Cerca de 1,5 milhão de crianças e adolescentes de 12 a 17 anos que usam internet no Paquistão sofreram ao menos uma forma de exploração ou abuso sexual facilitado por tecnologia em um período de 12 meses, segundo o relatório “Disrupting Harm in Pakistan”. O levantamento foi produzido por UNICEF Innocenti, ECPAT International e Interpol, com financiamento da iniciativa Safe Online.
O número equivale a quase uma em cada 16 crianças conectadas nessa faixa etária. A pesquisa é apresentada como a avaliação mais abrangente já realizada no país sobre esse tipo de violência e combina entrevistas domiciliares, dados de crianças e responsáveis, relatos de profissionais da linha de frente e análise das leis e políticas de proteção.
Entre as situações registradas estão conversas ou imagens sexuais indesejadas, pedidos de conteúdo íntimo, compartilhamento sem consentimento, ameaças, chantagem e uso de inteligência artificial para criar material sexualmente abusivo. O estudo também aponta que a maior parte das vítimas enfrenta barreiras para buscar ajuda formal.
Pesquisa estima 1,5 milhão de vítimas
Quase 6% das crianças e adolescentes de 12 a 17 anos que usam internet no país disseram ter enfrentado ao menos uma forma de exploração ou abuso sexual facilitado por tecnologia no ano anterior à pesquisa. A estimativa populacional resultante é de aproximadamente 1,5 milhão de vítimas.
O levantamento não trata apenas de crimes ocorridos integralmente dentro de plataformas digitais. A definição usada inclui situações em que tecnologia, aplicativos ou serviços online são empregados para facilitar, ampliar ou registrar formas de abuso que também podem ter consequências fora da internet.
Em 85% dos episódios relatados pelas crianças, o agressor era alguém que a vítima já conhecia. O dado contraria a percepção de que o principal risco no ambiente digital estaria restrito a desconhecidos que fazem contato pela primeira vez.
As redes sociais responderam por 44% dos casos reportados como ambiente digital associado ao abuso. O relatório também identifica riscos emergentes, como extorsão sexual, chantagem e produção de material abusivo gerado por inteligência artificial.
Medo e estigma mantêm casos ocultos
Mais da metade das crianças que sofreram esse tipo de violência não contou a ninguém o que havia acontecido. Nenhuma das crianças entrevistadas declarou ter procurado canais formais, como polícia, assistentes sociais ou linhas de ajuda.
Os pesquisadores associam esse silêncio a fatores como estigma comunitário, culpabilização da vítima, receio de consequências dentro da família e falta de confiança nas instituições responsáveis por receber denúncias.
O estudo aponta ainda que meninos e meninas aparecem em proporções semelhantes entre as vítimas, embora possam enfrentar pressões sociais diferentes. Entre os meninos, expectativas ligadas à masculinidade podem dificultar o reconhecimento da violência e reduzir a procura por ajuda.
UNICEF cobra proteção mais forte
O relatório defende que a responsabilidade pela segurança digital não seja colocada apenas sobre crianças e famílias. Entre as recomendações estão legislação atualizada, maior responsabilização de plataformas, mecanismos de segurança incorporados aos serviços digitais e canais confidenciais para denúncia e atendimento.
O mundo digital deve ser um espaço seguro para as crianças”.
Pernille Ironside, representante do UNICEF no Paquistão
A representante do UNICEF no país, Pernille Ironside, defendeu sistemas capazes de prevenir abusos e responsabilizar agressores e plataformas. A organização também pede maior coordenação entre governo, polícia, Justiça, escolas, famílias e serviços sociais.
O relatório afirma que o Paquistão já possui bases legais relevantes para enfrentar crimes digitais contra crianças, mas identifica falhas de implementação e de atendimento. Uma das lacunas citadas é a ausência de exigência sistemática para que entrevistas forenses com crianças sejam conduzidas por profissionais especialmente treinados.
Resposta exige prevenção e acesso à Justiça
A Comissão Nacional dos Direitos da Criança do Paquistão defendeu que as proteções existentes sejam transformadas em medidas efetivas, com atendimento sensível às vítimas e instituições capazes de investigar e processar os casos.
A Interpol também recomendou reforço da cooperação entre setores e uso dos dados para orientar prevenção, investigação e apoio às vítimas. O órgão alerta que avanços tecnológicos podem ser explorados por agressores quando mecanismos de proteção não evoluem no mesmo ritmo.
O estudo foi lançado em Islamabad no início de setembro e reúne evidências nacionais para orientar políticas públicas. As organizações responsáveis afirmam que a prioridade é ampliar formas seguras e acessíveis de pedir ajuda, reduzir o estigma e impedir que a exposição digital resulte em novas formas de coerção e abuso.


