Um boato digital sobre um suposto plano para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil pressionou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência e beneficiou o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas redes sociais nas últimas horas, segundo levantamento da Palver, empresa de tecnologia e inteligência de dados. O monitoramento aponta que o rumor provocou uma onda de críticas ao senador, abriu espaço para o campo governista associá-lo a uma ameaça à fé católica e elevou consideravelmente o volume de debates políticos nos canais digitais.
A discussão alcançou, na última sexta-feira (25), a marca de 735 menções a cada 100 mil mensagens nas redes, enquanto o volume anterior oscilava entre 40 e 80 menções no mesmo recorte estatístico. Desconsideradas as publicações neutras, 73% das manifestações monitoradas criticaram o candidato do PL, contra 27% de apoio. No WhatsApp e no Telegram, o índice de rejeição chegou a 60%, evidenciando a força da narrativa falsa entre os usuários dessas plataformas de troca de mensagens instantâneas.
Monitoramento aponta impacto digital
O relatório da empresa de monitoramento aponta Flávio Bolsonaro como o ator político mais prejudicado pelo episódio e classifica o PT e os aliados do governo como os principais beneficiados. Segundo a análise técnica, perfis ligados à esquerda dominaram a distribuição do conteúdo digital e registraram alto engajamento. A pesquisa ressalta que o debate reflete o termômetro das redes sociais, embora não meça de forma direta a intenção de voto do eleitorado nas urnas.
A origem do boato remonta à associação indevida do candidato a um antigo projeto de lei apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli. A proposta original pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos”, mas acabou arquivada no ano seguinte, em 2008, sem qualquer participação do atual senador do PL. Após a ampla repercussão negativa, o canal de televisão que divulgou inicialmente a informação incorreta publicou uma retratação oficial e pediu desculpas aos telespectadores.
Diante da pressão digital, Flávio Bolsonaro gravou e publicou um vídeo para desmentir qualquer articulação contrária às tradições religiosas. Durante agenda de campanha realizada no Rio de Janeiro, o candidato voltou a repudiar o conteúdo e atribuiu a disseminação da mentira aos seus adversários políticos.
Flávio Bolsonaro rejeita acusações
Durante a agenda pública em território fluminense, o candidato do PL classificou a acusação como uma tentativa de desgastar sua imagem perante o eleitorado católico. Ele reforçou que jamais apoiaria medidas restritivas contra figuras de devoção religiosa no país.
É uma mentira que eu teria apoiado algum projeto que fosse retirar Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Jamais faria isso.”
Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência
O senador também destacou que respeita todas as crenças e buscou afastar a tentativa de rotular sua postura institucional. Ele pontuou sua própria identidade religiosa ao mesmo tempo em que garantiu total respeito à diversidade de cultos presentes na sociedade brasileira.
“Eu sempre respeitei todas as religiões. Todos sabem que sou cristão, que sou evangélico, mas que respeito todas as religiões”, acrescentou Flávio Bolsonaro durante o pronunciamento oficial de resposta aos ataques digitais.
Governo federal reage ao caso
A controvérsia também motivou um posicionamento público do vice-presidente e candidato à reeleição, Geraldo Alckmin. Ele afirmou ter recebido diversos relatos de eleitores católicos preocupados com o teor das mensagens que circularam na internet e prometeu proteção integral às tradições do país.
Alckmin enfatizou que a gestão federal continuará garantindo o respeito à liberdade de culto e às manifestações de fé tradicionais. A declaração buscou neutralizar o efeito eleitoral negativo gerado pelo episódio na parcela católica do eleitorado.
“Enquanto o presidente Lula e eu estivermos governando este país, as tradições religiosas, tão sagradas para as famílias brasileiras, estarão protegidas e preservadas”, afirmou o vice-presidente em nota oficial distribuída à imprensa.
Disputa pelo voto religioso
O episódio ocorre em um momento sensível da disputa eleitoral, marcado pela busca intensa pelo voto de diferentes segmentos religiosos. Pesquisa Datafolha divulgada recentemente aponta o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na liderança entre os eleitores católicos, com 45% das intenções de voto, contra 33% de Flávio Bolsonaro. Em contrapartida, o candidato do PL registra vantagem expressiva entre o eleitorado evangélico, alcançando 47%, enquanto Lula pontua com 27% nesse segmento.
A Igreja Católica também tem intensificado manifestações públicas sobre o processo eleitoral em curso no país. Bispos do Regional Norte 1 da CNBB divulgaram diretrizes orientando os fiéis sobre a importância do voto consciente, da defesa da democracia e do combate à exploração política da fé. No documento, os religiosos reforçam que as instituições e templos não devem funcionar como currais eleitorais.
O cenário de polarização digital e religiosa permanece sob monitoramento constante das equipes de campanha de ambas as chapas principais. A repercussão do caso evidencia a velocidade com que desinformações sobre costumes e religião conseguem pautar o debate político e influenciar os rumos da corrida presidencial nas plataformas digitais.


