O trabalho intermediado por plataformas digitais alcançou aproximadamente 1,7 milhão de brasileiros no terceiro trimestre de 2024, crescimento de 25,4% em relação a 2022, segundo o IBGE. A expansão evidencia a importância dos aplicativos como fonte de renda, ao mesmo tempo que expõe jornadas prolongadas e menor proteção previdenciária entre parte dos trabalhadores.
A mudança atinge pessoas que perderam empregos com carteira assinada ou encontram dificuldades para retornar ao mercado formal. Motoristas e entregadores podem entrar rapidamente nas plataformas, mas precisam arcar com custos de veículo, combustível, manutenção e períodos de espera entre serviços.
Ex-caminhoneiro muda de profissão
Rafael Antunes, 52 anos, trabalhou cerca de duas décadas como caminhoneiro antes de passar a dirigir pela Uber no Rio de Janeiro. O emprego anterior lhe permitiu comprar uma casa e financiar os estudos universitários de uma filha.
Depois de perder o trabalho, ele começou a transportar passageiros por aplicativo. Em entrevista, afirmou que o rendimento atual varia muito e que a idade dificulta conseguir outra ocupação.
Depende do mês, mas às vezes ganho apenas metade do que ganhava antes.”
Rafael Antunes, motorista de aplicativo
O caso mostra uma diferença importante entre estar ocupado e recuperar a estabilidade econômica anterior. A entrada em uma plataforma pode impedir a ausência completa de renda, mas não garante faturamento líquido equivalente a um salário fixo.
A remuneração do motorista depende do número de corridas, das tarifas e da proporção absorvida por despesas operacionais. Uma comparação adequada com emprego assalariado precisa considerar férias, contribuições sociais e tempo não remunerado.
IBGE mede expansão rápida
O IBGE identificou aproximadamente 1,3 milhão de trabalhadores em plataformas em 2022, número que subiu para 1,7 milhão em 2024. O segundo levantamento corresponde a 1,9% dos ocupados no setor privado considerados pela pesquisa.
Cerca de 964 mil pessoas exerciam atividades ligadas a aplicativos de transporte de passageiros, incluindo opções para táxis. Os aplicativos de entregas de produtos e alimentos reuniam aproximadamente 485 mil trabalhadores.
Outros 294 mil exerciam serviços gerais ou profissionais mediados digitalmente. Essas categorias não devem ser somadas mecanicamente, pois uma pessoa pode atuar em mais de um tipo de aplicativo.
Horas e direitos pesam
O estudo do IBGE constatou que os trabalhadores plataformizados apresentavam, em média, jornadas semanais mais extensas e menor frequência de contribuição previdenciária do que outros ocupados comparáveis.
O rendimento médio bruto mais alto em determinados grupos não é sinônimo de melhores condições de trabalho. Custos individuais e número de horas precisam ser considerados para avaliar a remuneração efetiva.
A informalidade atingia mais de 70% dos trabalhadores enquadrados no levantamento. A ausência de vínculo formal pode dificultar o acesso a proteções relacionadas a afastamento, aposentadoria e acidentes.
Regulação permanece em disputa
O debate brasileiro sobre o trabalho por aplicativo envolve remuneração mínima, transparência de algoritmos, proteção previdenciária e responsabilidades das empresas na organização dos serviços. As propostas encontram posições divergentes entre plataformas, trabalhadores e representantes políticos.
A flexibilidade é apontada como vantagem por parte dos motoristas e entregadores, mas a escolha do horário de trabalho não elimina a dependência das regras definidas unilateralmente pelos aplicativos.
A pesquisa do IBGE integra a PNAD Contínua e foi desenvolvida com a Universidade Estadual de Campinas e o Ministério Público do Trabalho. O módulo experimental permite acompanhar a evolução dessas atividades com parâmetros estatísticos comparáveis.
Entre 2022 e 2024, o grupo de serviços gerais e profissionais apresentou expansão de 52,1%, passando de 193 mil para 294 mil pessoas, sinal de que o trabalho em plataformas não se restringe ao transporte e à entrega.
