Sete em cada dez americanos acreditam que o presidente Donald Trump poderá deixar de reconhecer uma derrota do Partido Republicano nas eleições legislativas de novembro de 2026. O resultado aparece em pesquisa conduzida pelo Washington Post, ABC News e Ipsos, divulgada na terça-feira (20), e revela desconfiança que ultrapassa as divisões partidárias nos Estados Unidos.
O levantamento ouviu 2.545 adultos entre 9 e 13 de outubro, com margem de erro informada de dois pontos percentuais. Embora muitos entrevistados duvidem da postura do presidente diante de um resultado desfavorável aos republicanos, a maioria continua demonstrando confiança no processo de contagem de votos.
Desconfiança ultrapassa partidos
Entre os americanos identificados com o Partido Democrata, 94% manifestaram a expectativa de que Trump não aceitaria uma derrota republicana. A avaliação é compartilhada por 77% dos independentes e por 36% dos republicanos. Esses percentuais se referem a grupos distintos da amostra, e não a parcelas que devam ser somadas.
A pesquisa mede o que os entrevistados acreditam que o presidente fará. Ela não prova que exista uma decisão tomada por Trump para contestar o pleito, nem equivale a uma previsão estatística do comportamento futuro da Casa Branca.
Os dados foram divulgados poucas semanas antes da votação que renovará cadeiras da Câmara dos Representantes e do Senado. O presidente não disputa cargo nesse pleito, mas transformou o resultado em uma prioridade de sua agenda política e participa de atos destinados a mobilizar eleitores republicanos.
Em comício no Kansas, no dia 19, Trump pediu que seus apoiadores comparecessem às urnas como se ele próprio fosse o candidato. A frase ilustra o envolvimento direto do presidente nas disputas que definirão o equilíbrio de forças no Congresso.
Nesta eleição, peço a vocês que votem como se meu nome estivesse na cédula.”
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos
| Quem duvida de Trump | |
|---|---|
| Grupo de entrevistados | Percentual que prevê contestação |
| Total de americanos | 70% |
| Democratas | 94% |
| Independentes | 77% |
| Republicanos | 36% |
Fonte: Washington Post, ABC News e Ipsos.
Confiança nas urnas persiste
Apesar das dúvidas sobre o comportamento de Trump, 65% dos participantes da pesquisa Washington Post-ABC-Ipsos afirmaram confiar na contagem dos votos. A distinção é importante: receio em relação à reação de um líder político não significa necessariamente descrença generalizada na apuração realizada pelas autoridades eleitorais.
Pesquisa separada do Pew Research Center identificou que 87% dos eleitores registrados esperam uma administração adequada das eleições em suas próprias comunidades. A sondagem ouviu 5.062 adultos, dos quais 3.917 eram eleitores registrados, de 28 de setembro a 4 de outubro.
O estudo do Pew registra diferenças relevantes entre os grupos partidários. A confiança de apoiadores democratas na contagem de votos enviados pelo correio caiu de 88% em 2022 para 64% em 2026. Entre apoiadores republicanos, a medida passou de 37% para 42% no mesmo intervalo.
As maiores preocupações também variam. Entre democratas, apareceram temores de interferência federal na administração da eleição e de impedimento à participação de pessoas habilitadas. Entre republicanos, houve maior destaque para suspeitas de votos irregulares ou de eleitores sem direito a votar.
Histórico amplia preocupação
Trump tem antecedentes de contestação de resultados desfavoráveis, especialmente após perder a eleição presidencial de 2020 para Joe Biden. Na Geórgia, pressionou autoridades eleitorais para encontrar votos suficientes para alterar a apuração naquele estado. Suas alegações de fraude generalizada não foram acompanhadas de provas capazes de reverter a derrota.
Em seu atual mandato, o presidente defendeu ampliar o controle federal sobre procedimentos eleitorais. O sistema americano, porém, distribui aos estados competências centrais para administrar as votações, com regras e estruturas distintas em diferentes regiões do país.
Trump também apoiou o Save America Act, proposta legislativa que endureceria exigências de identificação e comprovação de cidadania no registro eleitoral. O projeto não havia sido aprovado até a divulgação dos levantamentos, apesar da pressão do presidente.
A administração republicana afirma que suas medidas buscam impedir fraudes e assegurar que apenas pessoas habilitadas participem das eleições. Críticos sustentam que determinadas exigências podem dificultar o acesso de eleitores legítimos. A disputa envolve tanto a segurança do voto quanto as condições práticas de participação.
Disputas apertadas elevam riscos
A possibilidade de resultados muito próximos em distritos decisivos preocupa especialistas em direito eleitoral. Richard Hasen, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles, avalia que uma ampla vitória democrata na Câmara reduziria a margem para tentativas de interferência política na certificação dos resultados.
Já disputas apertadas pelo controle de uma das casas legislativas poderiam multiplicar contestações e pressões sobre funcionários responsáveis pela apuração. Hasen destacou esse cenário como um risco, sem afirmar que uma interferência futura esteja confirmada.
Um grupo formado por atuais e antigos integrantes da área de segurança nacional também discutiu com autoridades de dez estados respostas a possíveis tentativas de interferência federal. As preocupações relatadas se baseiam em manifestações e medidas públicas, não em informações sigilosas sobre planos estabelecidos.
No ambiente político, a pressão sobre o presidente também aumentou com pesquisa Reuters/Ipsos que apontou aprovação de 31%, um patamar particularmente baixo às vésperas das eleições legislativas. As votações de novembro determinarão a composição do Congresso para a etapa seguinte de seu mandato.
