Ötzi completa 35 anos de descoberta e ainda revela segredos da pré-história

Múmia de 5.300 anos preservada no gelo ajuda cientistas a reconstruir aparência, saúde, rotina e morte de um homem da Idade do Cobre

Da
Redação
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Múmia de 5.300 anos preservada no gelo ajuda cientistas a reconstruir aparência, saúde, rotina e morte de um homem da Idade do Cobre
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Trinta e cinco anos depois de ser encontrado por acaso nos Alpes, Ötzi continua oferecendo pistas raras sobre a vida humana há mais de cinco milênios. A múmia, descoberta em 19 de setembro de 1991 por Erika e Helmut Simon, permanece como um dos achados arqueológicos mais importantes do mundo por combinar corpo, roupas, armas e objetos pessoais em estado excepcional de conservação.

O homem viveu na Idade do Cobre e morreu há cerca de 5.300 anos. Seu corpo ficou protegido pelo gelo próximo ao Giogo di Tisa, na região do Tirol do Sul, na Itália, até que um verão mais quente expôs parte da múmia. No primeiro momento, quem chegou ao local acreditou estar diante de um alpinista morto havia pouco tempo.

A identificação da verdadeira antiguidade do corpo mudou completamente o significado do achado. Desde então, exames médicos, estudos genéticos, análises de materiais e novas tecnologias permitiram reconstruir detalhes de sua aparência, alimentação, saúde, equipamentos e circunstâncias da morte.

Descoberta ocorreu por acaso

Erika e Helmut Simon caminhavam a mais de 3.200 metros de altitude quando perceberam um corpo parcialmente preso ao gelo. Apenas a parte superior estava visível. O casal comunicou o achado, que inicialmente mobilizou autoridades como se fosse um caso recente de acidente em montanha.

As primeiras tentativas de retirada foram dificultadas pelo clima e pelas condições do terreno. O corpo só foi recuperado dias depois, ainda sem a presença de uma equipe arqueológica no local. Objetos próximos, entre eles um machado, uma adaga e um arco, ajudaram a indicar que a descoberta era muito mais antiga do que parecia.

Em 24 de setembro de 1991, o arqueólogo Konrad Spindler avaliou que a múmia tinha pelo menos quatro mil anos. Estudos posteriores situaram Ötzi em um período ainda mais remoto, cerca de 5.300 anos atrás, tornando o conjunto uma referência para pesquisas sobre a Europa pré-histórica.

A combinação entre corpo, vestimentas e equipamentos preservados transformou Ötzi em uma janela excepcional para a Idade do Cobre. O local do achado também ajudou na conservação, porque o corpo ficou protegido em uma depressão do terreno, fora da ação mais destrutiva do movimento da geleira.

Corpo revela aparência incomum

As pesquisas indicam que Ötzi tinha aproximadamente 46 anos quando morreu, idade elevada para os padrões de sua época. Media cerca de 1,60 metro, era magro e apresentava sinais de desgaste nas articulações, fraturas antigas e outros problemas acumulados ao longo da vida.

Estudos genéticos mais recentes apontaram pele de tonalidade média a escura, olhos escuros e predisposição à calvície masculina. A análise do genoma também mostrou uma forte ancestralidade ligada a antigos agricultores da Anatólia, região que corresponde a parte da atual Turquia.

Outro traço marcante são as dezenas de tatuagens identificadas em seu corpo. Elas aparecem em diferentes regiões e foram produzidas com técnicas simples. Pesquisadores discutem há anos se parte dessas marcas poderia ter alguma função terapêutica relacionada a dores ou desconfortos físicos.

O corpo também revelou cáries, parasitas intestinais e desgaste ósseo. Exames mostraram ainda que os pulmões tinham sinais de fuligem, algo compatível com a exposição frequente à fumaça de fogueiras em ambientes fechados ou pouco ventilados.

Equipamentos mostram alta habilidade

Ötzi carregava um conjunto notável de roupas e ferramentas. Entre os itens preservados estão peças feitas com peles de animais, calçados com couro e fibras vegetais, recipientes de casca de bétula, uma faca de sílex, arco, flechas e outros materiais usados no cotidiano.

O machado de cobre é um dos objetos mais importantes associados ao corpo. A peça demonstra que ele viveu em uma fase de transição tecnológica na Europa, quando ferramentas de pedra ainda eram comuns, mas o domínio do metal começava a alterar técnicas de produção e relações sociais.

A aljava continha várias flechas, muitas ainda inacabadas. Outros objetos mostram que Ötzi sabia ou precisava transportar recursos para produzir fogo, cortar materiais e enfrentar longos deslocamentos em ambiente de montanha.

Esse conjunto permite aos pesquisadores observar não apenas um indivíduo, mas também conhecimentos técnicos de seu tempo. A preservação simultânea das roupas, ferramentas e do corpo cria uma fonte de informação incomum sobre mobilidade, alimentação, proteção contra o frio e organização da vida diária.

Morte teve sinais de violência

A morte de Ötzi não parece ter sido natural. Exames identificaram uma ponta de flecha alojada próxima ao ombro esquerdo, com lesão em uma artéria. O ferimento teria provocado sangramento intenso e é uma das principais evidências de um ataque ocorrido pouco antes da morte.

Também foram encontrados sinais de trauma craniano e uma lesão na mão direita interpretada como possível ferimento defensivo. O conjunto sugere que Ötzi esteve envolvido em um confronto, embora a sequência exata dos acontecimentos continue sendo discutida pelos pesquisadores.

O conteúdo do estômago ajudou a mostrar que ele havia se alimentado pouco antes de morrer. Estudos sobre sua dieta encontraram carne de caça, cereais e plantas. Esses dados ajudam a reconstruir as últimas horas de vida e indicam que ele não estava simplesmente perdido e sem recursos havia vários dias.

Ainda existem pontos sem resposta sobre o ataque, os responsáveis e a motivação. O que a ciência conseguiu demonstrar com mais segurança é que o corpo registra uma combinação de ferimentos compatível com um desfecho violento em plena região alpina.

Museu mantém corpo sob controle

Desde 1998, Ötzi e seus objetos estão expostos no Museu de Arqueologia do Tirol do Sul, em Bolzano. A múmia permanece em uma câmara refrigerada criada especialmente para reproduzir condições próximas às que favoreceram sua conservação no gelo.

Segundo o museu, a câmara é mantida a cerca de 6 graus negativos, com umidade relativa próxima de 99%. Temperatura, umidade e outros parâmetros são monitorados continuamente para reduzir perdas e preservar o corpo para futuras gerações de pesquisadores.

O museu informou que mais de sete milhões de pessoas já visitaram suas exposições desde a abertura. Atualmente, a instituição recebe perto de 300 mil visitantes por ano, o que faz de Ötzi também um fenômeno de interesse público muito além do meio acadêmico.

O fato de Ötzi continuar fascinando pessoas no mundo todo, mesmo 35 anos depois de sua descoberta, reforça a importância extraordinária desse achado.

Elisabeth Vallazza, diretora do Museu de Arqueologia do Tirol do Sul

A instituição planeja substituir o sistema de refrigeração a partir de 2027 e também prepara uma futura sede com mais espaço para a coleção. A conservação do corpo continua sendo tratada como parte central do trabalho científico e museológico.

Pesquisa ainda traz novas respostas

Mais de 900 pesquisadores já estudaram Ötzi em diferentes áreas, segundo o museu. O avanço de técnicas de imagem, genética, microbiologia e análise de materiais permitiu obter informações que não estavam ao alcance dos cientistas quando a múmia foi encontrada em 1991.

Em 2023, uma nova análise genética reforçou a ligação de Ötzi com antigos agricultores da Anatólia e apontou características como pele mais escura e predisposição à calvície. O estudo também indicou riscos genéticos associados a doenças metabólicas e cardiovasculares.

As pesquisas não encerraram todas as perguntas. A identidade de quem o atacou, a razão da violência, o significado exato de algumas tatuagens e detalhes de sua posição social continuam abertos a interpretação e novas evidências.

Ao completar 35 anos de descoberta em 19 de setembro de 2026, Ötzi permanece relevante justamente porque continua produzindo informação nova. Seu corpo funciona como um arquivo biológico e arqueológico raro, capaz de conectar tecnologia moderna a uma vida encerrada milhares de anos antes das grandes civilizações clássicas.

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