Investigações conduzidas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero revelam novos detalhes sobre as negociações envolvendo o extinto Banco Master e o Banco de Brasília. Relatórios recentes apontam que o banqueiro Daniel Vorcaro exercia comando direto sobre a Tirreno, empresa apontada como central na emissão de títulos de crédito comercializados com a instituição pública por valores que chegam à casa dos bilhões de reais.
A transação que entrou na mira das autoridades envolveu a venda de carteiras e direitos creditórios gerados pela Tirreno ao banco público. O material probatório recolhido pelos investigadores detalha como funcionava a rotina de repasses de informações e a subordinação de decisões corporativas dentro da estrutura montada para viabilizar as operações financeiras.
Mensagens revelam gerência
Conversas encontradas pelos investigadores no celular do empresário Henrique Peretto apontam que Daniel Vorcaro tinha total gerência sobre a Tirreno. Peretto foi preso preventivamente na primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025, sendo solto dias depois. Na investigação, ele aparece como responsável por aumentar o capital social da empresa de R$ 100 para R$ 30 milhões.
No aparelho do empresário, a Polícia Federal localizou mensagens trocadas com interlocutores, incluindo o advogado Ricardo Cameirão Júnior. Os contatos intensificaram-se após o BRB enviar uma notificação extrajudicial à Tirreno pedindo esclarecimentos sobre os títulos gerados e vendidos pelo Banco Master, em um cenário em que o Banco Central já havia negado a compra da instituição após identificar inconsistências contábeis.
Diante da cobrança do banco público, Peretto enviou uma sugestão de resposta ao advogado, mas enfrentou resistência e precisou cobrar um retorno. Um dos interlocutores respondeu que o envio da manifestação aguardava aprovação de DV, sigla associada pelos investigadores a Daniel Vorcaro, confirmando posteriormente que o documento estava sob análise direta do banqueiro.
Reuniões e cobranças
O relatório da Polícia Federal aponta que Peretto esteve no Banco Master para uma reunião com Vorcaro dias após o recebimento da notificação. Como a resposta oficial ainda não havia sido liberada, o empresário continuou cobrando o advogado e outros envolvidos, realizando ligações sucessivas ao banqueiro pouco antes de Vorcaro ser alvo de mandado de prisão.
A documentação reunida pelos investigadores reforça que Vorcaro mantinha domínio sobre os rumos da empresa. Para a Polícia Federal, o fato de o envio da resposta institucional ficar condicionado ao aval do banqueiro demonstra a centralização das decisões estratégicas e operacionais ligadas aos ativos comercializados com o banco público.
As apurações buscam esmiuçar a cadeia de responsabilidades e o fluxo financeiro gerado pelas emissões de títulos. A Operação Compliance Zero segue mapeando a atuação de cada personagem citado nos relatórios para dimensionar o alcance das irregularidades apontadas pelos órgãos de controle.
Depoimento à Polícia Federal
O nome de Henrique Peretto foi um dos poucos citados por Vorcaro em seu primeiro depoimento prestado à Polícia Federal. Na ocasião, o banqueiro atribuiu ao empresário o papel de avalista da negociação que envolveu as carteiras emitidas pela Tirreno e repassadas ao Banco de Brasília por valores bilionários.
Vorcaro relatou aos investigadores que a instituição financeira passava por um processo de expansão e que os papéis foram apresentados por pessoas com experiência de mercado. O banqueiro justificou que entrou na operação por confiar nos envolvidos e mencionou a participação de outra empresa na condução inicial das tratativas comerciais.
Apesar de o BRB ter quitado os valores em dinheiro, o repasse integral às contas esperadas não ocorreu conforme o fluxo tradicional. Os depoimentos e os documentos apreendidos continuam sob análise para confrontar as versões apresentadas pelos investigados com os registros telemáticos encontrados nos celulares.
Impacto nas contas públicas
A transação envolvendo a venda de carteiras e direitos creditórios ao Banco de Brasília mobilizou autoridades financeiras e órgãos de fiscalização. A operação financeira alcançou a marca de R$ 12 bilhões, gerando forte impacto e questionamentos sobre os mecanismos de controle interno e de concessão de crédito em instituições públicas.
O Banco Central já havia apontado barreiras e inconsistências contábeis nas tratativas entre o Banco Master e o BRB, o que motivou a interrupção de etapas do processo de incorporação. As investigações policiais agora detalham como os papéis podres foram gerados, precificados e repassados ao banco estatal sem a devida observância de critérios prudenciais.
O avanço das apurações da Operação Compliance Zero coloca sob escrutínio o papel de executivos, intermediários e instituições financeiras. O material apreendido serve de base para dimensionar o prejuízo potencial ao erário e definir as responsabilidades criminais e cíveis dos envolvidos no esquema bilionário.


