A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega à reta final do segundo turno presidencial de 2026 sob críticas de especialistas que identificam oportunidades pouco exploradas pelo campo progressista brasileiro. Entre os exemplos citados estão iniciativas de governos e lideranças de esquerda no México, no Uruguai e nos Estados Unidos.
O debate ganhou relevância depois de Lula ficar atrás de Flávio Bolsonaro (PL) por mais de dois milhões de votos no primeiro turno. A diferença aumentou a pressão por mudanças de estratégia, de linguagem e de temas prioritários na tentativa de conquistar eleitores além da base tradicional do petismo.
Campanha de Lula busca reação
As comparações internacionais não oferecem uma fórmula pronta para o Brasil. Elas apontam decisões políticas distintas que, na avaliação dos analistas ouvidos na reportagem, poderiam ter informado melhor a atuação do governo e da campanha.
Três dimensões aparecem nessa discussão: resposta ao medo da violência, capacidade de sustentar alianças amplas e renovação da forma de dialogar com cidadãos cuja vida profissional ocorre cada vez mais fora dos vínculos formais tradicionais.
México reforça agenda de segurança
No México, a presidente Claudia Sheinbaum é citada como exemplo de liderança de esquerda que trata a segurança pública como eixo central da agenda governamental. O contraste destacado pelos especialistas é com a dificuldade histórica do PT de desenvolver uma mensagem capaz de disputar esse tema com a direita no Brasil.
Segurança não envolve apenas endurecimento penal. Também abrange coordenação entre forças policiais, investigação, prevenção, redução da violência e a capacidade de apresentar resultados que sejam compreendidos pela população afetada pelo crime.
O paralelo exige cuidado: México e Brasil têm estruturas federativas, organizações criminosas e condições institucionais diferentes. A lição sugerida não é a reprodução literal das políticas mexicanas, mas a relevância política de apresentar propostas objetivas para uma preocupação recorrente do eleitorado.
Uruguai oferece exemplo de aliança
O governo uruguaio de Yamandú Orsi aparece na análise como referência da construção de uma frente de esquerda abrangente. Para especialistas, o desafio brasileiro é converter alianças eleitorais em um projeto político duradouro, com participação consistente dos diferentes grupos que o apoiam.
Lula montou uma coalizão ampla para retornar ao Palácio do Planalto, mas manter convergência entre forças políticas durante a gestão se revelou tarefa distinta de reunir apoios para uma eleição. Divergências sobre prioridades e cargos podem enfraquecer a apresentação de objetivos comuns.
A trajetória uruguaia oferece um exemplo de organização partidária construída ao longo de décadas. Sua experiência depende de condições nacionais próprias e de uma estrutura política diferente, o que limita comparações simplificadas com a competição brasileira.
Novas lideranças desafiam o PT
Nos Estados Unidos, a ascensão de figuras democratas de gerações mais novas foi citada na discussão sobre comunicação, renovação de quadros e adaptação da esquerda às mudanças econômicas. As novas formas de emprego, o trabalho por aplicativos e o empreendedorismo individual impõem questões nem sempre contempladas pela linguagem sindical tradicional.
A economista Monica de Bolle também destacou, em entrevista recente, o crescimento de um eleitorado mais individualista e vinculado ao empreendedorismo informal. Em sua avaliação, os principais concorrentes à Presidência não têm apresentado respostas suficientes para transformações sociais e fiscais em curso.
O cientista político Steven Levitsky, por sua vez, associou o avanço eleitoral de Flávio Bolsonaro à insatisfação com o cenário político existente. A leitura ajuda a explicar por que a defesa do legado de governo pode não bastar para ampliar a votação de Lula.
As eleições presidenciais têm segundo turno marcado para 25 de outubro. Até lá, as campanhas disputam eleitores que não apoiaram seus candidatos no primeiro turno e procuram transformar propostas sobre segurança, trabalho e economia em mensagens de alcance nacional.
