Michael P. Desronvil, o único jurado que se recusou a votar pela absolvição de Lindsay Clancy por falta de responsabilidade criminal, falou publicamente após o julgamento anulado em Massachusetts e disse que não tinha dúvidas sobre as provas apresentadas pela promotoria. A declaração reabre o debate sobre o impasse que levou o processo a terminar sem veredito em 4 de setembro.
Clancy, ex-enfermeira de obstetrícia, é acusada de matar os três filhos, Cora, de 5 anos, Dawson, de 3, e Callan, de 8 meses, em janeiro de 2023. Ela admite ter cometido os estrangulamentos, mas a defesa sustenta que sofria de psicose pós-parto e não teria capacidade de compreender plenamente a natureza criminal dos atos naquele momento.
Jurado rebate versão dos colegas
Desronvil afirmou que sua posição durante as deliberações foi mal interpretada por outros integrantes do júri. Segundo ele, as discussões sobre hipóteses e possíveis cenários foram tratadas pelos colegas como se representassem incerteza sobre a prova produzida no julgamento.
“Eu não tinha dúvidas.”
Michael P. Desronvil
O jurado disse que as provas físicas e os depoimentos apresentados pela acusação foram suficientes, em sua avaliação, para demonstrar que Clancy sabia o que estava fazendo e teria planejado os assassinatos.
Essa leitura contrasta diretamente com relatos de outros jurados, que afirmaram após o julgamento que Desronvil teria reconhecido a existência de dúvida razoável, mas se recusado a aplicar esse entendimento ao veredito.
O impasse acabou impedindo uma decisão unânime e levou o juiz William Sullivan a declarar o julgamento sem efeito após mais de 38 horas de deliberação.
Júri ficou dividido em 11 a 1
Ao fim das discussões, 11 dos 12 jurados estavam inclinados a considerar Clancy não criminalmente responsável pelas mortes em razão de doença mental. Desronvil permaneceu como único voto contrário.
A presidente do júri, Roni Carlson, chegou a informar ao juiz que o jurado dissidente reconhecia a existência de dúvida, mas se recusava a seguir as instruções legais sobre como esse padrão deveria influenciar a decisão.
A defesa pediu que ele fosse substituído por um jurado reserva, sustentando que sua postura impediria uma deliberação adequada. O pedido foi rejeitado pelo juiz, que evitou aprofundar questionamentos sobre o conteúdo interno das discussões do júri.
Sem unanimidade, o processo terminou em anulação, e a promotoria ainda precisa decidir se buscará um novo julgamento.
Defesa alegou psicose pós-parto
O eixo central da defesa foi a alegação de que Lindsay Clancy enfrentava um quadro grave de psicose pós-parto quando matou os filhos. Seus advogados disseram que ela vinha passando por meses de deterioração da saúde mental e tratamento com medicamentos.
Durante o julgamento, a defesa apresentou testemunhos e registros médicos para sustentar que Clancy estava em um episódio psicótico. Também apontou relatos de que ela teria ouvido uma voz masculina ordenando que agisse.
A defesa argumentou que, nesse estado, Clancy não teria capacidade de distinguir adequadamente o certo do errado nem de avaliar a natureza criminosa dos próprios atos.
Se fosse considerada não culpada por falta de responsabilidade criminal, Clancy não seria simplesmente libertada. Ela poderia ser submetida a internação e avaliação em uma instituição psiquiátrica estadual.
Promotoria apontou planejamento
A acusação construiu uma narrativa diferente. Promotores destacaram ações tomadas por Clancy antes das mortes, incluindo o fato de ter enviado o então marido, Patrick Clancy, para buscar comida e passar em uma farmácia.
Segundo o processo, ela também teria consultado no celular quanto tempo o marido levaria para cumprir os compromissos e retornar para casa. Para a acusação, esse comportamento indicaria planejamento e consciência do que faria.
Quando Patrick voltou, encontrou a mulher no quintal, ferida após uma tentativa de suicídio. Depois, localizou os filhos no porão com faixas elásticas de exercícios presas ao redor do pescoço.
Clancy havia se ferido com uma faca e saltado de uma janela do segundo andar. A queda provocou lesões graves e a deixou paralisada.
Outros jurados criticaram postura
Depois do julgamento, integrantes do júri deram entrevistas descrevendo uma deliberação marcada por tensão. Alguns disseram que o jurado dissidente se afastava das discussões e, em certos momentos, mexia no celular.
Outro jurado afirmou que Desronvil não apresentava elementos concretos para sustentar sua posição e chegou a reproduzir fisicamente parte da dinâmica dos estrangulamentos usando um objeto durante as deliberações.
Esses relatos são versões individuais dos jurados sobre o que ocorreu dentro da sala de deliberação. Desronvil contesta a caracterização feita pelos colegas e afirma que suas posições foram deturpadas.
O caso ganhou ainda mais repercussão justamente porque o impasse ficou concentrado em uma única pessoa. Isso transformou a dinâmica interna do júri em tema público após a anulação do julgamento.
Novo julgamento ainda é incerto
Lindsay Clancy deve voltar ao tribunal em 29 de setembro. Até lá, a promotoria deverá avaliar se pede um novo julgamento, negocia algum acordo ou adota outra medida processual.
Como o primeiro júri não chegou a um veredito final, o caso permanece aberto. A anulação não representa absolvição nem condenação e mantém a acusação criminal pendente.
O novo depoimento público de Desronvil adiciona uma versão importante ao debate sobre por que o júri não conseguiu chegar a uma decisão. Enquanto ele sustenta que as provas o convenceram, outros jurados afirmam que havia dúvida razoável suficiente para afastar a responsabilidade criminal.
A próxima etapa judicial deverá mostrar se a promotoria considera viável tentar novamente uma condenação ou se o processo seguirá por outro caminho. Até lá, o caso continua marcado pela mesma questão que dividiu o júri: não se Clancy matou os filhos, fato que ela admite, mas se tinha responsabilidade criminal plena quando cometeu os atos.


