El Niño e conflitos elevam grãos e mexem com preços no Brasil

Risco climático, menor oferta global e custos de energia sustentam milho, soja e trigo; país pode ganhar com exportações, mas enfrenta pressão sobre alimentos e insumos

Da
Redação
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Risco climático, menor oferta global e custos de energia sustentam milho, soja e trigo; país pode ganhar com exportações, mas enfrenta pressão sobre alimentos e insumos
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Os preços internacionais dos grãos voltaram a ganhar força em setembro, em um ambiente marcado por risco climático, menor expectativa de oferta em alguns países produtores e custos elevados de energia e fertilizantes. Milho, soja e trigo respondem de maneira diferente a esses fatores, mas o mercado incorporou um prêmio maior diante das incertezas para a safra 2026/27.

A FAO reduziu em setembro sua projeção para a produção mundial de cereais em 2026 para 2,98 bilhões de toneladas, volume 2% menor que o do ano anterior. A entidade também apontou incerteza sobre fluxos de exportação pelo Mar Negro, enquanto El Niño e tensões no Oriente Médio adicionam risco às cadeias de produção e transporte.

Clima eleva prêmio de risco

O fortalecimento do El Niño está no centro das preocupações. O fenômeno pode alterar padrões de chuva em áreas importantes das Américas e da Ásia, afetando produtividade, calendário de plantio e logística. Mesmo antes de perdas confirmadas, a possibilidade de menor oferta já influencia contratos futuros e decisões de compra.

No milho, a FAO registrou alta de preços em agosto associada a dúvidas sobre rendimento em partes dos Estados Unidos e da Europa. O cereal também recebe suporte da demanda para etanol, que liga mais diretamente seu preço ao mercado de energia.

Na soja, o risco climático se soma à demanda asiática e ao uso crescente do óleo em biocombustíveis. Produtores e compradores tendem a reduzir a disposição para vender ou postergar compras quando a incerteza sobre a próxima colheita aumenta.

O trigo enfrenta uma combinação de produção menor em importantes exportadores e preocupação com rotas comerciais. A FAO projeta queda da produção mundial de trigo em 2026/27, embora os estoques ainda ofereçam algum amortecimento ao mercado.

Conflitos encarecem produção e frete

As guerras e tensões geopolíticas também influenciam os grãos por caminhos indiretos. Petróleo, gás natural, fertilizantes e transporte marítimo fazem parte da estrutura de custos da produção agrícola, e choques nesses mercados podem elevar o preço necessário para que produtores mantenham margens.

O Mar Negro continua importante para exportações de trigo, milho e fertilizantes. Qualquer restrição a portos ou rotas da região tende a aumentar a percepção de risco global, mesmo quando o volume físico disponível ainda é suficiente.

No Oriente Médio, oscilações do petróleo e incertezas logísticas afetam fretes e insumos. Esse efeito não significa que todos os grãos subirão na mesma proporção, mas aumenta a volatilidade e o custo de proteção para produtores, tradings e indústrias.

Brasil chega com safra recorde

O Brasil entra nesse cenário com uma base de oferta robusta. A Conab estima produção de 361,7 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26, alta de 2,6% sobre o ciclo anterior. Soja, milho, algodão e sorgo atingiram volumes recordes, enquanto arroz, feijão e trigo recuaram.

Uma alta internacional pode melhorar a paridade de exportação e a receita em reais, especialmente quando há demanda firme por soja e milho brasileiros. Isso tende a favorecer produtores que conseguem vender parte da safra em momentos de preços e câmbio mais favoráveis.

O benefício, porém, não é uniforme. Custos com fertilizantes, diesel, crédito e transporte continuam elevados, e um El Niño intenso pode reduzir produtividade justamente quando as cotações externas estão mais atraentes.

Alta pode chegar aos alimentos

Grãos mais caros também afetam cadeias que dependem deles como matéria-prima. Milho e farelo de soja entram na alimentação de aves, suínos e parte da pecuária, enquanto trigo e derivados têm impacto direto sobre panificados e massas.

A transmissão para o consumidor depende de câmbio, estoques, contratos, concorrência e margem das empresas. Por isso, uma alta nas bolsas internacionais não se transforma automaticamente, nem na mesma velocidade, em aumento no supermercado.

O governo já decidiu recompor estoques públicos de milho com compras de até 224 mil toneladas como medida preventiva diante do El Niño. A Conab afirma que a operação busca reforçar a capacidade de abastecimento e atender programas de venda a pequenos criadores caso a oferta fique mais apertada.

Com a próxima safra brasileira começando a ser plantada, chuva, produtividade e custos de insumos serão determinantes para saber se o prêmio internacional de risco se converterá em alta persistente também no mercado doméstico.

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