A degeneração macular relacionada à idade (DMRI), uma das principais causas de perda de visão em adultos mais velhos, pode estar ligada a um efeito pouco conhecido: alucinações visuais. O fenômeno é chamado de síndrome de Charles Bonnet e aparece quando o cérebro recebe menos informação dos olhos e passa a produzir imagens que não estão realmente diante da pessoa.
Essas imagens podem incluir padrões geométricos, rostos, animais, pessoas, objetos ou paisagens inteiras. Um ponto importante é que, na síndrome de Charles Bonnet, a pessoa geralmente entende que aquilo não é real. O quadro está associado à perda visual e, isoladamente, não significa demência nem transtorno psiquiátrico.
DMRI afeta a visão central
A DMRI danifica a mácula, região da retina responsável pela visão central nítida usada para ler, reconhecer rostos, dirigir e enxergar detalhes. Segundo o National Eye Institute, a doença se torna mais frequente com o avanço da idade e pode evoluir lentamente ou provocar perda visual mais rápida, dependendo do tipo e do estágio.
Existem duas formas principais: seca e úmida. A forma seca é a mais comum e costuma avançar de maneira gradual. A forma úmida é menos frequente, mas pode causar perda visual mais rápida por causa do crescimento de vasos sanguíneos anormais na parte posterior do olho.
Nos estágios iniciais da forma seca, a pessoa pode não notar sintomas. Mais tarde, podem surgir borramento no centro da visão, áreas vazias, dificuldade para enxergar em ambientes pouco iluminados e linhas retas que parecem onduladas ou tortas. O NEI recomenda avaliação oftalmológica rápida quando esse tipo de distorção aparece.
É a redução do sinal visual, e não uma alteração psiquiátrica, que ajuda a explicar por que algumas pessoas com perda importante de visão desenvolvem imagens inexistentes. O National Eye Institute descreve a síndrome de Charles Bonnet como um efeito conhecido da perda visual em pacientes com DMRI.
Cérebro pode preencher o vazio
A explicação mais aceita é que o cérebro, ao receber menos informação visual, aumenta a atividade de áreas responsáveis por processar imagens. A American Academy of Ophthalmology compara esse mecanismo a um sistema visual tentando compensar a falta de estímulos normais vindos dos olhos.
As alucinações podem ser simples, como linhas, formas e flashes, ou complexas, com pessoas, animais, edifícios e cenas completas. Podem durar segundos, minutos ou até horas e aparecer de maneira esporádica ou recorrente.
Estudos citados em uma reportagem originalmente publicada pelo Washington Post estimam que a síndrome possa afetar aproximadamente uma em cada seis pessoas com doença da retina ou perda visual significativa, embora a frequência varie bastante entre estudos e populações.
I thought I was going crazy.”
Varda Yoran, paciente com síndrome de Charles Bonnet
Yoran, escultora de 97 anos e legalmente cega, relatou ter visto paisagens, pessoas e objetos inexistentes, mas disse que sabia que as cenas não eram reais. O medo de estar desenvolvendo um problema mental é uma razão pela qual especialistas acreditam que muitos pacientes escondem os sintomas.
Sinais ajudam a diferenciar
A síndrome de Charles Bonnet envolve apenas o sentido da visão. O NHS destaca que ouvir vozes, sentir cheiros inexistentes ou ter outras alterações sensoriais não faz parte do padrão típico do quadro. Também é comum que a pessoa preserve a percepção de que as imagens são irreais.
| Entenda os principais dados | ||
|---|---|---|
| Característica | DMRI | Charles Bonnet |
| Problema principal | Dano à mácula e perda de visão central | Alucinações visuais associadas à perda de visão |
| O que a pessoa pode notar | Borramento, áreas vazias e linhas onduladas | Formas, rostos, animais, objetos ou cenas |
| Outros sentidos | Não é uma característica da doença | Alucinações típicas são apenas visuais |
| Consciência do fenômeno | Não se aplica | Em geral, a pessoa sabe que as imagens não são reais |
| Conduta | Avaliação e acompanhamento oftalmológico | Investigar perda visual e descartar outras causas |
Fonte: National Eye Institute e NHS
A tabela não serve para autodiagnóstico. Alucinações novas precisam de avaliação médica porque também podem ocorrer em outras condições neurológicas, psiquiátricas, metabólicas ou relacionadas a medicamentos. O próprio NHS orienta procurar atendimento quando surgem alucinações.
Quando a pessoa já tem perda visual conhecida e mantém cognição preservada, o padrão pode ser compatível com Charles Bonnet, mas o diagnóstico exige contexto clínico. Catarata, glaucoma, descolamento de retina e outras doenças que reduzem a visão também podem estar associados ao fenômeno.
Controle começa pela causa visual
Não existe um único tratamento específico para a síndrome de Charles Bonnet. Quando há uma doença ocular tratável, melhorar a visão pode reduzir as alucinações. Em outros casos, informação e tranquilização ajudam a diminuir o medo associado às imagens.
O National Eye Institute informa que pessoas com DMRI intermediária ou avançada em determinadas situações podem se beneficiar da fórmula de suplementos AREDS2, sempre conforme orientação profissional. Na forma úmida, injeções intraoculares com medicamentos anti-VEGF são o tratamento mais usado para reduzir progressão da perda visual.
Para lidar com episódios de Charles Bonnet, algumas pessoas relatam melhora ao aumentar a iluminação do ambiente, piscar repetidamente, fechar os olhos ou direcionar a atenção para um objeto real. Essas medidas podem ajudar em episódios específicos, mas não substituem avaliação oftalmológica.
A principal mensagem dos especialistas é evitar que o medo impeça o paciente de contar o que está vendo. Reconhecer a relação entre perda visual e alucinações pode reduzir ansiedade, permitir investigação adequada e evitar que um fenômeno visual seja confundido automaticamente com demência.


