Injeção contra HIV supera pílula e redefine prevenção no SUS

Pesquisa da Fiocruz no Lancet detalha maior eficácia e adesão ao cabotegravir de longa duração em comparação ao método tradicional.

Da
Redação
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Pesquisa coordenada pela Fiocruz avaliou o uso de cabotegravir injetável em unidades do SUS de cinco capitais brasileiras.
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O cabotegravir injetável de longa duração superou a profilaxia oral tradicional na redução de infecções por HIV, conforme estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) publicado na revista Lancet. A pesquisa acompanhou voluntários em unidades do SUS para comparar a eficácia dos métodos.

Os resultados indicaram que a aplicação periódica do medicamento injetável mantém os pacientes protegidos por mais tempo, reduzindo falhas associadas ao uso diário de comprimidos e apontando novos caminhos para as políticas públicas de saúde.

Estudo avaliou grupos distintos

O trabalho clínico foi conduzido em 14 unidades de saúde localizadas em cinco capitais brasileiras: Rio de Janeiro, Manaus, São Paulo, Campinas e Florianópolis. O projeto contou com o apoio de organizações da sociedade civil, a exemplo da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT.

A investigação acompanhou cerca de 3,1 mil participantes com idades entre 18 e 30 anos, englobando homens cisgênero, pessoas não-binárias atribuídas ao sexo masculino ao nascer, além de homens e mulheres transgênero que fazem sexo com homens. Os voluntários foram distribuídos de forma dinâmica em três frentes de análise conhecidas como coortes abertas.

A metodologia permitiu que os voluntários escolhessem entre a aplicação do injetável ou a manutenção das pílulas tradicionais. Essa divisão estruturada possibilitou uma comparação direta entre a eficácia do novo fármaco e os métodos convencionais já distribuídos pela rede pública de saúde em todo o país.

Injetável supera pílula oral

Os dados consolidados após um ano de acompanhamento demonstraram uma superioridade expressiva do CAB-LA na prevenção de novas infecções. Enquanto o grupo que adotou o cabotegravir registrou uma incidência de 0,2 casos por 100 pessoas, o grupo da PrEP oral do estudo marcou 0,87 por 100, e o grupo comparador geral do SUS atingiu 1,48 por 100.

Em termos de cobertura de proteção ao longo dos dias monitorados, o desempenho do injetável também se destacou amplamente. Os usuários do CAB-LA permaneceram protegidos em 90,8% dos dias avaliados, ao passo que os índices caíram para 47,3% no grupo da PrEP oral do estudo e para 35,5% no grupo comparador da rede pública.

Esses índices reforçam que a periodicidade e a facilidade da aplicação trimestral ou bimestral do medicamento injetável reduzem falhas comportamentais comuns no uso diário de comprimidos. No entanto, os pesquisadores ressaltam que a tecnologia precisa vir acompanhada de suporte estrutural adequado para manter os pacientes engajados.

Confira abaixo os principais resultados de eficácia e proteção obtidos pelo estudo da Fiocruz:

Eficácia da PrEP de Longa Duração
Grupo de Tratamento Incidência por 100 Pessoas Cobertura de Proteção
Coorte Escolha CAB-LA 0,2 90,8%
Coorte Escolha PrEP Oral 0,87 47,3%
Coorte Comparadora SUS 1,48 35,5%
Fonte: Fiocruz

Barreiras sociais geram abandono

Apesar da alta eficácia biológica, o estudo identificou que barreiras sociais e estruturais representam um obstáculo relevante para a retenção dos pacientes no tratamento preventivo. Fatores como raça, nível de escolaridade e saúde mental influenciam diretamente a continuidade do acompanhamento nas unidades de saúde.

Os dados indicaram que pessoas não-brancas, abrangendo pretas, pardas, indígenas e asiáticas, apresentam risco cerca de 60% maior de descontinuidade do tratamento. O cenário de evasão muitas vezes reflete barreiras sistêmicas, como episódios de discriminação e dificuldades de acesso acolhedor nos serviços de atendimento.

Além disso, o nível de instrução demonstrou forte correlação com o abandono do acompanhamento médico. Indivíduos com ensino médio incompleto registraram probabilidade de evasão superior a oito vezes em comparação àqueles com maior escolaridade, evidenciando a necessidade de campanhas educativas direcionadas.

Desafios para o SUS

Outro elemento crítico mapeado pela pesquisa foi o impacto de comorbidades psiquiátricas na rotina de prevenção. Pacientes que relatavam sintomas depressivos graves apresentaram maior propensão à perda do seguimento clínico necessário para a aplicação regular do medicamento injetável.

Diante desse panorama, o estudo conclui que a eventual incorporação do cabotegravir pelo Ministério da Saúde exigirá mais do que a simples distribuição do insumo. As unidades do SUS precisarão estruturar protocolos humanizados de acolhimento e busca ativa para proteger as parcelas mais vulneráveis da população.

As organizações sociais que colaboraram com o projeto reforçam que o combate ao preconceito institucional e a capacitação das equipes de atendimento são etapas indispensáveis. Somente com estratégias integradas o sistema conseguirá mitigar as desigualdades que ameaçam a eficácia das novas tecnologias preventivas.

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