O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Antonio Guterres, defendeu veementemente nesta quarta-feira (23/9) a inclusão de um representante do continente africano como membro permanente no Conselho de Segurança. A declaração foi feita em meio aos debates da 81ª Assembleia Geral da ONU, principal fórum da organização que reúne os 193 países-membros em Nova York.
Atualmente, a estrutura decisória máxima da entidade é composta por 15 nações, divididas entre cinco membros permanentes e dez assentos rotativos. Enquanto o mundo evoluiu nas últimas décadas, a configuração geopolítica do conselho permanece estagnada, gerando debates acalorados sobre a representatividade e a eficácia das resoluções internacionais diante dos conflitos modernos.
A ausência de um assento permanente africano é injusta e contraria as demandas globais por equidade institucional. A cobrança ganha relevância histórica por marcar o encerramento do ciclo de Guterres à frente do secretariado-geral, cargo que deixará no final de dezembro, abrindo espaço para a transição de um novo comando a partir de fevereiro do ano seguinte.
Estrutura exige reformas profundas
O colegiado principal da ONU possui prerrogativas fundamentais para a geopolítica global, incluindo a aprovação de resoluções de cumprimento obrigatório para todos os Estados-membros. Entre as principais atribuições estão a imposição de sanções econômicas, a decretação de embargos militares e a autorização formal para o uso de força militar em zonas de crise.
No entanto, a concentração de poder nas mãos dos cinco membros permanentes — Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e China — gera críticas recorrentes. Cada um desses governos detém o poder de veto, instrumento que muitas vezes paralisa ações diante de impasses diplomáticos profundos ou interesses estratégicos divergentes.
Para o atual chefe da organização, manter esse formato no século 21 é indefensável. O argumento central sustenta que a legitimidade das decisões globais depende diretamente de um reflexo mais preciso da realidade geopolítica contemporânea, incorporando potências e regiões que historicamente ficaram marginalizadas nos grandes acordos de paz do pós-guerra.
Críticas à falta de representatividade
A exclusão da África das cadeiras permanentes é apontada por diplomatas e analistas como uma das maiores lacunas na arquitetura multilateral atual. Embora o continente concentre dezenas de nações e represente uma fatia expressiva da população mundial, nenhuma sede definitiva foi garantida desde a fundação do organismo internacional.
A África ainda não tem assento permanente no Conselho de Segurança. Um Conselho de Segurança do século 21 sem representação permanente africana é injusto e indefensável.”
Antonio Guterres
Diante desse cenário, a pressão diplomática por reformas estruturais tem ganhado força nos corredores da Assembleia Geral. Líderes globais e blocos regionais intensificam negociações para ampliar o número de vagas, buscando corrigir desequilíbrios históricos que persistem há gerações na estrutura de governança da ONU.
Apesar dos reiterados discursos em favor da mudança, o processo esbarra na complexidade política exigida para alterar a carta magna da instituição. Qualquer emenda estrutural requer não apenas o aval dos membros atuais, mas também um amplo consenso internacional que dificilmente avança sem fortes resistências cruzadas.
Apelo pela paz mundial
Além da cobrança por mudanças no Conselho de Segurança, a agenda de Guterres na 81ª Assembleia Geral foi marcada por fortes apelos em prol do multilateralismo e da resolução pacífica de conflitos armados. Em seu pronunciamento oficial na terça-feira (22/9), o dirigente clamou pelo fim imediato das guerras que assolam diferentes regiões do planeta.
O secretário-geral destacou que a fragmentação geopolítica atual compromete a capacidade da comunidade internacional de responder a emergências humanitárias, crises climáticas e ameaças tecnológicas emergentes. A defesa intransigente do diálogo institucionalizado tem sido a marca registrada de sua gestão nos últimos anos.
A mensagem reforça a urgência de fortalecer alianças multilaterais em um momento em que o unilateralismo ganha espaço em diversas capitais do mundo. Para a liderança da ONU, enfraquecer os mecanismos coletivos de cooperação significa abrir caminho para um cenário global ainda mais instável e imprevisível.
Transição no comando global
O debate sobre a reforma ocorre justamente no último ano do mandato de Antonio Guterres à frente da organização internacional. O diplomata deixará oficialmente o cargo de secretário-geral em 31 de dezembro, encerrando um período de intensa atuação em meio a crises sanitárias, econômicas e geopolíticas sem precedentes.
Enquanto a gestão atual se aproxima do fim, os trâmites para a escolha do próximo dirigente já estão em andamento nos bastidores da diplomacia internacional. O sucessor eleito assumirá a liderança máxima da secretaria-geral a partir de 1º de fevereiro de 2027, herdando o desafio de conduzir reformas estruturais complexas.
A expectativa em torno da transição inclui a cobrança contínua para que a ONU se adapte aos novos tempos. A pressão exercida por Guterres em seus últimos meses de mandato deixa um legado de cobranças incisivas que deverão pautar a agenda de seu sucessor perante os governos globais.


