A Fitch Ratings elevou modestamente suas projeções para o preço do petróleo em 2027 e revisou para cima as hipóteses para o gás europeu Dutch TTF, impulsionada pelos desdobramentos do conflito envolvendo o Irã. Em relatório divulgado recentemente, a agência destacou que o mercado global de petróleo caminha para um cenário de excesso de oferta a partir do final de 2026, com um superávit material previsto para o ano seguinte. Apesar dessa tendência de descompressão, os analistas decidiram incorporar um prêmio geopolítico mais robusto nas estimativas devido à instabilidade nas rotas de suprimento de energia.
A instituição manteve a previsão para o barril do Brent em 2026 na faixa de US$ 87, lembrando que as cotações oscilaram fortemente nos últimos meses. No meio do ano, os preços recuaram perto de US$ 70 após um memorando entre Estados Unidos e Irã para encerrar hostilidades, mas a retomada posterior de conflitos e a paralisação de infraestruturas estratégicas na Arábia Saudita voltaram a pressionar o mercado. A expectativa atual é de acomodação das cotações tão logo os oleodutos alternativos recuperem a plena capacidade operacional na região afetada.
Superávit global molda 2027
Mesmo com a projeção de superávit de oferta no horizonte de curto e médio prazo, a Fitch elevou o valor estimado para o Brent em 2027 de US$ 65 para US$ 70 por barril. A revisão reflete a cautela com o risco geopolítico, considerando que uma resolução definitiva entre Teerã e Washington pode ocorrer de forma gradual, mantendo margens para novas escaladas na região do Oriente Médio.
A agência aponta que o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz permanece sustentável mesmo sem um acordo de paz formal, amparado por rotas terrestres alternativas na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos. Além disso, países produtores fora do Oriente Médio, com destaque para Estados Unidos, Canadá, Brasil, Argentina e Guiana, devem impulsionar a produção global de maneira expressiva nos próximos anos.
Do lado da demanda, o mercado enfrentou uma forte contração em 2026, com quedas expressivas concentradas na Ásia e no setor petroquímico, puxadas principalmente pela China. A Fitch projeta que a recuperação da demanda global ocorra de forma gradual ao longo do segundo semestre, preparando o terreno para o desequilíbrio de oferta previsto para o ano seguinte.
Demanda global recua forte
O impacto do cenário adverso no primeiro semestre de 2026 resultou em uma destruição estimada de cerca de 5 milhões de barris por dia na demanda global. A Ásia respondeu por quase dois terços desse recuo, enquanto a China liderou a queda com uma redução de 1,5 milhão de barris diários no período analisado.
Essa desaceleração temporária contribuiu para redefinir os estoques internacionais e moldar o comportamento das grandes potências exportadoras. A retomada subsequente, contudo, esbarra em limites de capacidade produtiva em algumas regiões, mantendo a volatilidade no curto prazo.
Analistas da agência ressaltam que o comportamento dos insumos petroquímicos exerceu papel central nessa contração inicial da demanda. Com a normalização gradual dos fluxos comerciais, o consumo tende a se estabilizar, embora em patamares condicionados pelo crescimento econômico global.
Gás europeu sofre pressão
No setor de gás natural, a Fitch revisou para cima as projeções para o Dutch TTF, referência na Europa, refletindo as interrupções nas rotas de gás natural liquefeito (GNL) que dependem da passagem por Ormuz. O estreito representava uma fatia expressiva do fornecimento global antes da escalada das tensões geopolíticas.
Os estoques de gás na União Europeia encontram-se atualmente em níveis inferiores aos registrados no mesmo período dos anos anteriores, situando-se em cerca de dois terços da capacidade total. Embora o volume seja considerado suficiente para evitar colapsos durante o inverno do Hemisfério Norte, a margem menor eleva a sensibilidade a choques de oferta.
Em contraste, a projeção para o Henry Hub, marcador norte-americano, foi mantida inalterada. A decisão reflete a avaliação de que os Estados Unidos contam com capacidade ociosa limitada de liquefação no curto prazo, limitando saltos mais drásticos nas exportações do insumo.
Produção externa ganha espaço
A expansão da extração de petróleo fora da influência do Oriente Médio consolida-se como um dos pilares para o reequilíbrio do mercado energético global. Países americanos e produtores sul-americanos assumem fatias relevantes no suprimento internacional.
A previsão indica que o crescimento da oferta externa neutralizará parte das oscilações provocadas por conflitos regionais. Esse movimento diversifica as fontes de suprimento e reduz a dependência de corredores marítimos vulneráveis a crises políticas e militares.
Com investimentos contínuos em novas bacias produtoras, o mercado global avança para uma estrutura menos centralizada, ainda que os preços permaneçam sujeitos a prêmios de risco enquanto persistirem focos de instabilidade no Oriente Médio.


