O cabotegravir injetável de longa duração superou a profilaxia oral tradicional na redução de infecções por HIV, conforme estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) publicado na revista Lancet. A pesquisa acompanhou voluntários em unidades do SUS para comparar a eficácia dos métodos.
Os resultados indicaram que a aplicação periódica do medicamento injetável mantém os pacientes protegidos por mais tempo, reduzindo falhas associadas ao uso diário de comprimidos e apontando novos caminhos para as políticas públicas de saúde.
Estudo avaliou grupos distintos
O trabalho clínico foi conduzido em 14 unidades de saúde localizadas em cinco capitais brasileiras: Rio de Janeiro, Manaus, São Paulo, Campinas e Florianópolis. O projeto contou com o apoio de organizações da sociedade civil, a exemplo da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT.
A investigação acompanhou cerca de 3,1 mil participantes com idades entre 18 e 30 anos, englobando homens cisgênero, pessoas não-binárias atribuídas ao sexo masculino ao nascer, além de homens e mulheres transgênero que fazem sexo com homens. Os voluntários foram distribuídos de forma dinâmica em três frentes de análise conhecidas como coortes abertas.
A metodologia permitiu que os voluntários escolhessem entre a aplicação do injetável ou a manutenção das pílulas tradicionais. Essa divisão estruturada possibilitou uma comparação direta entre a eficácia do novo fármaco e os métodos convencionais já distribuídos pela rede pública de saúde em todo o país.
Injetável supera pílula oral
Os dados consolidados após um ano de acompanhamento demonstraram uma superioridade expressiva do CAB-LA na prevenção de novas infecções. Enquanto o grupo que adotou o cabotegravir registrou uma incidência de 0,2 casos por 100 pessoas, o grupo da PrEP oral do estudo marcou 0,87 por 100, e o grupo comparador geral do SUS atingiu 1,48 por 100.
Em termos de cobertura de proteção ao longo dos dias monitorados, o desempenho do injetável também se destacou amplamente. Os usuários do CAB-LA permaneceram protegidos em 90,8% dos dias avaliados, ao passo que os índices caíram para 47,3% no grupo da PrEP oral do estudo e para 35,5% no grupo comparador da rede pública.
Esses índices reforçam que a periodicidade e a facilidade da aplicação trimestral ou bimestral do medicamento injetável reduzem falhas comportamentais comuns no uso diário de comprimidos. No entanto, os pesquisadores ressaltam que a tecnologia precisa vir acompanhada de suporte estrutural adequado para manter os pacientes engajados.
Confira abaixo os principais resultados de eficácia e proteção obtidos pelo estudo da Fiocruz:
| Eficácia da PrEP de Longa Duração | ||
|---|---|---|
| Grupo de Tratamento | Incidência por 100 Pessoas | Cobertura de Proteção |
| Coorte Escolha CAB-LA | 0,2 | 90,8% |
| Coorte Escolha PrEP Oral | 0,87 | 47,3% |
| Coorte Comparadora SUS | 1,48 | 35,5% |
Barreiras sociais geram abandono
Apesar da alta eficácia biológica, o estudo identificou que barreiras sociais e estruturais representam um obstáculo relevante para a retenção dos pacientes no tratamento preventivo. Fatores como raça, nível de escolaridade e saúde mental influenciam diretamente a continuidade do acompanhamento nas unidades de saúde.
Os dados indicaram que pessoas não-brancas, abrangendo pretas, pardas, indígenas e asiáticas, apresentam risco cerca de 60% maior de descontinuidade do tratamento. O cenário de evasão muitas vezes reflete barreiras sistêmicas, como episódios de discriminação e dificuldades de acesso acolhedor nos serviços de atendimento.
Além disso, o nível de instrução demonstrou forte correlação com o abandono do acompanhamento médico. Indivíduos com ensino médio incompleto registraram probabilidade de evasão superior a oito vezes em comparação àqueles com maior escolaridade, evidenciando a necessidade de campanhas educativas direcionadas.
Desafios para o SUS
Outro elemento crítico mapeado pela pesquisa foi o impacto de comorbidades psiquiátricas na rotina de prevenção. Pacientes que relatavam sintomas depressivos graves apresentaram maior propensão à perda do seguimento clínico necessário para a aplicação regular do medicamento injetável.
Diante desse panorama, o estudo conclui que a eventual incorporação do cabotegravir pelo Ministério da Saúde exigirá mais do que a simples distribuição do insumo. As unidades do SUS precisarão estruturar protocolos humanizados de acolhimento e busca ativa para proteger as parcelas mais vulneráveis da população.
As organizações sociais que colaboraram com o projeto reforçam que o combate ao preconceito institucional e a capacitação das equipes de atendimento são etapas indispensáveis. Somente com estratégias integradas o sistema conseguirá mitigar as desigualdades que ameaçam a eficácia das novas tecnologias preventivas.


