Comunidades indígenas da Amazônia estão reforçando brigadas de incêndio, o armazenamento de água e a organização de alimentos e medicamentos diante do risco de agravamento da seca associado ao El Niño. No Baixo Tapajós, no Pará, equipes comunitárias já combateram focos de fogo em outubro, enquanto organizações indígenas distribuem orientações para reduzir o isolamento das aldeias.
O temor se apoia na experiência de secas extremas anteriores, especialmente em 2023 e 2024, quando rios atingiram níveis excepcionalmente baixos e dificultaram deslocamentos e abastecimento. O fenômeno climático atual pode reduzir as chuvas durante meses importantes para a recuperação dos rios amazônicos.
Brigadas já enfrentam incêndios
Na região de Santarém, a liderança indígena Tainan Kumaruara participa da organização da Brigada Guardiões Kumaruara e da Rede de Brigadas do Baixo Tapajós. Em outubro, equipes atuaram contra focos registrados fora da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, tentando impedir que as chamas alcançassem a unidade de conservação e as comunidades próximas.
A experiência da aldeia Muruary permanece como alerta. Na virada de 2015 para 2016, um incêndio destruiu casas, roçados e estruturas de produção de farinha. Na ocasião, até o igarapé utilizado pela comunidade havia secado, reduzindo a disponibilidade de água para enfrentar as chamas.
Tainan, filha da cacica Hélia Kumaruara, relatou que os indígenas trabalham para proteger famílias e evitar uma repetição da devastação. O esforço envolve prevenção, conscientização dos moradores, transporte de brigadistas e obtenção de combustível e equipamentos durante as operações.
Estamos um pouco aflitos. Mas temos trabalhado para estar mais preparados, com menos falta de água e incêndios florestais.”
Tainan Kumaruara, coordenadora da Brigada Guardiões Kumaruara
Além das ações no terreno, integrantes da rede compartilham alertas e informações por aplicativos de mensagens e redes sociais. O objetivo é alcançar também áreas onde as equipes não conseguem manter presença permanente, ampliando a prevenção antes da chegada do fogo.
Seca avança no norte
A pesquisadora Ana Paula Cunha, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, informou que a estiagem se intensifica desde julho, sobretudo em Roraima, no Amapá e no norte do Amazonas. A situação ainda não alcançou a gravidade do episódio de 2023 e 2024, mas há preocupação com os próximos meses.
O El Niño altera padrões de circulação atmosférica e pode reduzir as precipitações em partes da Amazônia. A expectativa apresentada pelos especialistas é de continuidade do fenômeno até março ou abril, período no qual algumas bacias normalmente recuperariam parte de seus níveis. Chuvas abaixo da média podem prejudicar esse processo em 2027.
Os cientistas ressaltam que o El Niño não atua sozinho. O aquecimento anômalo do oceano Atlântico contribuiu para a seca extrema anterior. Até o momento da avaliação, esse aquecimento adicional não havia sido identificado, embora as temperaturas do oceano permaneçam sob acompanhamento.
O aumento dos incêndios já aparece no monitoramento por satélite. Dados do sistema BDQueimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, apontam cerca de 39 mil focos de calor na Amazônia até meados de outubro, ante aproximadamente 24 mil no mesmo período de 2025. Os focos são detecções de calor e não equivalem necessariamente a igual número de incêndios distintos.
Plano orienta aldeias isoladas
A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira elaborou um plano de adaptação para situações de seca severa, incêndios e dificuldades de transporte. O documento procura responder a necessidades concretas dos territórios: garantir água potável, preparar estoques e preservar o acesso a serviços essenciais.
Uma cartilha lançada pela Coiab em agosto de 2026 orienta comunidades a proteger fontes de água, acompanhar seu armazenamento e identificar áreas especialmente vulneráveis. Também recomenda a organização de brigadas, grupos de monitoramento e meios de transporte com reserva de combustível.
Ruan Guajajara, integrante da área de monitoramento territorial da entidade, lembrou que aldeias ficaram isoladas durante a estiagem anterior. A redução da navegabilidade dos rios comprometeu a chegada de alimentos, remédios e água, além do deslocamento de moradores em busca de atendimento.
Prevenção reúne diferentes frentes
As recomendações da Coiab foram pensadas para diferentes realidades territoriais. Cada comunidade precisa considerar suas fontes de água, rotas de acesso, sistemas de comunicação e condições locais de combate a incêndios. A preparação antecipada é especialmente importante onde o transporte depende quase inteiramente de embarcações.
No Amazonas, o governo federal já havia reconhecido situação de emergência em 36 municípios, enquanto a fumaça das queimadas atingia cidades como Manaus. O quadro amplia a pressão sobre equipes de saúde, defesa civil, lideranças territoriais e brigadistas que trabalham em áreas extensas.
A referência histórica mais recente continua sendo o ciclo de 2023 e 2024, quando os registros de focos de calor até a metade de outubro foram de aproximadamente 69 mil e 112 mil, respectivamente. Os números de 2026 permanecem menores que os daquele período, mas superiores aos observados em 2025 na mesma janela.
A cartilha de preparação foi apresentada durante a XV Assembleia Geral da Coiab, realizada na Terra Indígena Karajá/Xambioá, no Tocantins. O material reúne orientações de água, alimentação, medicamentos, vigilância territorial e logística para situações climáticas extremas.
