Quando o fim do inverno se aproxima e a primavera começa a aparecer no calendário, ruas, praças e áreas rurais de várias regiões do Brasil ganham manchas intensas de amarelo, rosa, roxo e branco. Os ipês parecem escolher esse período para florescer, mas o fenômeno não acontece simplesmente porque “chegou a primavera”. A florada resulta de uma combinação entre perda das folhas, disponibilidade de água, luz, temperatura e características próprias de cada espécie.
O Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, coincide justamente com a época em que muitos ipês chamam mais atenção. No Brasil central, várias espécies florescem entre julho e outubro, durante a estação seca ou na transição para as primeiras chuvas. Em outras regiões, o calendário pode se estender até novembro ou dezembro, dependendo das condições ambientais.
A seca prepara a florada
Durante a estação seca, muitos ipês perdem grande parte ou até toda a folhagem. Essa característica, chamada caducifolia, ajuda a reduzir a perda de água pelas folhas em um período de baixa disponibilidade hídrica. A copa nua também faz com que, quando os botões se abrem, as flores fiquem muito mais visíveis.
A Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás explica que a floração está associada à queda das folhas, à incidência de luz, à amplitude térmica e à disponibilidade de água. A resposta das árvores varia conforme a espécie, o local e as condições registradas naquele ano.
“Na seca, os ipês perdem as folhas para economizar energia e água. Com as copas nuas, as flores ficam mais visíveis e chamam a atenção de polinizadores como abelhas e beija-flores”.
Francieudes Pereira do Nascimento, analista ambiental da Semad de Goiás
Essa estratégia ajuda a explicar por que uma árvore pode parecer quase seca em um momento e, poucos dias depois, surgir coberta de flores. No ipê-amarelo Handroanthus chrysotrichus, por exemplo, publicações técnicas registram floração intensa entre agosto e setembro, muitas vezes com a planta praticamente sem folhas.
O fenômeno não ocorre da mesma forma em todos os ipês. Estudos de fenologia, área da botânica que acompanha eventos como brotação, queda de folhas, floração e frutificação, mostram que espécies e populações diferentes respondem de maneira distinta à chuva, à temperatura, ao fotoperíodo e à umidade do solo.
Água ajuda a ativar flores
Pesquisas com árvores da família dos ipês indicam que a disponibilidade de água tem papel decisivo. Em algumas espécies de ambientes sazonais, a recuperação do estresse hídrico depois de um período seco funciona como um dos gatilhos para a abertura das flores e o surgimento de novos brotos.
Um estudo clássico publicado na revista Ecology mostrou que, em árvores tropicais do grupo anteriormente classificado como Tabebuia, a floração dependia da recuperação do estresse hídrico. Em locais secos, isso podia acontecer depois de chuvas isoladas; em áreas mais úmidas, a própria queda das folhas reduzia a transpiração e ajudava a árvore a recuperar água nos tecidos.
Por isso, dizer que o ipê floresce “por causa da primavera” simplifica demais o processo. A primavera coincide com uma transição ambiental importante em boa parte do país, mas o momento exato pode mudar conforme a duração da seca, a chegada das primeiras chuvas, o tipo de solo, a latitude e a espécie.
Flores ganham mais destaque
A ausência de folhas durante a floração traz outra vantagem: as flores ficam expostas e mais fáceis de localizar por animais polinizadores. Abelhas, mamangavas e beija-flores visitam diferentes espécies de ipê em busca de néctar e transportam pólen entre as flores.
O Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal destaca que ipês do gênero Handroanthus atraem abelhas e beija-flores e desempenham papel ecológico além da ornamentação. As árvores também são usadas em recuperação de áreas degradadas e oferecem recursos para diferentes grupos da fauna.
Depois da floração, surgem frutos alongados que abrigam sementes aladas. A dispersão pelo vento ocorre em muitas espécies justamente no período seco ou na transição para as chuvas, o que favorece o transporte das sementes antes de condições mais úmidas estimularem a germinação.
Cada ipê tem seu calendário
Nem todos os ipês florescem ao mesmo tempo. Uma análise de registros de herbários do Nordeste identificou que espécies do gênero Handroanthus apresentaram floração principalmente entre julho e outubro, enquanto espécies de Tabebuia apareceram com maior frequência entre setembro e dezembro.
Os intervalos são referências fenológicas e podem variar conforme região, altitude, regime de chuvas, temperatura e condições de cada ano. A tabela também mostra por que dois ipês da mesma cor podem não florescer juntos: nomes populares semelhantes podem corresponder a espécies diferentes.
Essa diferença ajuda a entender por que uma cidade pode ter ipês roxos florindo primeiro, seguidos por rosas, amarelos ou brancos em momentos diferentes. Mesmo árvores próximas podem responder em semanas distintas dependendo de idade, disponibilidade de água, exposição ao sol e condições microclimáticas.
Também há variação entre anos. Pesquisas recentes mostram que mudanças na precipitação, no fotoperíodo e na temperatura podem alterar a intensidade ou o momento das fases vegetativas e reprodutivas. Em espécies estudadas no semiárido, cientistas observaram que alterações climáticas podem aumentar a queda de folhas e reduzir a intensidade da floração.
A proximidade da primavera, portanto, é parte do cenário, mas não funciona como um relógio isolado. A florada que colore o fim do inverno brasileiro resulta de uma sequência de adaptações fisiológicas e ambientais que permite aos ipês economizar água, concentrar recursos na reprodução e aproveitar condições favoráveis para atrair polinizadores e dispersar sementes.
| Calendário de floração dos ipês | ||
|---|---|---|
| Espécie | Nome popular | Período de floração |
| Handroanthus impetiginosus | Ipê-roxo-de-bola | Maio a agosto |
| Handroanthus heptaphyllus | Ipê-roxo-7-folhas | Julho a setembro |
| Handroanthus vellosoi | Ipê-cascudo, amarelo | Julho a setembro |
| Tabebuia roseoalba | Ipê-branco | Agosto a outubro |
| Handroanthus chrysotrichus | Ipê-amarelo | Agosto a novembro |
| Handroanthus serratifolius | Ipê-amarelo | Agosto a dezembro |


