Mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro apontam negociações que somaram ao menos R$ 51,9 milhões entre empresas ligadas ao Banco Master e o portal Metrópoles durante 2024 e 2025. A apuração original, divulgada pelo Estadão, identifica contratos e propostas de publicidade, educação financeira e patrocínio esportivo. O montante negociado, porém, não corresponde necessariamente ao dinheiro efetivamente desembolsado.
Procurado pela Folha, o Metrópoles confirmou os valores discutidos, mas afirmou ter recebido R$ 26,9 milhões. A diferença de R$ 25 milhões envolve um projeto publicitário que, segundo o portal, não foi pago em razão da liquidação do Master. A versão da empresa precisa ser considerada junto aos diálogos, que não permitem reconstruir integralmente os comprovantes bancários de cada negociação.
Contratos alcançam R$ 51,9 milhões
As conversas atribuídas a Vorcaro e a Ana Lúcia Matos, então responsável pela comunicação e pelo marketing do banco, descrevem quatro frentes de negócios. A primeira aparece em julho de 2024, com dois projetos de educação financeira, por meio da Kovr e do Will Bank, avaliados em aproximadamente R$ 900 mil. Em dezembro, outro cronograma indicou R$ 20 milhões em quatro pagamentos previstos para 2025.
Em junho de 2025, a direção do portal apresentou uma proposta de R$ 6 milhões para o patrocínio da transmissão da Série D do Campeonato Brasileiro. Já em agosto daquele ano, as mensagens trataram de um novo projeto de R$ 25 milhões, previsto em cinco parcelas. A soma aritmética desses quatro grupos resulta em R$ 51,9 milhões, mas cada linha tem natureza e situação contratual próprias.
| Valores negociados com empresas do Master | ||
|---|---|---|
| Negociação | Valor citado | Referência temporal |
| Educação financeira (Kovr e Will Bank) | R$ 900 mil | Julho de 2024 |
| Campanhas publicitárias | R$ 20 milhões | Dezembro de 2024 |
| Patrocínio da Série D | R$ 6 milhões | Junho de 2025 |
| Novo projeto de publicidade | R$ 25 milhões | Agosto de 2025 |
| Total negociado | R$ 51,9 milhões | 2024 e 2025 |
O detalhamento permite separar valores associados a projetos concretos da discussão sobre pagamentos realizados. Uma proposta aprovada ou uma parcela prevista não prova, isoladamente, que o montante inteiro foi transferido. Essa diferença é especialmente importante no último contrato de R$ 25 milhões, que concentra quase metade do valor total citado nas reportagens.
Portal contesta total recebido
Na manifestação divulgada à Folha, o Metrópoles informou que os R$ 900 mil correspondiam a projetos de educação financeira, os R$ 20 milhões a campanhas publicitárias e os R$ 6 milhões às transmissões esportivas. Para o acordo de R$ 25 milhões, a empresa afirmou que a liquidação do Master impediu qualquer pagamento. Com essa interpretação, os recebimentos teriam somado R$ 26,9 milhões.
O portal também sustenta que outras empresas de comunicação realizaram ações comerciais com o grupo financeiro. A existência de contratos publicitários, por si só, não comprova ingerência sobre reportagens. Para avaliar uma eventual interferência editorial, é necessário examinar separadamente o conteúdo dos diálogos, as alterações em textos e as respostas das pessoas envolvidas.
Em reportagens publicadas nesta semana, conversas adicionais indicaram que Vorcaro teve acesso antecipado a textos do Metrópoles. Segundo levantamento do UOL, ao menos 14 conteúdos foram encaminhados antes da publicação, com solicitações de mudança identificadas em parte deles. A CEO do grupo, Lilian Tahan, afirmou que a checagem de informações com fontes faz parte de seu procedimento profissional e negou vinculação entre contratos e linha editorial.
Mensagens levantam debate editorial
O caso chama atenção não só pelo tamanho das cifras, mas pela proximidade descrita entre um anunciante e a direção de um veículo que acompanhava notícias sensíveis sobre o sistema financeiro. Uma relação comercial e uma decisão editorial são atividades diferentes; a controvérsia surge quando mensagens sugerem que um agente externo teve oportunidade de revisar previamente materiais jornalísticos.
Parte dos documentos repercutidos pela imprensa menciona pedidos relacionados à cobertura de integrantes do Banco Central. Essas alegações exigem atribuição específica, pois não demonstram automaticamente que todas as matérias sobre o órgão foram alteradas ou que as decisões editoriais tiveram finalidade ilícita. Os envolvidos têm direito de apresentar sua versão, e eventuais consequências jurídicas dependem de análise dos órgãos competentes.
O Metrópoles afirmou que os conteúdos publicados mantiveram independência e citou a ampla cobertura jornalística dedicada ao Master. A controvérsia também produziu manifestações públicas entre veículos de imprensa, mas acusações recíprocas não substituem a verificação individual das mensagens e dos textos efetivamente publicados.
Liquidação alterou cenário financeiro
O Banco Master passou por uma crise que terminou em sua liquidação pelo Banco Central em 2025. A situação interfere na leitura dos contratos porque pagamentos planejados antes da intervenção podem não ter sido executados. Por isso, é indispensável distinguir o valor anunciado, o contratualmente devido, as parcelas vencidas e o montante efetivamente recebido.
Relatórios de inteligência financeira do Coaf citados em reportagens também apontaram transferências que se aproximam de R$ 27 milhões para o portal. Esse número, entretanto, tem recorte e metodologia próprios e não deve ser somado aos R$ 26,9 milhões declarados pelo Metrópoles, sob risco de contabilizar duas vezes operações relacionadas.
A reconstrução completa dos pagamentos exigiria documentação bancária e contratual de cada transação, além de delimitação sobre quais empresas do conglomerado participaram dos acordos. Até lá, o dado central continua sendo a negociação de R$ 51,9 milhões identificada nas mensagens e o recebimento menor informado pelo portal.
A discussão sobre eventuais interferências em publicações segue distinta da apuração financeira. O primeiro ponto depende do exame dos diálogos e das versões dos envolvidos; o segundo, de contratos, comprovantes e registros de transferência capazes de demonstrar quais parcelas efetivamente chegaram ao destinatário.
