Uma investigação da organização Mercy For Animals (MFA) relata ter registrado a trituração de pintinhos machos recém-nascidos em um incubatório de grande porte da indústria de ovos na Região Sul. Segundo a entidade, cerca de 35 mil animais foram mortos em um único dia na unidade, cujo nome não foi divulgado.
A MFA afirma que os animais tinham menos de 24 horas de vida. A organização sustenta que a prática integra a rotina produtiva de quase toda a indústria de ovos e anunciou a intenção de encaminhar uma denúncia ao Ministério Público para que os órgãos competentes avaliem as imagens e práticas registradas.
Investigação relata separação após o nascimento
De acordo com a Mercy For Animals, os machos são separados das fêmeas logo depois de nascerem. Eles não põem ovos e, conforme a organização, também não apresentam as características genéticas desejadas para a produção de carne.
A investigação descreve que os pintinhos eram colocados em máquinas com lâminas rotativas de alta velocidade. O material também aponta que os chamados maceradores mecânicos podem não causar a morte imediata em todos os casos, o que, na avaliação da entidade, prolonga o sofrimento dos animais.
Luiza Schneider, vice-presidente de Investigações da MFA, afirmou que o trabalho não partiu de uma denúncia específica contra a unidade. Segundo ela, a apuração buscou registrar uma prática que a organização considera representativa do setor e discutir seus efeitos sobre o bem-estar animal.
MFA cita também descarte de fêmeas
Além dos machos, a investigação identificou o descarte de fêmeas em menor volume, segundo a MFA. A organização relaciona esses casos a anomalias, deformidades, sangramentos, nascimento prematuro ou excesso de animais em relação à demanda dos criadores.
A entidade associa a discussão à capacidade de os pintinhos sentirem medo ou dor física. Schneider declarou que os animais recém-nascidos já têm o sistema nervoso formado e capacidade de senciência.
O debate sobre a técnica, portanto, envolve o modo de produção de ovos e os parâmetros de proteção animal aplicáveis à cadeia. A MFA considera que a questão precisa ser enfrentada também por meio de tecnologias que eliminem o descarte depois da eclosão.
Sexagem in ovo evita o nascimento dos machos
A principal alternativa citada pelas organizações é a sexagem in ovo. A tecnologia identifica o sexo do embrião ainda durante a incubação e permite retirar os ovos com embriões machos antes da eclosão.
Segundo a Innovate Animal Ag, cerca de 130 milhões de aproximadamente 340 milhões de poedeiras da União Europeia vinham desse método em junho deste ano. Alemanha, França, Áustria e Itália aprovaram leis contra a trituração de pintinhos, conforme o material reunido pela organização.
Já Noruega e Suíça avançam para eliminar a prática por decisões de mercado, ainda segundo a Innovate Animal Ag. Vanessa Garbini, vice-presidente de Relações Institucionais e Governamentais da MFA, avalia que as experiências europeias indicam a viabilidade da transição.
Tecnologia opera no Brasil desde 2025
A primeira máquina de sexagem in ovo no Brasil foi instalada em julho de 2025 no incubatório da Hy-Line do Brasil, em Nova Granada, no interior paulista. A Raiar Orgânicos atuou como cliente-âncora da iniciativa.
Com cerca de 400 mil aves, a empresa se comprometeu a converter todo o plantel. Os primeiros ovos produzidos com a tecnologia chegaram ao mercado em dezembro de 2025.
Apesar da instalação, a Innovate Animal Ag informa que o equipamento opera abaixo de sua capacidade. Por isso, a adoção da sexagem in ovo ainda tem alcance limitado no país.
Custo limita a expansão da sexagem in ovo
O principal entrave apontado pelo panorama da Innovate Animal Ag é financeiro. O documento estima custo de cerca de R$ 7 por ave no método convencional no Brasil, enquanto a adoção da tecnologia acrescentaria entre R$ 5 e R$ 10 por animal.
Na comparação apresentada, o adicional representa aumento de aproximadamente 80% a 150% no preço da ave. Por outro lado, o estudo estima que uma poedeira produza cerca de 350 ovos durante seu ciclo, o que diluiria o valor em poucos centavos por dúzia para o consumidor.
As entidades de defesa dos animais citam compromissos públicos de Planalto Ovos, Grupo Mantiqueira e Korin para suspender a trituração. Segundo elas, as empresas condicionam a mudança à disponibilidade de uma solução economicamente acessível e viável na operação.
Em agosto, um encontro nacional sobre sexagem in ovo reuniu empresas de tecnologia, produtores de ovos, instituições financeiras e órgãos públicos. Entre os participantes estavam o Ministério da Agricultura e Pecuária e a Financiadora de Estudos e Projetos.
Projetos levam o tema ao Congresso
O Brasil não tem norma federal específica que proíba ou restrinja o descarte de pintinhos machos. No entanto, o assunto chegou ao Congresso Nacional por meio dos projetos de lei 783/2024 e 3034/2026.
O PL 783/2024, apresentado pela deputada Luciene Cavalcante (PSOL-SP), passou pelas comissões de Meio Ambiente e de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara. Segundo a MFA, a proposta recebeu parecer contrário na comissão de Agricultura por motivos econômicos e deve seguir ao plenário.
Já o PL 3034/2026, apresentado pela deputada Heloísa Helena (Rede-RJ) em junho, está no início da tramitação. A MFA argumenta que a vedação constitucional a práticas que submetam animais à crueldade e as regras ambientais sobre maus-tratos podem integrar a discussão, cuja avaliação jurídica cabe às autoridades competentes.
Uma pesquisa da Innovate Animal Ag com 1.553 compradores de ovos no Brasil apontou que 73% dos participantes se sentem desconfortáveis com o abate de pintinhos machos. Além disso, 76% concordaram que a indústria deveria buscar uma alternativa, enquanto 79% manifestaram interesse em ovos produzidos com sexagem in ovo.
No mesmo levantamento, 76% disseram que pagariam mais por esse produto, com disposição média de R$ 3,87 por dúzia. Para a MFA, ampliar o conhecimento do público sobre a cadeia produtiva pode influenciar a pressão por mudanças tecnológicas e legislativas.


