O El Niño na soja elevou a incerteza sobre a oferta brasileira e as cotações da commodity na safra 2026/27. O fenômeno já está ativo no Pacífico Equatorial e pode alterar o regime de chuva justamente durante o plantio e o desenvolvimento inicial das lavouras.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, aponta chance superior a 90% de um evento muito forte no outono e no inverno do Hemisfério Norte. Para o Brasil, isso corresponde à primavera e ao verão, período decisivo para a produção de grãos.
O efeito, porém, não será uniforme. Centro-Oeste, Norte e parte do Sudeste podem enfrentar calor e irregularidade das chuvas. Por outro lado, o Sul tende a receber mais precipitação, o que ajuda a disponibilidade de água, mas aumenta o risco de encharcamento, doenças e atrasos nas operações.
El Niño ganha força no Pacífico
A atualização da NOAA de 10 de setembro informou que as anomalias de temperatura da superfície do mar ultrapassaram 3°C no leste do Pacífico Equatorial. Na região Niño 3.4, usada como referência para o fenômeno, o desvio relativo chegou a 1,8°C em agosto.
Os modelos indicam 75% de chance de o evento superar a força dos episódios registrados desde 1950 no trimestre de outubro a dezembro. Ainda assim, a intensidade do aquecimento não determina sozinha o volume de chuva em cada município produtor.
As probabilidades oficiais mostram permanência do El Niño durante toda a fase principal da safra sul-americana.
| Probabilidade do El Niño por trimestre | ||
|---|---|---|
| Trimestre | Período | Chance |
| SON | Setembro a novembro | 100% |
| OND | Outubro a dezembro | 100% |
| NDJ | Novembro a janeiro | 100% |
| DJF | Dezembro a fevereiro | 100% |
| FMA | Fevereiro a abril | 97% |
Fonte: Centro de Previsão Climática da NOAA
A incerteza cresce a partir do outono de 2027. Para março a maio, a NOAA calcula 82% de probabilidade de El Niño; no trimestre seguinte, a chance recua para 43%, enquanto a neutralidade sobe para 55%.
Centro-Oeste enfrenta maior risco hídrico
O Instituto Nacional de Meteorologia alerta que o fenômeno costuma reduzir a chuva no Norte, no Nordeste e em partes do Centro-Oeste e do Sudeste. Durante a primavera e o início do verão, isso pode aumentar a frequência de veranicos.
A soja depende de umidade adequada para germinar e estabelecer as plantas. Portanto, atrasos no início das chuvas podem empurrar a semeadura para fora da janela ideal, exigir replantio e diminuir o potencial de produtividade.
O problema também alcança o milho cultivado depois da soja. Quando a colheita da oleaginosa atrasa, o cereal de segunda safra entra no campo mais tarde e fica exposto à redução das chuvas no fim do ciclo.
Em 2024, durante o último El Niño, cerca de 2,9 milhões de hectares de soja precisaram ser replantados por problemas climáticos. O antecedente não significa que a perda se repetirá na mesma escala, mas mostra o custo de uma implantação irregular.
Sul alterna benefício e excesso de chuva
No Sul do Brasil, o El Niño normalmente aumenta a precipitação. A água adicional pode beneficiar soja e milho quando chega de forma bem distribuída, especialmente após períodos de baixa umidade no solo.
No entanto, volumes elevados dificultam o acesso de máquinas, atrasam o plantio e favorecem doenças fúngicas. Além disso, chuva perto da colheita pode reduzir a qualidade dos grãos e elevar os custos de secagem.
Argentina e Paraguai também podem receber condições mais úmidas. Como os três países têm grande peso na oferta mundial, uma produção melhor fora do Centro-Oeste brasileiro pode compensar parcialmente perdas regionais e limitar altas de preços.
Por isso, analistas evitam associar automaticamente um El Niño forte a uma quebra nacional. O mercado acompanhará a localização e o momento das chuvas, além da temperatura e da duração dos períodos secos.
Oferta define reação das cotações
O Brasil encerrou a safra 2025/26 com recorde de 180,5 milhões de toneladas de soja, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Esse volume ampliou a disponibilidade para exportação, mas a próxima temporada começa com margens menores e crédito mais restrito.
Luiz Noto, responsável pela divisão de Grãos e Oleaginosas da Cofco no Brasil, avalia que a área plantada deve crescer pouco e que a produtividade será a principal variável. Em entrevista concedida em agosto, ele resumiu a preocupação:
O maior foco vai ser na questão de clima e produtividade para o ano que vem”
Luiz Noto, CEO de Grãos e Oleaginosas da Cofco no Brasil
Uma colheita menor no Brasil reduziria a folga do balanço global e poderia sustentar as cotações. Simulações do Itaú BBA indicaram anteriormente que uma perda nacional de 6% levaria os estoques mundiais ao menor nível em três anos, embora esse seja apenas um cenário de risco.
Nas próximas semanas, o ritmo do plantio e a regularidade das chuvas serão os sinais mais importantes. O impacto final sobre oferta e preços dependerá também da produção argentina, da demanda chinesa, dos estoques e do câmbio, não apenas do fenômeno climático.


