O Comando Vermelho ampliou seu domínio sobre as rotas estratégicas do tráfico de drogas na Amazônia e superou o Primeiro Comando da Capital na disputa pelo controle da região. A constatação faz parte de um relatório elaborado pelo pesquisador Gabriel Funari, da Global Initiative, que detalha como a facção carioca consolidou rotas internacionais de cocaína e expandiu sua atuação para o comércio ilegal de ouro, mineração clandestina e pesca ilegal na bacia amazônica.
A expansão criminosa na região transformou a Amazônia em um corredor logístico transnacional de alta relevância para o crime organizado. A geografia desafiadora, combinada com a fiscalização precária e esquemas de corrupção envolvendo autoridades locais, facilitou o avanço das organizações criminosas e a consolidação de formas de governança criminal em polos estratégicos dos estados amazônicos.
O estudo aponta ainda que essa forte presença territorial permite ao grupo estabelecer conexões diretas com compradores internacionais na Europa, fortalecendo sua expansão para além das fronteiras nacionais e diversificando suas fontes de faturamento ilegal por meio de rotas fluviais complexas.
Aliança histórica com Farc
As articulações do Comando Vermelho na região amazônica começaram a ser desenhadas ainda na década de 1990. Naquele período, a facção buscava diversificar suas cadeias de suprimento de cocaína, que até então vinha principalmente da Bolívia por rotas terrestres que passavam pelo Paraguai, e encontrou na Amazônia um novo caminho logístico para escoar entorpecentes.
Segundo o levantamento, Fernandinho Beira-Mar foi o principal articulador na aproximação com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia na região da tríplice fronteira. O esquema consistia no fornecimento de armas brasileiras aos guerrilheiros colombianos em troca de cargas de cocaína, estabelecendo as bases para o domínio da rota do Solimões.
Com a consolidação dessa parceria tática, a facção carioca conseguiu transportar volumes cada vez maiores de entorpecentes pelos rios amazônicos. Além do tráfico de drogas, o grupo diversificou suas fontes de financiamento ilegal, incorporando a exploração de ouro e a pesca clandestina como mecanismos adicionais de faturamento e lavagem de dinheiro.
A cooperação com grupos guerrilheiros garantiu a estabilidade logística necessária para que o grupo mantivesse o fluxo constante de drogas em direção aos mercados consumidores nacionais e estrangeiros.
Conquista de Manaus e rivalidades
O domínio territorial em centros urbanos estratégicos foi outro fator determinante para o avanço da facção na região norte. Há cerca de seis anos, o Comando Vermelho assumiu o controle de pontos de distribuição em Manaus após incorporar remanescentes da extinta facção Família do Norte, derrotando o PCC na disputa local.
O avanço do CV na região tem transformado a facção em um ator cada vez mais relevante no tráfico de drogas.”
Gabriel Funari, pesquisador da Global Initiative
A vitória territorial é celebrada anualmente por integrantes do grupo na capital amazonense com queima de fogos em praças públicas e exibições em espaços urbanos. Enquanto o grupo assegurou o monopólio em Manaus e em rotas de exportação por Belém, o PCC perdeu espaço expressivo no território amazônico, mantendo relevância operacional apenas em Roraima, na fronteira com a Venezuela.
A monopolização das rotas gerou reações de rivais, que passaram a adaptar suas estratégias logísticas na tentativa de recuperar espaço perdido. No entanto, a capilaridade conquistada pelo grupo garantiu sua hegemonia nos principais centros de escoamento fluvial da região.
O recuo da facção rival na bacia amazônica evidenciou a eficácia do modelo organizacional adotado pelos cariocas na assimilação de estruturas locais.
Logística fluvial e escoamento
A bacia amazônica funciona como a principal artéria do tráfico internacional de cocaína gerada nos países andinos, especialmente Colômbia e Peru. As drogas são transportadas por rios em pequenas embarcações pesqueiras até centros de redistribuição, com destaque para a capital do Amazonas, que serve como entreposto logístico intermediário essencial para o esquema.
A partir de Manaus, parte dos entorpecentes é despachada por via terrestre e fluvial para abastecer mercados consumidores no Sudeste brasileiro, enquanto remessas maiores seguem em embarcações de grande porte rumo a Belém e ao Amapá. Nestes portos setentrionais, a carga é integrada a rotas marítimas internacionais com destino final na Europa e em outros continentes.
Apesar da predominância fluvial, o esquema criminoso também recorre ao uso esporádico de aeronaves de pequeno porte para o transporte rápido de cargas menores. A vastidão territorial e a escassez de recursos de fiscalização contínua continuam a ser os principais facilitadores da expansão logística das organizações criminosas na Amazônia.
O relatório conclui que o enfraquecimento das barreiras de controle fiscal favorece diretamente a circulação de mercadorias ilícitas e o fortalecimento financeiro das lideranças do narcotráfico na região.
Facções disputam rotas fluviais
O avanço do Comando Vermelho na região redefine o equilíbrio de forças entre as principais organizações criminosas do país. Historicamente concentrado nos estados do Sudeste, o grupo carioca demonstra capacidade de adaptação em áreas de fronteira e em ecossistemas complexos, estabelecendo redes de cooperação com atores locais e internacionais.
Enquanto órgãos de segurança pública tentam conter o fluxo de entorpecentes, as facções continuam a explorar as vulnerabilidades geográficas e institucionais da Amazônia. O controle sobre rotas fluviais e áreas de mineração ilegal assegura sustentabilidade financeira de longo prazo para os grupos envolvidos.
Especialistas apontam que o combate a essas redes exige integração entre diferentes agências governamentais e reforço na fiscalização de rios e portos. Sem uma resposta coordenada, o domínio do narcotráfico transnacional na bacia amazônica tende a se consolidar ainda mais nos próximos anos.


