Tartarugas extintas no século XIX retornam à Ilha Floreana após resgate genético em Galápagos

Espécimes apelidados de alienígenas no Vulcão Wolf permitiram reproduzir em cativeiro linhagem histórica que habitava o arquipélago equatoriano.

Da
Redação
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Esforço de conservação em Galápagos já soltou milhares de tartarugas-gigantes criadas em cativeiro.
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A história das tartarugas-gigantes de Galápagos carrega as marcas da exploração humana iniciada no século XVI, quando piratas e baleeiros passaram a frequentar o arquipélago. A extraordinária resistência desses animais, capazes de sobreviver até um ano sem comida ou água nos porões das embarcações, tornou-se o principal fator de vulnerabilidade frente ao transporte marítimo da época, garantindo carne fresca aos navegantes.

Entre os séculos XVI e XIX, a população estimada entre 100 mil e 200 mil indivíduos despencou drasticamente nas ilhas visitadas por Charles Darwin em 1835 a bordo do HMS Beagle. Como o arquipélago abriga diferentes espécies adaptadas a ilhas específicas, a caça predatória e a introdução de espécies invasoras eliminaram populações inteiras no Oceano Pacífico.

A primeira espécie totalmente extinta foi a tartaruga-de-floreana, por volta de 1850. O animal era marcado por características morfológicas singulares, destacando-se pela carapaça em formato pronunciado de sela, estrutura não encontrada em outros répteis do planeta.

Localização de linhagens no Vulcão Wolf

Uma reviravolta na conservação ambiental começou em 2000, durante uma expedição científica ao Vulcão Wolf, localizado no ponto mais alto das Ilhas Galápagos, na ponta norte da Ilha Isabela. Pesquisadores liderados por James Gibbs encontraram exemplares com carapaças em formato de sela, bastante distintos do padrão usual observado naquela região.

Devido à estranheza morfológica dos animais, a equipe passou a se referir aos exemplares como alienígenas. Análises genéticas conduzidas pela Universidade de Yale confirmaram anos depois que as amostras de sangue coletadas correspondiam à linhagem original da Ilha Floreana, considerada extinta há cerca de 150 anos.

Cientistas trabalham com duas hipóteses para explicar a presença dessas tartarugas na Ilha Isabela. A primeira aponta um processo natural em que enchentes e chuvas fortes teriam arrastado indivíduos pelo oceano. A segunda hipótese sugere que marinheiros e piratas descartavam tartarugas para aliviar o peso dos navios antes de adentrarem o Pacífico.

Programa de reprodução e manejo em cativeiro

Após a confirmação genética, 19 espécimes com traços de Floreana foram transferidos para o Centro de Criação de Tartarugas Terrestres Fausto Llerena, instituição que atua na proteção desses répteis desde 1965. O local é gerido por profissionais como Freddy Villalba, da Direção do Parque Nacional de Galápagos.

Sei que cuidei deles; eu os criei. Eu os ensinei para que pudessem sobreviver em sua ilha.”

Walter Chimborazo, assistente de campo da Galapagos Conservancy

No centro de conservação, equipes especializadas controlam parâmetros de incubação dos ovos e garantem cuidados com os filhotes nos primeiros anos de vida. O acompanhamento rigoroso visa proteger os jovens exemplares até que alcancem tamanho adequado para enfrentar o ambiente natural e eventuais predadores.

Ao longo de seis décadas de atuação continuada, os programas de manejo desenvolvidos no arquipélago equatoriano já permitiram a criação e soltura de mais de 9.000 tartarugas-gigantes de diferentes espécies em seu habitat nativo.

Trabalho de campo e conscientização local

A recuperação do ecossistema de Galápagos envolve o empenho direto de assistentes de campo e guardas-parques, que atuam no manejo diário dos animais nas estações de reprodução. O trabalho exige paciência e dedicação contínua na preparação dos filhotes para a vida selvagem.

A convivência próxima com a fauna local segue normas de segurança, como a manutenção de uma distância mínima de dois metros em relação aos animais selvagens. Como as espécies locais não enxergam a presença humana como ameaça direta, pesquisadores conseguem realizar o monitoramento de forma contínua.

As ações de preservação são desenvolvidas em parceria entre órgãos governamentais, entidades civis como a Galapagos Conservancy e a população local, buscando garantir a restauração da biodiversidade nas ilhas.

Importância ecológica da megafauna insular

As tartarugas-gigantes representam uma linhagem histórica de megafauna que habita atualmente em estado selvagem apenas o arquipélago de Galápagos e o Atol de Aldabra, no Oceano Índico. No passado antigo, espécimes semelhantes ocupavam áreas da Ásia e das Américas.

Por consumirem grandes volumes de plantas e percorrerem extensas distâncias, esses répteis desempenham papel vital na dispersão de sementes e na modulação da vegetação local. A presença dos animais em suas ilhas de origem auxilia no controle ecológico e na preservação de habitats para outras espécies nativas.

A trajetória de restauração das tartarugas exemplifica um esforço de longo prazo na biologia da conservação, mostrando que medidas persistentes de manejo podem reverter impactos ambientais provocados por séculos de intervenção humana.

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