O empresário israelense Uri Levine, cofundador do aplicativo de navegação Waze, rejeitou a ideia de que o Brasil seja um ambiente hostil para quem deseja abrir ou expandir uma empresa. Em entrevista publicada nesta quarta-feira (21), ele afirmou que as dificuldades do mercado brasileiro não são exclusivas do país e podem até reduzir a entrada de concorrentes estrangeiros.
Levine, de 61 anos, também anunciou uma aposta concreta no empreendedorismo brasileiro: a Uri Levine Startup Academy, plataforma de formação online lançada inicialmente apenas no Brasil. Sua meta declarada é preparar 100 mil empreendedores, combinando experiência de negócios e orientações sobre criação de produtos.
Complexidade pode favorecer negócios
Para o investidor, é preciso distinguir burocracia e complexidade da percepção de que empreender no Brasil seria inviável. Ele compara o mercado brasileiro ao da Índia para argumentar que outros países enfrentam desafios igualmente expressivos, inclusive diferenças linguísticas e de comportamento do consumidor.
Na avaliação de Levine, companhias internacionais podem demorar para decidir entrar em um mercado que consideram difícil de compreender. Essa demora cria espaço para empresas locais desenvolverem produtos e relações com os consumidores antes da chegada de novos concorrentes.
O executivo também questiona a ideia de que o tempo necessário para fechar negócios seja excepcionalmente longo no Brasil. Em sua experiência, encontrar clientes e convencê-los a pagar por determinado serviço é um desafio presente em diferentes países.
Não é hostil. É complexo, sim. Mas nem é o mais complexo [do mundo].”
Uri Levine, cofundador do Waze
Ele considera o perfil social dos brasileiros outro elemento relevante. O uso intenso de aplicativos de comunicação e redes sociais ajuda a criar canais de conversa entre empresas e clientes. A oportunidade, porém, depende de oferecer serviços que resolvam necessidades identificáveis, e não simplesmente de apostar no tamanho do mercado.
Academia mira cem mil empreendedores
A escolha do Brasil como primeiro mercado da escola de formação reforça uma relação construída com viagens frequentes, leitores e empreendedores locais. A academia oferece aulas online e foi apresentada como uma maneira de disseminar práticas aprendidas ao longo da trajetória do fundador.
Levine atribui parte de sua decisão à recepção que encontrou para seus livros. A edição brasileira de Apaixone-se pelo Problema, Não pela Solução teve desempenho comercial superior ao da edição original em inglês, segundo o próprio autor. Seu livro O Simples Vence chegou ao mercado apenas em português.
O empresário defende que a melhor ideia de negócio começa pela identificação de um problema persistente na vida das pessoas. Na visão dele, buscar uma inovação inédita não é necessariamente tão importante quanto oferecer uma melhoria clara em uma experiência que já existe.
Esse princípio aparece nas recomendações que faz sobre produtos digitais. Para o investidor, a capacidade de manter usuários por longos períodos vale mais do que atrair atenção inicial. Se o cliente abandona a ferramenta depois de testá-la, a empresa ainda não demonstrou valor suficiente para uma relação duradoura.
Retenção importa mais que novidade
A trajetória do Waze é usada por Levine para ilustrar o desafio de alterar hábitos. Quando a empresa buscava investidores, houve resistência à ideia de que motoristas utilizariam um aplicativo para percorrer trajetos já conhecidos. A proposta exigia demonstrar que informações compartilhadas poderiam tornar o deslocamento mais eficiente.
O cofundador argumenta que consumidores não desejam trocar de produto simplesmente porque existe uma opção nova. A mudança costuma ocorrer quando o serviço disponível deixa de satisfazer expectativas ou quando uma alternativa apresenta benefícios perceptíveis.
Na entrevista, ele estimou que apenas uma parcela pequena do público procura ativamente novidades. O restante, em sua avaliação, tende a preservar soluções conhecidas até encontrar razões concretas para substituí-las.
Retenção é a única métrica que importa.”
Uri Levine, cofundador do Waze
Investimentos além do Waze
Levine participou de dois negócios tecnológicos vendidos por aproximadamente US$ 1 bilhão cada: Waze e Moovit. Por essa trajetória, passou a associar sua imagem à expressão “duocórnio”, referência à participação na venda de duas empresas avaliadas em valores bilionários.
Depois das operações, manteve atuação como investidor em empresas como FairFly, Refundit, Pontera, SeeTree e Fibo. A Pontera, especializada em tecnologia para gestão de planos de aposentadoria nos Estados Unidos, aparece em estimativas da Dealroom com avaliação entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão.
Desde 2016, o empresário integra o conselho da Here Technologies, companhia ligada a serviços de mapas, localização e dados geográficos. Também preside o conselho da Zoomcar, empresa indiana de compartilhamento de veículos.
Além dos investimentos, Levine exerce atividades de ensino na IE University, em Madri, cidade onde vive, e na Universidade de Tel Aviv. A nova academia brasileira combina esse trabalho educacional com a experiência acumulada no desenvolvimento, financiamento e venda de empresas de tecnologia.
