Uma investigação sobre a cadeia de penas de avestruz na África do Sul registrou aves sendo contidas, encapuzadas e submetidas à retirada de penas enquanto ainda estavam vivas. O material, reunido pelas organizações World Animal Protection e Collective Fashion Justice, aponta que parte da produção abastece marcas de luxo e outras empresas do setor de moda.
O relatório, intitulado “Blood Feathers”, descreve o uso de equipamentos mecânicos, tesouras e alicates para cortar ou arrancar penas. As entidades afirmam que alguns procedimentos ocorreram sem analgesia e que aves voltavam a passar pelo processo em intervalos de aproximadamente seis meses.
A investigação cita fazendas e unidades de processamento ligadas ao fornecimento de penas para marcas como YSL, Louis Vuitton, Dior e Chanel, além da varejista Shein. A afirmação parte do rastreamento realizado pelas organizações e não equivale, por si só, a prova de que cada empresa tenha conhecimento direto das práticas registradas em todas as etapas da cadeia.
Aves foram contidas e depenadas
As imagens descritas no relatório mostram trabalhadores reunindo os avestruzes, colocando sacos sobre suas cabeças e retirando penas com diferentes instrumentos. Em alguns casos, as organizações relatam que penas ainda ligadas ao suprimento de sangue foram cortadas e depois removidas com alicates.
Essas penas em crescimento são conhecidas como “blood feathers”, expressão que deu nome ao relatório. A retirada pode provocar sangramento porque o eixo da pena ainda contém vasos sanguíneos durante essa fase de desenvolvimento.
As entidades também registraram aves feridas, algumas com dificuldade para permanecer de pé e outras com lesões provocadas por bicadas entre os próprios animais. O relatório associa esses comportamentos às condições de confinamento observadas nas propriedades visitadas.
A investigação contesta a ideia de que todas as penas usadas na moda sejam simplesmente recolhidas durante a muda natural. Organizações de bem-estar animal sustentam que, em cadeias comerciais, as penas podem ser cortadas ou arrancadas antes do abate.
Luxo aparece no fim da cadeia
A África do Sul responde por cerca de 75% do mercado mundial de avestruzes, segundo os dados citados no levantamento. A criação comercial fornece carne, couro e penas, que entram em diferentes mercados internacionais.
O relatório afirma que mais de 150 toneladas de penas de avestruz foram exportadas pelo país na temporada 2024-2025. No mesmo período, aproximadamente 150 mil aves teriam sido abatidas para abastecer as cadeias de carne, couro e penas, com base em dados obtidos do governo sul-africano.
Penas de maior qualidade são usadas principalmente em moda, figurinos e peças de acabamento. A World Ostrich Association informa que penas adultas de asas e exemplares de maior qualidade são destinadas, entre outros usos, a desfiles, espetáculos e produtos de moda.
Entidades cobram mudança da moda
As organizações responsáveis pela investigação defendem que marcas substituam penas naturais por alternativas sintéticas ou de origem vegetal capazes de reproduzir volume, movimento e leveza.
Penas são a nova pele: é a mesma crueldade, apenas com um animal diferente”.
Olivia Charlton, World Animal Protection
A Collective Fashion Justice afirma que materiais como ráfia, fibras manipuladas, biofibras e plumas artificiais já conseguem produzir efeitos visuais semelhantes aos procurados por estilistas.
A crítica central das entidades é que parte da indústria abandonou o uso de peles por razões de bem-estar animal, mas manteve penas de avestruz em roupas e acessórios de luxo.
Comércio de penas tem longa história
A produção de penas de avestruz tem importância histórica na África do Sul. No início do século 20, o produto chegou a figurar entre as principais exportações do país, impulsionado pela demanda internacional da moda.
Hoje, a criação comercial continua concentrada no sul da África, embora existam fazendas de avestruzes em outras regiões do mundo. O valor econômico das penas varia conforme tamanho, cor, qualidade e origem.
O novo levantamento amplia a pressão sobre empresas de moda para que revelem a origem dos materiais usados em coleções e adotem políticas específicas para penas decorativas. As organizações pedem que marcas publiquem critérios de rastreabilidade e eliminem práticas que envolvam retirada de penas de animais vivos.


