O jogador argentino Matías Pourrain, do Miami United FC, relatou ter enfrentado falta de comida, acesso precário à água e ausência de banho nos primeiros dias após ser detido por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). O Departamento de Segurança Interna (DHS), porém, negou que os centros de detenção do órgão tenham más condições.
Segundo Pourrain, a abordagem ocorreu em 6 de agosto, no aeroporto de Fort Lauderdale-Hollywood, na Flórida, quando ele se preparava para viajar a Los Angeles com o time. O DHS informou que ele foi libertado sob fiança em 28 de agosto e continua à espera do desfecho de seu processo de deportação.
Abordagem interrompe viagem do jogador
Pourrain, de 34 anos, vive nos Estados Unidos desde 2019. Ele disse que conciliava os treinos pelo Miami United FC com aulas em uma academia na Flórida antes da detenção.
De acordo com seu relato, duas pessoas à paisana o abordaram no aeroporto enquanto ele tomava água quente para mate. Após pedirem que ele as acompanhasse para checar informações em um computador, os agentes disseram que ele teria de ir com eles, afirmou o jogador.
Pourrain declarou ter entrado legalmente no país e permanecido após o vencimento de sua autorização, embora mantenha um processo migratório pendente. Ele também afirmou não ter antecedentes criminais, além de multas de trânsito, e disse possuir permissão de trabalho e carteira de habilitação válida para voos domésticos.
DHS aponta permanência além do prazo
Em resposta sobre o caso, um porta-voz do DHS informou que Pourrain entrou legalmente nos Estados Unidos pelo Aeroporto Intercontinental de Atlanta em 12 de novembro de 2019. Segundo o departamento, a autorização permitia que ele permanecesse no país por seis meses.
O órgão afirmou que o argentino continuou no território americano após 11 de maio de 2020, o que classificou como violação das leis do país. Essa é a versão oficial apresentada pelo DHS sobre a situação migratória do atleta.
O jogador, por sua vez, disse que seu processo de imigração já estava em andamento. Portanto, a prisão não encerrou nem alterou a situação de seu caso, que permanece pendente nos tribunais migratórios, conforme o relato divulgado.
Relato descreve primeiros dias em Miramar
Após a prisão, Pourrain foi levado ao centro de processamento do ICE em Miramar. Ele afirmou que passou três dias sem comer e sem poder tomar banho, além de enfrentar dificuldades para obter água potável.
Segundo o atleta, 68 pessoas dividiam o local onde ficou. Ele relatou que os detidos recebiam uma garrafa de meio litro de água por dia e que o único ponto para reabastecê-la ficava ao lado do banheiro, situação que, na sua descrição, inviabilizava o consumo.
Além disso, Pourrain disse ter passado mais de um dia sem falar com a família nem compreender a razão exata da custódia. Ele afirmou que só conseguiu contatar a esposa na sexta-feira seguinte, quando o clube já a havia informado e ela contava com apoio de um advogado.
Órgão nega falhas e cita padrões
O DHS contestou as alegações do jogador sobre o centro de Miramar. Em declaração atribuída a um porta-voz, o departamento afirmou que relatos de más condições nas unidades do ICE são falsos.
Segundo o órgão, os padrões de detenção do ICE são mais rigorosos que os da maioria das prisões americanas que recebem cidadãos dos Estados Unidos. O DHS declarou ainda que todos os detidos recebem três refeições diárias, água potável, roupas, roupa de cama, chuveiros, sabonete e itens de higiene.
O departamento também disse que as pessoas sob custódia têm acesso a telefones para falar com familiares e advogados. Assim, a versão oficial diverge diretamente do relato de Pourrain sobre alimentação, higiene, água e comunicação em seus primeiros dias detido.
Transferência melhora rotina, diz atleta
Mais tarde, Pourrain foi transferido para uma prisão administrada por empresa privada. Segundo ele, as condições melhoraram de forma significativa nessa unidade, onde voltou a receber comida e itens básicos.
Ainda assim, o jogador afirmou que adoeceu no local. Ele atribuiu o problema ao frio e ao ar-condicionado direcionado para a área em que permanecia, dizendo que dispunha de poucos cobertores.
Apesar da queixa, Pourrain diferenciou a segunda unidade do centro de processamento inicial. Ele declarou que havia alimentação e água disponível, mesmo quando se tratava de água da torneira.
Fiança libera atleta enquanto processo segue
Depois que a defesa apresentou documentos e pediu uma audiência, um juiz fixou fiança de US$ 20 mil, valor estimado em cerca de R$ 100 mil no relato. Pourrain deixou a custódia 20 dias após a prisão, segundo as informações divulgadas.
O DHS confirmou que a liberação ocorreu sob fiança em 28 de agosto. O órgão ressaltou que o jogador aguarda o resultado de seu processo de deportação, o que mantém em aberto a definição sobre sua permanência nos Estados Unidos.
Em Orlando, Pourrain disse tentar retomar a rotina. Ele afirmou possuir um documento judicial que lhe dá segurança para circular enquanto o caso tramita e resumiu seu momento atual: “Estamos na mesma situação de antes, mas agora com um pouco mais de tranquilidade”.


