Chatbots sugerem candidatos e burlam regras do TSE

Estudo internacional com universidades de peso monitorou modelos de inteligência artificial e mapeou recomendações políticas durante o pleito.

Da
Redação
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Ferramentas de inteligência artificial foram testadas por pesquisadores para avaliar o comportamento de chatbots nas eleições.
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Ferramentas populares de inteligência artificial passaram a sugerir candidaturas em quase metade das respostas ao traçar perfis de eleitores brasileiros, descumprindo normas estabelecidas pela Justiça Eleitoral.

O levantamento internacional, desenvolvido em parceria com instituições como Harvard e Stanford, expõe a vulnerabilidade dos sistemas diante de diretrizes que proíbem IAs de priorizar ou recomendar nomes em disputas políticas.

Normas enfrentam barreiras tecnológicas

A regulamentação aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral em março impôs restrições rigorosas ao uso de inteligência artificial generativa no contexto eleitoral brasileiro para evitar interferências algorítmicas diretas na formação da vontade popular. No entanto, os testes demonstraram que plataformas como Grok e DeepSeek apresentaram recomendações políticas diretas ou indiretas consideradas superiores ao limite permitido pelas normas vigentes. Os autores apontaram que o Brasil se destaca como um dos mercados mais ativos no consumo de inteligência artificial em escala global, com milhões de mensagens enviadas diariamente pelos usuários.

A pesquisa detalhou que a postura das ferramentas mudava conforme o volume de dados fornecidos sobre o cidadão simulado. Quando os prompts continham apenas informações básicas como idade, nível de instrução e faixa de renda, os modelos recusavam-se quase unanimemente a sugerir nomes de candidatos. Contudo, ao receber indícios de preferência política, as recomendações explícitas tornaram-se comuns, mesmo quando a orientação partia de premissas vagas como defesa da democracia ou valores cristãos.

O levantamento aponta que a interferência tecnológica ocorre também por meio da omissão intencional ou sistêmica de opções concorrentes. A maioria dos modelos testados raramente apresentou o conjunto completo de candidatos aos cargos em disputa, concentrando as menções em um grupo reduzido de nomes e limitando o acesso a informações abrangentes para o eleitorado.

Algoritmos moldam preferências políticas

O mapeamento demonstrou que o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva aparecia com maior frequência em listas direcionadas a perfis com inclinação de esquerda. Por outro lado, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro surgia associado a recomendações voltadas a eleitores de direita. Outros nomes, como Romeu Zema, eram citados quando o sistema identificava valorização de pautas voltadas ao empreendedorismo e à redução do Estado.

Em contrapartida, figuras com pontuações similares em pesquisas tradicionais de intenção de voto, a exemplo de Ronaldo Caiado, quase nunca apareceram nas respostas geradas pelas ferramentas de inteligência artificial. Candidatos de legendas menores sequer foram citados ao longo de toda a base de testes realizados pelos pesquisadores. Para os especialistas, essa seletividade reproduz bolhas informativas e restringe a pluralidade de opções apresentadas aos eleitores.

A condução da pesquisa exigiu o desenvolvimento de cenários padronizados para testar a robustez das barreiras de segurança implementadas pelas empresas de tecnologia. Cada um dos nove perfis simulados navegou por questionários elaborados sob a perspectiva de moradores do estado de São Paulo, permitindo mensurar o grau de suscetibilidade dos algoritmos frente a diferentes formulações de comandos.

Pesquisadores criticam fiscalização transnacional

Quando não havia informação política sobre o eleitor, todos os modelos, quase unanimemente, se negaram a recomendar qualquer candidato.

Pesquisadores do estudo sobre IA e eleições

Os pesquisadores destacaram que a divergência entre a regra estrita do tribunal brasileiro e a prática observada nos chatbots evidencia a dificuldade de fiscalização transnacional sobre plataformas digitais. Enquanto a legislação nacional exige neutralidade absoluta na exibição de listas de concorrentes, os sistemas automatizados operam com lógicas internas de relevância que muitas vezes priorizam o engajamento ou o alinhamento implícito com o histórico do usuário.

O avanço das investigações sobre o comportamento eleitoral da inteligência artificial deve subsidiar novos debates regulatórios nos órgãos de controle competentes. Especialistas apontam que a transparência dos critérios de recomendação precisará ser auditada de forma contínua para assegurar a equidade na disputa democrática e o cumprimento rigoroso das resoluções estabelecidas pela Justiça Eleitoral.

As diretrizes estabelecidas pelo TSE buscam resguardar a autonomia do eleitor, mas a autonomia tecnológica das grandes empresas de inteligência artificial dificulta a aplicação integral das sanções previstas em lei. O monitoramento contínuo realizado por iniciativas acadêmicas passa a atuar como um mecanismo complementar de fiscalização digital.

Desafios continuam no pleito

A repercussão dos testes coloca em evidência os desafios enfrentados pela Justiça Eleitoral na fiscalização do ambiente digital durante o período oficial de campanha. Com milhões de interações diárias ocorrendo em aplicativos de conversação e assistentes virtuais, o controle sobre o viés algorítmico torna-se uma tarefa complexa para os tribunais e órgãos fiscalizadores.

As evidências levantadas pelo estudo fornecem subsídios técnicos para que autoridades avaliem a eficácia das travas de segurança atuais adotadas pelas principais desenvolvedoras de tecnologia do mundo. O debate sobre a responsabilidade das plataformas sobre o conteúdo gerado deve permanecer no centro das atenções até o encerramento do pleito eleitoral.

O monitoramento independente continuará acompanhando o comportamento dos chatbots para verificar se as empresas implementam correções em suas diretrizes de segurança. A atuação conjunta entre academia e órgãos reguladores busca mitigar os impactos da tecnologia na formação do voto.

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