A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira (23/9) uma nova fase da Operação Disco de Ouro, cumprindo mandados de busca e apreensão e ordens de sequestro de bens e valores autorizados pela Justiça Federal. A investigação apura um esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de recursos superiores a US$ 48 milhões, obtidos por meio da extração e comercialização ilegal de cassiterita da Terra Indígena Yanomami.
Documentos obtidos durante a apuração apontam que mais de R$ 45 milhões foram direcionados a produtoras de eventos, empresas de sonorização e pessoas ligadas ao setor artístico. Entre os principais alvos e destinatários dos recursos estão empresas vinculadas ao cantor Alexandre Pires e ao empresário Matheus Possebon, que já haviam entrado no radar das autoridades na primeira fase da operação, em dezembro de 2023.
Investigação aponta repasses e movimentações atípicas
Os registros financeiros detalham que a empresa de Alexandre Pires recebeu R$ 2,5 milhões em depósitos fracionados em março de 2023. Além disso, a apuração identificou R$ 1,3 milhão em repasses diretos de uma mineradora investigada para o grupo do cantor.
Os relatórios de inteligência financeira mostram ainda movimentações consideradas atípicas de R$ 5,3 milhões envolvendo a empresa do artista e de R$ 21,2 milhões relacionadas diretamente ao cantor. No caso de Matheus Possebon, a produtora do empresário recebeu R$ 19,3 milhões de empresas do comércio de metais, valor que os investigadores consideram desproporcional.
Outra empresa citada nos documentos é especializada em estrutura e sonorização de shows e recebeu R$ 18,2 milhões por meio de transações informais conhecidas como dólar-cabo. O único sócio da companhia é apontado pelos investigadores como amigo pessoal da família Possebon, reforçando as suspeitas de ocultação patrimonial.
Esquema ocultou milhões com ouro e minérios
O inquérito policial teve início após a apreensão, em janeiro de 2022, de aproximadamente 30 toneladas de cassiterita retiradas de forma clandestina da Terra Indígena Yanomami, em Roraima. O minério é fundamental para a produção de estanho, e sua exploração irregular causa graves impactos ambientais na região.
Não houve qualquer outra relação jurídica ou comercial entre Alexandre Pires e Matheus Possebon além daquela diretamente ligada à atividade artística do cantor.”
Defesa de Alexandre Pires
Para dar aparência de legalidade ao produto, o esquema utilizava documentos falsos que declaravam a origem do minério em uma área regular de garimpo localizada em Itaituba, no Pará. Desse modo, o trajeto real do minério extraído ilegalmente era encoberto por rotas fictícias de transporte.
A rede criminosa recorria a empresas nacionais e estrangeiras, contas de terceiros e operações internacionais para pulverizar o dinheiro e dificultar o rastreamento. O uso do dólar-cabo permitia transferências informais entre países, blindando os verdadeiros beneficiários dos recursos ilícitos.
Defesa do cantor destaca atuação artística
Em nota oficial, a defesa de Alexandre Pires declarou que a relação profissional mantida com o empresário Matheus Possebon esteve restrita exclusivamente à intermediação da venda de shows do artista durante o período investigado.
“Não houve qualquer outra relação jurídica ou comercial entre Alexandre Pires e Matheus Possebon além daquela diretamente ligada à atividade artística do cantor”, informou a nota da defesa enviada à imprensa.
A defesa afirmou que o cantor segue com tranquilidade sua vida pessoal e profissional, mantendo total confiança no esclarecimento dos fatos e na demonstração da verdade pela Justiça.
Operação Disco de Ouro avança na Amazônia
A nova fase da Operação Disco de Ouro reforça o cerne das investigações da Polícia Federal contra as rotas de lavagem de dinheiro ligadas ao garimpo ilegal na Amazônia. As autoridades buscam desarticular a conexão entre a exploração clandestina em terras indígenas e setores econômicos formais, como o mercado de entretenimento.
O cumprimento de 12 mandados de busca e apreensão e 17 ordens de sequestro de bens e valores demonstra a amplitude do trabalho de asfixia financeira conduzido pelos órgãos federais. A análise documental e a quebra de sigilos continuam para mapear toda a extensão da rede criminosa.
As autoridades federais ressaltam que o uso de empresas de fachada e o envolvimento de figuras públicas e produtoras mostram a complexidade das operações de lavagem de capitais estruturadas pelo garimpo ilegal na região norte do país.


