva.


