Documentos da Polícia Federal que tiveram o sigilo derrubado revelam que o Banco Master criou lastros artificiais e fabricou papéis em grande escala após ser cobrado pelo Banco de Brasília para comprovar créditos bilionários. As informações integram a investigação sobre fraudes estimadas em R$ 12 bilhões em carteiras de crédito da instituição financeira.
Segundo o inquérito policial, o banco não dispunha de ativos suficientes para respaldar as operações realizadas. Para contornar a situação, a instituição passou a utilizar bases de dados fornecidas por associações por meio de intermediários, tentando preencher as lacunas operacionais identificadas pelas equipes de fiscalização e controle.
Cobranças do BRB e auditorias
O cenário de escrutínio avançou após o Banco de Brasília anunciar, em março de 2025, o interesse em adquirir uma fatia do Master. A partir desse movimento, auditorias presenciais conjuntas foram conduzidas por equipes das duas instituições financeiras em parceria com a empresa Deloitte.
No início de maio de 2025, o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, enviou alertas diretos ao banqueiro Daniel Vorcaro. As mensagens apontavam falhas graves, como a ausência de contratos firmados com associações e a falta de amostras dos créditos negociados no âmbito das carteiras analisadas.
Diante dos questionamentos, a diretoria do BRB deixou claro que novas operações ficariam travadas caso não houvesse a comprovação documental dos financiamentos e o cumprimento das exigências contratuais estipuladas pelas auditorias independentes e internas.
Fabricação em massa de CCBs
A investigação da Polícia Federal detalha que, após as pressões regulatórias e de auditoria, o Banco Master iniciou a fabricação em larga escala de documentos para tentar conferir aparência de regularidade às carteiras de crédito sob suspeita dos órgãos fiscalizadores.
A instituição formalizou contratos com uma consultoria promotora de crédito em maio de 2025. Relatórios apontam que funcionários do próprio banco produziram milhares de Cédulas de Crédito Bancário e procurações de forma acelerada para atender às demandas de comprovação.
Como o volume superava a capacidade de processamento por assinaturas digitais, colaboradores executaram assinaturas manuais em lotes de documentos gerados no mês seguinte, embora os papéis ostentassem propositalmente datas retroativas ao mês de janeiro daquele ano.
Irregularidades nas bases de dados
Antes mesmo da emissão massiva dos papéis fraudulentos, as bases de dados repassadas por parceiros comerciais já exibiam inconsistências evidentes. Análises técnicas identificaram registros com CPFs repetidos, contratos dispostos em sequência numérica e valores excessivamente arredondados.
Gerentes e procuradores internos classificaram o material recebido como incoerente diante do volume financeiro bilionário movimentado. Apresentações internas apreendidas pela polícia evidenciaram que a extração automatizada de dados e a emissão desenfreada de CCBs geravam riscos severos.
A própria governança interna do banco registrou em documentos corporativos que a manutenção daquelas práticas operacionais e a geração descontrolada de títulos poderiam acarretar danos reputacionais profundos e prejuízos financeiros irreversíveis.
Desdobramentos do inquérito
Com a queda do sigilo dos autos, os investigadores agora aprofundam a apuração sobre a cadeia de comando responsável pela emissão dos lastros fictícios e pela circulação dos documentos irregulares no mercado financeiro nacional e nas negociações institucionais.
O caso segue sob análise do poder judiciário e dos órgãos de persecução penal, que buscam responsabilizar os envolvidos na criação das garantias falsas e na tentativa de burlar os mecanismos de compliance e auditoria externa do sistema bancário.


