O nome “Golfo da América”, adotado pelo governo de Donald Trump para substituir “Golfo do México”, perdeu espaço na imprensa dos Estados Unidos entre fevereiro de 2025 e agosto de 2026. A tendência aparece até em veículos com público majoritariamente republicano.
Uma análise do Nieman Journalism Lab baseada no Media Cloud acompanhou o uso das duas expressões em centenas de sites. Entre grandes veículos nacionais, “Golfo do México” passou de uma vantagem de 1,24 para 7,23 vezes sobre a denominação escolhida pelo presidente.
O resultado indica que a mudança administrativa foi incorporada por órgãos federais e plataformas digitais, mas não se consolidou na linguagem jornalística. A disputa também expôs um conflito entre o poder do governo para nomear acidentes geográficos em bases oficiais e a autonomia editorial da imprensa.
Ordem muda nome no governo
Trump assinou em 20 de janeiro de 2025 a ordem executiva 14172, que determinou o uso de “Golfo da América” por agências federais. Poucos dias depois, a denominação entrou no sistema oficial de nomes geográficos dos Estados Unidos.
A mudança tem alcance dentro da administração norte-americana, mas o golfo também banha México e Cuba. Por isso, governos, organizações internacionais e veículos de comunicação fora dos Estados Unidos não ficaram obrigados a adotar o novo termo.
Google, Apple e Microsoft ajustaram seus mapas de formas diferentes. Nos Estados Unidos, usuários passaram a ver “Golfo da América”; no México, permaneceu “Golfo do México”; em outras regiões, plataformas exibiram os dois nomes.
A incorporação em mapas ampliou a visibilidade da proposta. No entanto, o uso cotidiano depende de reconhecimento social e editorial, algo que uma ordem presidencial não consegue determinar fora da estrutura federal.
Levantamento mede adoção na mídia
O pesquisador Joshua Benton consultou o Media Cloud para localizar notícias que usaram apenas “Gulf of Mexico”, apenas “Gulf of America” ou as duas expressões. O período analisado foi de 1º de fevereiro de 2025 a 26 de agosto de 2026.
A amostra incluiu 247 grandes veículos nacionais, 572 sites mais compartilhados por democratas e 406 mais compartilhados por republicanos. Para reduzir distorções provocadas pela cobertura da própria controvérsia, textos com os dois nomes ficaram fora da comparação principal.
O quadro mostra como a proporção mudou do início ao fim da série. Valores acima de 1 indicam maior uso exclusivo de “Golfo do México”.
| Grupo de veículos | Início da série | Fim da série |
|---|---|---|
| Grandes veículos nacionais | 1,24 vez mais “México” | 7,23 vezes mais “México” |
| Preferidos por democratas | 2,51 vezes mais “México” | 26,89 vezes mais “México” |
| Preferidos por republicanos | 0,58 vez “México” | 3,13 vezes mais “México” |
Fonte: Media Cloud e Nieman Journalism Lab
No grupo republicano, o início da série favorecia “Golfo da América”. Porém, essa preferência durou menos de três meses após a ordem executiva e depois se inverteu.
Veículos mantêm o uso tradicional
Entre 292 sites que mencionaram um dos nomes ao menos dez vezes, 157 usaram “Golfo da América” sozinho em menos de 10% das matérias. Dos 123 veículos com público republicano incluídos nesse recorte, apenas 15 preferiram o termo de Trump em mais da metade dos textos.
Associated Press, Reuters, New York Times e Washington Post mantiveram “Golfo do México” como referência principal. Fox News adotou o nome proposto pela Casa Branca, enquanto a rede Gannett decidiu apresentar as duas formas.
A AP justificou que atende leitores e clientes em todo o mundo e, por isso, precisa usar uma denominação geográfica reconhecível. A agência informou que mencionaria a decisão de Trump quando o contexto fosse relevante.
A AP deve garantir que nomes de lugares e a geografia sejam facilmente reconhecíveis por todos os públicos”
Amanda Barrett, vice-presidente de padrões da Associated Press
Além disso, o Golfo do México carrega esse nome há séculos. A continuidade histórica, a localização internacional e a clareza para leitores fora dos Estados Unidos pesaram nas decisões editoriais.
Disputa chega aos tribunais
A divergência deixou de ser apenas uma questão de estilo quando a Casa Branca restringiu o acesso de jornalistas da AP a eventos presidenciais. O governo condicionou a retomada da participação plena à adoção do novo nome.
A agência processou autoridades da administração e alegou retaliação por uma escolha editorial protegida pela Primeira Emenda. Uma decisão de primeira instância considerou que o governo não poderia excluir jornalistas com base no conteúdo publicado.
Organizações de imprensa com orientações editoriais diferentes apoiaram a AP na disputa. O argumento comum foi que o governo pode escolher a linguagem de seus próprios documentos, mas não deve usar o acesso jornalístico para impor vocabulário a redações independentes.
Enquanto o processo jurídico segue seus desdobramentos, o comportamento observado pelo Media Cloud mostra outra limitação prática. Mesmo veículos próximos ao público republicano voltaram a preferir a expressão histórica na maior parte de suas notícias.
A tentativa de renomear o golfo, portanto, produziu efeitos administrativos e tecnológicos, mas não estabeleceu um novo consenso. Na mídia norte-americana, “Golfo do México” ampliou a liderança ao longo dos 18 meses analisados.


