Cientistas do Climate Impact Lab, ligado à Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, divulgaram um relatório projetando cerca de 451 mil mortes adicionais devido ao calor intensificado por um Super El Niño. A estimativa abrange o período inicial de meses do fenômeno, comparando o cenário a um patamar histórico normal e acendendo alertas globais sobre os riscos do aquecimento do planeta.
Para chegar a esses números, os pesquisadores calcularam a relação estatística entre temperatura e excesso de mortalidade. O modelo considerou as diferenças climáticas de cada nação, a vulnerabilidade social e a capacidade de adaptação das populações locais frente aos impactos severos provocados pelas altas temperaturas registradas no Oceano Pacífico.
Brasil lidera impactos na América do Sul
Na América do Sul, o Brasil figura no topo dos países mais afetados e integra o top 5 global do ranking elaborado pelo laboratório americano. A projeção aponta que o país pode registrar 13,3 mil óbitos associados diretamente ao calor extremo gerado pelo fenômeno climático nos próximos meses.
Além da alta direta nas temperaturas, o relatório lembra que o Super El Niño atua como um potencializador de desastres paralelos. O aquecimento intensifica riscos indiretos como secas severas, incêndios florestais de grande proporção e inundações repentinas em várias regiões.
Especialistas ressaltam que o Sul Global concentra a maior parte da vulnerabilidade devido a fatores socioeconômicos. Países do Sahel africano e do Sudeste Asiático também aparecem com dezenas de milhares de óbitos estimados no levantamento científico.
Projeções detalham óbitos no Sul Global
As estimativas globais apontam um cenário alarmante para os primeiros meses do fenômeno em várias regiões em desenvolvimento. Na África, a região do Sahel concentra uma parcela expressiva das mortes projetadas pelo laboratório da Universidade de Chicago.
A Nigéria lidera essa sub-região com estimativa de 31,4 mil mortes, seguida de perto pelo Sudão, com 17,5 mil óbitos. Níger, com 10 mil, e Chade, com 8 mil mortes previstas, completam o quadro crítico no continente africano.
No Sudeste Asiático, o calor extremo deverá cobrar um preço elevado em países como Filipinas, Vietnã, Tailândia e Camboja, somando 19,4 mil mortes. A Indonésia aparece com 19,3 mil óbitos previstos, enquanto a Índia contabiliza 15,8 mil mortes associadas ao fenômeno.
Fenômeno antecipa cenários do futuro
Os pesquisadores classificam o atual evento climático como um verdadeiro cartão-postal do futuro. A justificativa é que o Super El Niño consegue antecipar patamares de temperatura que as projeções sobre o aquecimento global indicavam apenas para as próximas décadas.
Michael Greenstone, cofundador do laboratório, destacou a importância de monitorar o pior desfecho possível. Segundo ele, conseguimos prever o impacto no pior cenário possível: a morte, permitindo dimensionar com maior precisão a gravidade das ondas de calor extremo.
O impacto estimado pelo estudo supera com folga outras tragédias recentes associadas a eventos extremos. O volume de óbitos projetado é dezenas de vezes maior do que o registrado em desastres pontuais de inundações em países como o Nepal.
Especialistas cobram prevenção e alerta
Diante do cenário desfavorável, o inventário de adaptação do laboratório aponta que é totalmente possível mitigar parte dos danos causados pelo El Niño. A principal recomendação envolve a criação de sistemas de alerta precoce focados em ondas de calor.
O relatório também defende a instalação de centros de resfriamento e o estabelecimento de normas rígidas de proteção para trabalhadores expostos diretamente ao ar livre. Essas medidas são vistas como urgentes para salvaguardar populações de baixa renda.
As autoridades locais são orientadas a integrar o combate aos riscos térmicos nos planos de contingência, tradicionalmente voltados apenas para a segurança alimentar e o controle de safras agrícolas afetadas pela seca.


