O fenômeno climático conhecido como Super El Niño pode provocar cerca de 451 mil mortes adicionais ligadas ao calor extremo em todo o planeta entre junho de 2026 e fevereiro de 2027. A estimativa faz parte de um levantamento divulgado pelo Climate Impact Lab, grupo de pesquisa associado à Universidade de Chicago, que aponta o Brasil como o quinto país mais afetado do mundo pela crise térmica.
De acordo com os pesquisadores responsáveis pela análise, a temperatura média global da terra deve ficar 1,2°C acima do patamar considerado normal nos próximos meses. O estudo ressalta que o atual ciclo do fenômeno está entre os mais intensos das últimas décadas, impulsionando dias de calor severo em proporções que só seriam esperadas para as próximas duas décadas.
Brasil ocupa quinta posição
As projeções estatísticas indicam que o território brasileiro registrará aproximadamente 13,3 mil mortes adicionais associadas às temperaturas extremas durante o período analisado. Desse total projetado, cerca de 8 mil óbitos adicionais devem se concentrar exclusivamente nos meses de dezembro a fevereiro.
O ranking internacional de nações mais vulneráveis ao impacto direto do calor é liderado pela Nigéria. Na sequência, aparecem Indonésia, Sudão e Índia ocupando, respectivamente, o segundo, terceiro e quarto lugares antes de o Brasil figurar na quinta colocação global.
A metodologia adotada cruzou informações históricas sobre a relação entre variação térmica e mortalidade em mais de 24 mil regiões geográficas. Os cientistas compararam as previsões de longo prazo com a média climática registrada entre 1996 e 2025 para mensurar o desvio esperado.
Sul global concentra impactos
As regiões que compõem o Sul Global acumulam a maior parcela das fatalidades projetadas pelo centro de pesquisa americano. Áreas específicas como a faixa do Sahel, na África, e o Sudeste Asiático também enfrentam cenários de risco acentuado devido à combinação de alta umidade e calor prolongado.
Os especialistas apontam que o volume estimado de vidas ameaçadas pelo fenômeno supera em larga escala outras tragédias recentes associadas a eventos climáticos extremos. A projeção global de óbitos é cerca de 65 vezes superior ao total de 6.800 pessoas dadas como mortas ou desaparecidas após enchentes repentinas no Nepal.
Este relatório permite que os tomadores de decisão vejam exatamente onde ações emergenciais podem ser tomadas agora para salvar dezenas de milhares de vidas nos próximos meses.”
Michael Greenstone
Além disso, o relatório adverte que os efeitos sobre a mortalidade podem persistir mesmo após o encerramento do ciclo inicial de análise, atingindo com maior força os territórios que ingressam no período de verão nos meses seguintes.
Fonte: Climate Impact Lab
Especialistas cobram adaptação
Diante do cenário de risco iminente, pesquisadores enfatizam que parte significativa das fatalidades projetadas pode ser evitada por meio de intervenções rápidas e políticas públicas de adaptação urbana. A adoção de medidas emergenciais torna-se indispensável para proteger as populações mais vulneráveis nos centros urbanos e nas zonas rurais.
Entre as estratégias apontadas como prioritárias estão a implementação de sistemas precoces de alerta para ondas de calor, a ampliação do suporte na rede de saúde e a criação de espaços públicos refrigerados e pontos de hidratação acessíveis.
A proteção específica aos trabalhadores que exercem atividades expostas diretamente à radiação solar e às altas temperaturas também figura entre as recomendações centrais para mitigar os danos à saúde pública nos próximos meses.
Governos buscam estratégias
A formulação de respostas coordenadas por parte dos tomadores de decisão locais é considerada determinante para conter o avanço da mortalidade associada ao clima. Ações emergenciais podem salvar dezenas de milhares de vidas nos próximos meses, conforme avaliam os autores do estudo internacional.
O levantamento destaca que a eficácia das barreiras protetivas dependerá diretamente da capilaridade e da rapidez com que os governos municipais e estaduais conseguirem estruturar redes de apoio à população de baixa renda e a idosos.
As incertezas em torno do impacto final recaem justamente sobre o nível de investimento e o alcance geográfico das políticas de mitigação que serão efetivamente colocadas em prática pelas administrações locais durante o período crítico.


