Estudo fortalece pedido de selo para Arroz Anã do Rio

Embrapa relaciona aroma, textura e composição do cereal ao território de Porto Marinho; pedido de Denominação de Origem está no INPI.

Da
Redação
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O Arroz Anã de Porto Marinho é cultivado por agricultores familiares em áreas próximas ao Rio Paraíba do Sul.Ana Bari Koifman/Unirio
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Estudos da Embrapa reuniram evidências para sustentar o pedido de Denominação de Origem do Arroz Anã de Porto Marinho, produzido por agricultores familiares em Cantagalo, no noroeste do Rio de Janeiro. A solicitação foi depositada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em 8 de agosto.

O trabalho relaciona aroma, textura, comportamento culinário e composição química do cereal às condições ambientais e ao saber-fazer da comunidade. Se reconhecido, o selo poderá proteger a identidade do produto e agregar valor à produção das cerca de 22 famílias participantes da cadeia local.

Estudos comprovam ligação com território

A pesquisa foi liderada pela Embrapa Agroindústria de Alimentos e reuniu equipes da Embrapa Arroz e Feijão, Embrapa Solos e Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). A Faperj apoiou o projeto.

Os cientistas combinaram análises físicas, químicas, nutricionais e metabolômicas com testes de qualidade tecnológica e culinária. Além disso, avaliaram a planta, os grãos, os solos e o histórico climático da área próxima ao Rio Paraíba do Sul.

“Uma Denominação de Origem exige evidências robustas de que as características do produto estão diretamente associadas ao meio geográfico e ao saber-fazer local.”

Cristina Yoshie Takeiti, pesquisadora da Embrapa

A associação territorial é central na modalidade pedida ao INPI. Diferentemente da Indicação de Procedência, a Denominação de Origem exige demonstrar que qualidades do produto decorrem essencialmente de fatores naturais e humanos locais.

Grão combina maciez e aroma intenso

Nos testes culinários, o Arroz Anã apresentou viscosidade semelhante à de variedades usadas na cozinha japonesa, conhecidas pela pegajosidade. Ao mesmo tempo, o aroma se intensificou no aquecimento de forma parecida com arrozes do tipo jasmim.

As análises identificaram baixo teor de amilose e temperatura intermediária de gelatinização. Esse conjunto resulta em grãos mais macios e levemente pegajosos, diferentes do arroz longo fino comercial.

O quadro resume as comparações usadas pelos pesquisadores para descrever o produto.

Características culinárias do Arroz Anã
Característica Arroz Anã Referência comparada
Viscosidade Perfil mais pegajoso Semelhante ao arroz japonês
Aroma no aquecimento Intensificação aromática Semelhante ao arroz jasmim
Teor de amilose Baixo Longo fino tem teor intermediário a alto
Gelatinização Temperatura intermediária Longo fino costuma ter temperatura baixa
Textura cozida Macia e levemente pegajosa Longo fino tende a ficar solto

Fonte: Embrapa

A metabolômica também revelou um perfil químico próprio. Dessa forma, a equipe constrói uma “assinatura” capaz de distinguir o produto de materiais genéticos conservados pela Embrapa.

Solo favorece cultivo e identidade

A Embrapa Solos coletou amostras em dez perfis e 50 horizontes nos municípios de Cantagalo e Itaocara. As áreas incluem várzeas com Neossolos Flúvicos e Gleissolos Háplicos, formados sob influência do Rio Paraíba do Sul.

Os testes encontraram cálcio, magnésio, potássio e ferro em níveis elevados, além de pH entre 5,7 e 8,7 até 80 centímetros. A média natural de muitos solos brasileiros fica entre 4,5 e 4,8.

Esses solos argilosos retêm água por mais tempo e favorecem o arroz. Enchentes depositam minerais e matéria orgânica nas margens, enquanto o manejo comunitário usa inundação intermitente entre novembro e abril.

Os minerais contribuem para o estresse salino associado à expressão aromática da planta. Entretanto, o sódio aparece principalmente abaixo da zona das raízes, reduzindo o risco de prejuízo ao desenvolvimento nos locais estudados.

Selo pode valorizar agricultura familiar

A Associação de Produtores Rurais, Pescadores, Artesãos, Moradores e Amigos de Porto Marinho e Entorno (Apomar) apresentou o pedido. Agora, o INPI analisa documentos, delimitação territorial e evidências.

O material genético do Arroz Anã entrou no Banco Ativo de Germoplasma da Embrapa Arroz e Feijão. A conservação protege a variedade tradicional e permite o uso das sementes em pesquisas futuras, conforme as regras da instituição.

O Brasil possui apenas um arroz com Denominação de Origem reconhecida: o Arroz do Litoral Norte Gaúcho. Eventual concessão ao produto fluminense ampliaria esse pequeno grupo.

Para as famílias, o selo pode apoiar mercado, turismo gastronômico e preservação cultural. Ainda assim, a proteção depende de organização coletiva, controle de qualidade e regras de uso capazes de manter a identidade demonstrada pelos estudos.

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