BC pode acelerar cortes de juros em dezembro, diz economista

Ivo Chermont, da Quantitas, vê espaço para redução de 0,50 ponto se cenário fiscal e expectativas melhorarem após as eleições

Da
Redação
A Redação do Jornal Maior reúne a produção jornalística do portal, com cobertura dos principais acontecimentos do Brasil e do mundo.
7 min leitura
Ivo Chermont, da Quantitas, vê espaço para redução de 0,50 ponto se cenário fiscal e expectativas melhorarem após as eleições
Ouvir notícia
00:00 / 00:00

O Banco Central poderá acelerar o ritmo de cortes da taxa Selic a partir de dezembro, caso o resultado das eleições e as primeiras sinalizações do próximo governo reduzam a percepção de risco fiscal. A avaliação é de Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas, que vê espaço para uma mudança na condução da política monetária se câmbio, expectativas de inflação e prêmio de risco reagirem de forma favorável.

A leitura parte do comunicado mais recente do Comitê de Política Monetária, que reduziu a Selic para 13,75% ao ano em 16 de setembro. Para Chermont, o texto trouxe alterações discretas, mas concentradas em uma direção mais suave, com reconhecimento mais claro da desaceleração da atividade e sinais de convergência da inflação.

Dezembro pode marcar mudança

Na avaliação do economista, a reunião de novembro ocorrerá cedo demais para que os efeitos do resultado eleitoral de 25 de outubro sejam plenamente incorporados aos indicadores e aos preços dos ativos. A reunião de dezembro, por outro lado, daria ao Banco Central mais tempo para observar as primeiras indicações sobre a política econômica do presidente eleito.

A política fiscal aparece como elemento central dessa leitura. Sinais de maior compromisso com o equilíbrio das contas públicas poderiam reduzir o prêmio de risco, aliviar a pressão sobre o câmbio e contribuir para uma melhora das expectativas de inflação. Esse conjunto de fatores, segundo a análise da Quantitas, ampliaria a margem para cortes maiores na taxa básica.

“Para a reunião de dezembro já é bastante tempo. A gente já vai ter muito mais informação do que o novo presidente pretende fazer”.

Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas

Chermont considera que uma aceleração para cortes de 0,50 ponto percentual seria suficiente para intensificar a flexibilização sem colocar em risco os avanços obtidos no processo de desinflação. A hipótese depende, porém, da evolução dos dados e da percepção do mercado sobre a trajetória fiscal.

O cenário não implica uma decisão automática do Copom. O comitê costuma condicionar seus próximos passos à evolução da inflação, das expectativas, da atividade econômica, do mercado de trabalho e do ambiente externo, além dos efeitos da política fiscal sobre os preços de ativos.

Selic cai desde março

O ciclo de redução dos juros começou em março de 2026, quando a Selic caiu de 15% para 14,75% ao ano. Desde então, o Copom manteve cortes de 0,25 ponto percentual em abril, junho, agosto e setembro, levando a taxa ao atual patamar de 13,75%.

Como a Selic caiu em 2026
ReuniãoDataMeta Selic
277ª18/03/202614,75% ao ano
278ª29/04/202614,50% ao ano
279ª17/06/202614,25% ao ano
280ª05/08/202614,00% ao ano
281ª16/09/202613,75% ao ano
Fonte: Banco Central.

A sequência mostra que, até agora, o BC preferiu um ritmo gradual de flexibilização. Em junho, o Relatório de Política Monetária já destacava que a trajetória esperada pelo mercado havia se tornado mais lenta do que a projetada meses antes, refletindo a preocupação com inflação e riscos associados ao cenário econômico.

A leitura de Chermont é que o comunicado de setembro trouxe sinais de maior conforto com a desaceleração da economia, ainda que sem compromisso explícito com uma aceleração dos cortes. A mudança de ritmo, portanto, dependeria de confirmação adicional nos próximos meses.

Inflação limita espaço

Mesmo com a atividade mais fraca, a inflação continua sendo o principal limite para uma redução mais rápida dos juros. Chermont afirmou que, em um cenário de desaceleração econômica combinada com inflação persistente acima da meta, o Banco Central tende a priorizar o controle dos preços.

“A inflação acaba predominando e o Banco Central vai ter que ser bem mais cauteloso, seja cortando menos ou seja parando os juros num patamar mais alto”.

Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas

O economista citou 2015 como exemplo de um período em que a fraqueza da atividade não foi suficiente para abrir espaço a uma política monetária mais branda, porque a inflação seguia pressionada. Ele ressalvou que não projeta uma repetição daquele quadro, usando o episódio apenas para ilustrar a prioridade dada à estabilidade de preços.

O próprio Banco Central mantém a inflação como referência principal de suas decisões. A meta contínua é de 3%, e a condução dos juros busca levar a variação dos preços de volta ao objetivo no horizonte relevante, sem responder mecanicamente a apenas um indicador.

Fiscal pesa nas expectativas

A política fiscal pode influenciar a decisão de juros porque afeta a percepção de risco sobre a dívida pública, o câmbio e as expectativas de inflação. Uma piora nessas variáveis tende a exigir maior cautela do Banco Central, enquanto uma melhora consistente pode facilitar a convergência dos preços e permitir cortes mais intensos.

Na avaliação apresentada pela Quantitas, dezembro seria o primeiro momento em que o Copom teria informações mais concretas sobre a orientação econômica do próximo governo. Até lá, o comportamento dos preços, da atividade e das expectativas continuará determinando o espaço efetivo para a flexibilização monetária.

O histórico oficial do Banco Central mostra que a Selic já caiu 1,25 ponto percentual desde janeiro, quando estava em 15% ao ano. A próxima mudança de ritmo dependerá das condições observadas nas reuniões seguintes, sem compromisso prévio com um corte de 0,50 ponto percentual.

WhatsAppFacebook
Share This Article
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *