Saúde mental afasta mais de 70 mil policiais e bombeiros no país

Ministério da Justiça apresentou painel inédito com dados de 135 instituições de segurança pública referentes ao ano-base de 2024

Da
Redação
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Levantamento do Ministério da Justiça e Segurança Pública revelou milhares de licenças médicas nas corporações estaduais em 2024.Getty Images
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O Ministério da Justiça e Segurança Pública apresentou o Painel Qualidade de Vida no Trabalho, revelando um cenário alarmante sobre o adoecimento nas corporações. O levantamento consolida dados detalhados referentes ao ano-base de 2024 em todo o país. A pesquisa compilou informações detalhadas de 135 instituições de segurança pública distribuídas pelos 26 estados e pelo Distrito Federal. O objetivo principal é monitorar as condições de trabalho e orientar políticas públicas federais voltadas para o bem-estar dos agentes. No total, milhares de servidores precisaram ser afastados de suas funções operacionais por questões médicas formais.

No total, 70.400 servidores, entre policiais civis, militares e bombeiros, precisaram se afastar de suas funções operacionais ao longo do último ano. Todos os casos contaram com prescrição médica formal de profissionais especializados, como psicólogos ou psiquiatras. Os diagnósticos foram enquadrados na categoria F da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde. Esses registros compreendem transtornos mentais e de comportamento que incapacitam temporariamente os trabalhadores para o serviço nas ruas.

Bombeiros registram maior volume de afastamentos

O impacto do trabalho na saúde mental varia entre as corporações estaduais, mas atinge de maneira expressiva o efetivo do Corpo de Bombeiros. Os Corpos de Bombeiros Militares registraram sozinho um total de 38.761 afastamentos com diagnóstico formal vinculado à tabela de doenças. A maioria absoluta desses casos específicos se concentrou em patentes intermediárias da corporação. Entre os postos mais afetados estão os de primeiro sargento, segundo sargento e terceiro sargento, demonstrando desgaste na linha de frente.

As corporações de bombeiros enfrentam rotinas complexas de salvamento e resgate que frequentemente expõem os militares a situações extremas de estresse. Esse fator tem sido apontado por especialistas como um dos principais catalisadores para o elevado número de licenças médicas na categoria. O levantamento oficial busca justamente dimensionar essas perdas operacionais para permitir intervenções mais assertivas dos governos estaduais e federais. A transparência desses números inéditos pretende forçar uma revisão nas escalas e na gestão de pessoal.

Polícias militares sofrem com impacto entre soldados

As Polícias Militares somaram 28.449 licenças oficiais baseadas na codificação de transtornos mentais, além de outros 1.472 afastamentos concedidos sob receita médica sem especificação do código. A ausência de detalhamento em parte dos registros ocorre por razões de sigilo médico preservadas pelas corporações. O posto de soldado foi o mais impactado de forma isolada em todo o país, somando 16.963 afastamentos por motivos comportamentais. A base da pirâmide policial absorve grande parte do impacto operacional diário.

O volume de licenças médicas nas polícias estaduais evidencia o desgaste enfrentado por quem atua diretamente no policiamento ostensivo. Com o efetivo reduzido por causa dos afastamentos prolongados, as corporações muitas vezes sobrecarregam os demais agentes ativos. Essa dinâmica gera um ciclo viciosos de exaustão física e mental nas unidades de segurança pública. O painel governamental detalha essas faturas para subsidiar futuras estratégias de valorização e proteção da tropa.

Polícias civis contabilizam milhares de licenças

As Polícias Civis também aparecem no levantamento nacional com 3.276 afastamentos confirmados por meio da classificação internacional de doenças mentais. Os agentes de polícia representam a categoria mais afetada dentro dessa estrutura, contabilizando 2.660 casos de licença médica. Logo em seguida aparecem os escrivães de polícia, com 444 registros formais, e os delegados, que somam 343 afastamentos no período analisado. Os números refletem a pressão inerente às investigações criminais e ao contato contínuo com a criminalidade.

A investigação criminal exige dedicação prolongada e exposição a ambientes de alta tensão que afetam diretamente o equilíbrio emocional dos policiais civis. O reconhecimento oficial desses dados permite que as administrações estaduais compreendam onde estão os maiores gargalos de adoecimento funcional. A integração dessas estatísticas em nível nacional era uma demanda antiga de especialistas em segurança pública. Agora, o governo federal dispõe de uma base concreta para cobrar melhorias estruturais dos estados.

Falta acompanhamento preventivo nas instituições

Apesar do elevado volume de licenças médicas registradas ao longo de 2024, o painel revela uma lacuna considerável no acompanhamento preventivo das corporações. O acolhimento psicológico costuma ocorrer apenas após o esgotamento total do servidor, e não de forma contínua ou preventiva. Nas Polícias Militares, por exemplo, 22 unidades federativas oferecem algum tipo de suporte de psicologia e psiquiatria. No entanto, 19 estados não realizam acompanhamento regular de rotina com seus agentes.

Apenas oito estados brasileiros proporcionam avaliação psicológica periódica obrigatória para os policiais da ativa, segundo os dados consolidados. Essa fragilidade na rede de apoio contribui para o agravamento dos quadros clínicos antes que recebam o devido tratamento especializado. O diagnóstico precoce continua sendo um dos maiores desafios para a gestão de recursos humanos na área de segurança pública. Especialistas defendem que o cuidado com a tropa deve ser encarado como requisito essencial para a eficiência operacional.

Governo federal institui monitoramento anual

Diante do cenário revelado pela pesquisa, o Ministério da Justiça e Segurança Pública planeja transformar a apuração em uma obrigação periódica e sistemática. De acordo com o secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, a consolidação das informações traz particularidades legais que serão aperfeiçoadas. Questões sensíveis como o sigilo médico exigem adaptações metodológicas nas próximas edições do levantamento oficial. Mesmo com esses desafios, o compromisso institucional é manter a transparência sobre o tema.

Estamos falando de questões legais como, por exemplo, o sigilo médico. Mas vamos fazer dessa apuração uma obrigação anual, com os respectivos aperfeiçoamentos. O mais importante é que estamos olhando para a saúde mental dos profissionais da segurança pública, destaca o secretário nacional. A institucionalização da pesquisa anual deve garantir que a sociedade acompanhe a evolução das políticas de qualidade de vida no trabalho. O monitoramento contínuo é considerado indispensável para reduzir o estigma em torno do adoecimento nas forças policiais.

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