Perda gestacional exige atenção à saúde mental, alertam especialistas

Febrasgo aponta que acolhimento de familiares e profissionais pode ajudar a reconhecer sofrimento persistente e a buscar cuidado.

Da
Redação
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Kalyane Ribeiro relata que a troca com outras mulheres ajudou no enfrentamento da perda gestacional.
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A saúde mental após a perda gestacional requer acolhimento de familiares, amigos e profissionais de saúde, segundo especialistas ligados à Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). A entidade chama atenção para um cuidado que, conforme os relatos reunidos, ainda pode ser negligenciado.

O tema ganha destaque durante o Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre prevenção ao suicídio. Especialistas diferenciam o sofrimento esperado no luto de sinais persistentes que podem demandar acompanhamento profissional e indicam serviços de saúde e apoio emocional para situações de crise.

Perda pode desencadear luto intenso

A perda gestacional precoce é uma interrupção involuntária da gravidez que pode ocorrer até a 20ª semana de gestação. Segundo o obstetra Eduardo Felix Martins Santana, integrante de comissão da Febrasgo e professor da Universidade Federal de São Paulo, entre 15% e 20% das gestações não evoluem.

Para o obstetra Romulo Negrini, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da Febrasgo, a experiência constitui um evento traumático e pede assistência especializada. Ele cita tristeza profunda, vazio, culpa, ansiedade, insônia, irritabilidade e perda de interesse por atividades cotidianas entre as reações que podem surgir.

Negrini ressalta, no entanto, que sofrer intensamente no período não caracteriza automaticamente uma doença psiquiátrica. Dessa forma, o acolhimento precisa reconhecer o luto sem reduzir a experiência a uma obrigação de retomar rapidamente a rotina.

Relatos mostram falta de acolhimento

Kalyane Ribeiro, que vive em Campinas (SP), passou por uma perda gestacional precoce aos 32 anos, após um ano e meio de tentativas para engravidar. Ela relata que a dificuldade de pessoas próximas em compreender o luto aprofundou a sensação de isolamento.

Na avaliação dela, frases que orientam simplesmente uma nova tentativa de gravidez não respondem à experiência de quem perdeu uma gestação. O relato destaca que o sofrimento não se resolve pela ideia de substituir o filho esperado.

Mais tarde, Kalyane criou uma comunidade nas redes sociais para conversar com outras mulheres que viveram perdas gestacionais. Além da ajuda profissional, ela afirma ter encontrado apoio na troca de experiências e publicou o livro Ainda me Sinto Mãe, nome também usado em sua página.

Hormônios também afetam o período

A psiquiatra Andréa Cristina Galastri, professora do Instituto de Educação Médica (Idomed), afirma que as alterações hormonais associadas ao processo da perda também podem afetar a saúde mental. Segundo ela, essas mudanças duram cerca de 15 dias.

Galastri explica que os hormônios aumentam durante a gravidez e depois caem com a perda gestacional. Ao mesmo tempo, a pessoa enfrenta a dimensão emocional do luto, o que pode elevar a sensibilidade no período.

Esse aspecto não elimina a importância do acompanhamento clínico e emocional. Pelo contrário, reforça a necessidade de escuta e de orientação individualizada, especialmente quando os sintomas passam a interferir nas atividades diárias.

Sinais persistentes pedem cuidado

Segundo Galastri, o agravamento merece atenção quando ansiedade e tristeza persistem e a mulher passa a se perceber como um fracasso ou a considerar que não há mais razão para viver. Pensamentos de morte ou de querer acabar com a própria vida exigem busca imediata por acolhimento e atendimento.

A médica também aponta como sinais de alerta a perda de funcionalidade, a dificuldade contínua para comer ou dormir e o choro que não cessa ao longo do dia por mais de 15 dias ou por um mês. Nesses casos, ela afirma que pode haver um quadro mais grave e tratável.

Quando o sofrimento evolui para depressão posterior ou luto patológico, a indicação mencionada pela psiquiatra é psicoterapia e medicação. Ainda assim, ela faz uma distinção central: o sofrimento é uma reação natural à perda, mas a paralisação da vida demanda atenção.

Médicos devem ampliar a assistência

Santana defende que o primeiro passo no atendimento seja aproximar a mulher de uma rede de cuidado que reúna assistência médica, família e amigos. Ele observa que a vivência pode envolver momentos de aceitação, negação, raiva e tristeza profunda.

Para o obstetra, todos esses estágios requerem acolhimento. Por isso, ele defende atuação proativa de médicos, órgãos de regulamentação profissional e sociedades médicas, em vez de esperar que a paciente procure novamente o consultório apenas depois de um agravamento.

A Febrasgo mantém uma comissão voltada à assistência em abortamento, parto e puerpério. Santana avalia que o desafio é levar essa preocupação e esse tipo de cuidado a todo o país.

Rede de apoio orienta busca por ajuda

O Ministério da Saúde orienta pessoas com pensamentos ou sentimentos de querer acabar com a própria vida a conversar com alguém de confiança e a não hesitar em procurar ajuda. Familiares, amigos, educadores e profissionais de saúde podem integrar essa rede inicial de acolhimento.

Para atendimento em saúde, podem ser buscados Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Unidades Básicas de Saúde, Unidades de Pronto Atendimento (UPA) 24 horas, pronto-socorros e hospitais. Em emergências, o atendimento móvel de urgência funciona pelo telefone 192.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional e prevenção ao suicídio gratuitamente, com sigilo, pelo telefone 188. O serviço também atende por e-mail, chat e voip, 24 horas por dia.

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