Um painel inédito divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública revelou que 25 estados brasileiros não realizam avaliações psicológicas periódicas em policiais civis. A ausência de exames preventivos regulares deixa os agentes vulneráveis e sobrecarrega os serviços de saúde das corporações.
O levantamento consolidou dados de 135 instituições e contabilizou milhares de licenças médicas motivadas por transtornos mentais e comportamentais. A falta de triagem contínua contrasta com os riscos diários enfrentados pelos profissionais nas ruas, acendendo um alerta para a necessidade de políticas públicas estruturadas.
Estados eliminam exames periódicos
Conforme o levantamento oficial divulgado pela pasta federal, 25 unidades federativas confirmaram que não realizam exames psicológicos periódicos de rotina na categoria. Apenas duas localidades, o Distrito Federal e a Bahia, deixaram de responder ao questionamento específico formulado pelo painel sobre essa diretriz preventiva fundamental para a segurança dos próprios agentes e da população.
Apesar da carência generalizada de exames preventivos regulares, 22 estados declararam manter algum tipo de serviço voltado ao suporte e à assistência à saúde mental dos policiais civis. Desse total de administrações que oferecem auxílio, 13 unidades concentram o atendimento exclusivamente na especialidade de psicologia, enquanto outras 9 estruturam equipes multidisciplinares com suporte conjunto de psicologia e psiquiatria.
Em contrapartida, o levantamento federal identificou três estados que afirmaram categoricamente não disponibilizar absolutamente nenhum serviço institucional de assistência à saúde mental para os agentes da corporação. A lista de unidades federativas sem qualquer estrutura própria informada é composta por Rio Grande do Norte, Rondônia e Alagoas, além da ausência de respostas já registrada por Bahia e Distrito Federal.
Registram milhares de afastamentos
A fragilidade no monitoramento contínuo reflete-se diretamente nas estatísticas oficiais de afastamento do trabalho por motivos de saúde. A pesquisa consolidou um total de 70,4 mil afastamentos de servidores da segurança pública — categoria que engloba policiais civis, policiais militares e bombeiros — devido a diagnósticos inseridos na categoria F da CID-10 da Organização Mundial da Saúde (OMS), grupo que abrange transtornos mentais e de comportamento com prescrição de licença médica.
No recorte específico das polícias civis, o painel contabilizou 3.276 afastamentos confirmados com base nos códigos da CID-10 para doenças mentais e comportamentais. Entre os diferentes cargos que compõem a carreira civil, a maior incidência de licenças médicas foi registrada entre os agentes de polícia, somando 2.660 casos de afastamento das funções operacionais ao longo do período analisado pelo ministério.
Especialistas em segurança pública destacam que a exposição constante a situações de alta periculosidade, violência urbana e pressões institucionais eleva drasticamente a vulnerabilidade emocional dos servidores. Sem protocolos obrigatórios de rastreio psicológico, os quadros de sofrimento psíquico tendem a se agravar silenciosamente até culminarem em licenças prolongadas ou em situações de crise grave dentro das corporações estaduais.
Secretarias detalham assistência
Após a divulgação dos dados nacionais pelo governo federal, diversas secretarias estaduais de segurança pública e polícias civis manifestaram-se publicamente para detalhar as ações e os programas assistenciais mantidos em suas respectivas redes. Estados como Maranhão, Ceará, Pernambuco, Roraima, Pará, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina apresentaram justificativas e descreveram iniciativas locais voltadas ao bem-estar dos servidores.
A Polícia Civil de São Paulo informou que mantém estruturas permanentes, como o Núcleo Psicossocial da Divisão de Prevenção e Apoio Assistencial e o Núcleo de Orientação Psicológica da Academia de Polícia, realizando milhares de atendimentos anuais por demanda espontânea ou encaminhamento. Por sua vez, a Polícia Civil do Paraná destacou que adota diretrizes baseadas em resolução interna para o recolhimento preventivo do armamento funcional e encaminhamento médico em caso de alterações comportamentais.
Outros estados, como Pernambuco e Santa Catarina, argumentaram que os dados consolidados pelo ministério refletem o cenário do ano-base de 2024 e que novas iniciativas de avaliação e suporte psicológico foram implantadas ou ampliadas a partir de 2025. Já o governo do Rio de Janeiro pontuou que mantém um núcleo especializado com psiquiatras e psicólogos para tratamento e acompanhamento de policiais ativos, inativos e dependentes, refutando falhas totais na assistência.
Cobram diretrizes e prevenção
O painel consolidado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública busca justamente pressionar os governos estaduais a padronizarem políticas públicas voltadas à preservação da vida e da integridade psicológica dos operadores de segurança. A cobrança por exames regulares e redes de apoio estruturadas ganha força diante do volume expressivo de licenças médicas registradas anualmente em todo o país.
Enquanto novas diretrizes federais são debatidas com os gestores estaduais, entidades de classe reforçam a necessidade de desmistificar o acompanhamento psicológico nas corporações policiais. O objetivo principal é remover o estigma institucional que muitas vezes impede o policial de buscar ajuda voluntariamente antes de atingir o esgotamento emocional completo.
A expectativa dos órgãos federais é que a transparência proporcionada pelo painel sirva de base para que as secretarias estaduais reformulem seus programas de saúde ocupacional. O monitoramento contínuo e preventivo permanece apontado por especialistas como o único caminho eficaz para reduzir os índices alarmantes de afastamentos por transtornos mentais nas polícias brasileiras.


