A Organização das Nações Unidas chega à Semana de Alto Nível de sua 81ª Assembleia Geral pressionada por uma combinação de crise financeira, guerras prolongadas, disputas entre grandes potências e indefinição sobre quem sucederá António Guterres na Secretaria-Geral. O debate geral com chefes de Estado e de governo está marcado para começar em 22 de setembro, em Nova York, com representantes dos 193 países-membros.
Guterres, cujo segundo mandato termina em 31 de dezembro de 2026, vem alertando que a instituição enfrenta dificuldades para cumprir plenamente suas funções em meio à falta de recursos e ao aumento das demandas humanitárias e diplomáticas. Ao mesmo tempo, o Conselho de Segurança ainda não conseguiu construir consenso em torno de um nome para ocupar o cargo a partir de 2027.
Semana de Alto Nível começa
A 81ª sessão da Assembleia Geral foi aberta oficialmente em 8 de setembro sob a presidência de Khalilur Rahman, de Bangladesh. O tema escolhido para a sessão é “Restaurar a confiança, gerir a transformação: uma Organização das Nações Unidas ao serviço de todos”, formulação que reflete a preocupação da instituição com a perda de confiança no sistema multilateral.
A programação de alto nível vai de 18 a 28 de setembro. O debate geral, principal momento político da Assembleia, ocorre entre 22 e 28 de setembro e reúne líderes dos Estados-membros para discursos sobre prioridades nacionais, conflitos internacionais, desenvolvimento, clima e reforma das instituições multilaterais.
Na coletiva que antecedeu a semana de reuniões, Guterres afirmou que os líderes mundiais chegam a Nova York em um período de “profunda incerteza”. Ele citou conflitos, mudanças nas relações de poder, desigualdades e riscos ligados à inteligência artificial como desafios que exigem cooperação internacional.
As Nações Unidas não são apenas uma plataforma, são uma promessa
António Guterres, secretário-geral da ONU
Crise financeira limita atuação
A dificuldade orçamentária é um dos principais problemas enfrentados pela ONU. A própria organização reconhece uma grave crise de liquidez no orçamento regular, causada principalmente por atrasos e pagamentos incompletos das contribuições obrigatórias dos países-membros.
Em junho, a Assembleia Geral aprovou uma mudança financeira que evitou, segundo sua então presidente Annalena Baerbock, um risco imediato de colapso. A medida permitiu reter recursos que seriam devolvidos aos Estados-membros e preservou cerca de US$ 900 milhões para operações de paz e outros US$ 400 milhões para o orçamento regular.
A decisão, porém, não resolveu a causa estrutural do problema. A ONU afirma que a escassez de caixa continua ligada ao volume de contribuições em atraso, situação que já provocou redução de gastos e pressão sobre operações administrativas e de manutenção da paz.
Guterres também vinculou a crise financeira à necessidade de reformas internas por meio da iniciativa UN80, criada para reduzir custos, modernizar processos e tornar a organização mais eficiente diante de recursos menores e demandas crescentes.
Sucessão de Guterres trava
A escolha do próximo secretário-geral ocorre paralelamente à Assembleia. Pelo artigo 97 da Carta da ONU, o nome precisa ser recomendado pelo Conselho de Segurança e depois nomeado pela Assembleia Geral. Na prática, qualquer um dos cinco membros permanentes do Conselho pode impedir uma candidatura por meio do veto.
O processo começou formalmente em novembro de 2025 e incluiu diálogos públicos com os candidatos. As consultas informais no Conselho de Segurança passaram a testar o apoio político aos nomes apresentados, mas ainda não produziram uma candidatura capaz de reunir os votos necessários sem enfrentar oposição decisiva entre os membros permanentes.
A disputa sofreu uma mudança importante com a retirada de Michelle Bachelet. A ex-presidente do Chile anunciou sua saída depois de receber apenas um voto de incentivo, 11 votos de desencorajamento e três manifestações sem opinião na terceira consulta informal do Conselho, realizada em 18 de setembro.
Sete nomes seguem na disputa
Com a saída de Bachelet, sete candidatos permanecem na corrida: Ivonne A-Baki, María Fernanda Espinosa, Rafael Grossi, Rebeca Grynspan, Olara Otunnu, Carolyn Rodrigues Birkett e Macky Sall. A lista reúne ex-chefes de governo, diplomatas e dirigentes de organismos internacionais.
Na terceira consulta informal, Rebeca Grynspan, da Costa Rica, recebeu nove manifestações de incentivo, cinco de desencorajamento e uma sem opinião. Carolyn Rodrigues Birkett, da Guiana, obteve oito incentivos, seis desencorajamentos e uma manifestação neutra. Os resultados mostram apoio relevante, mas não equivalem a uma decisão formal do Conselho.
As primeiras rodadas usaram cédulas idênticas para os 15 integrantes do Conselho, sem indicar quais posições pertenciam aos cinco membros permanentes. Essa etapa ainda não revela de forma definitiva onde podem surgir vetos quando o processo avançar.
É um momento para olhar para frente
António Guterres, secretário-geral da ONU
O próximo secretário-geral terá de assumir em 1º de janeiro de 2027. Até lá, o Conselho de Segurança precisa chegar a uma recomendação capaz de reunir pelo menos nove votos e evitar veto de Estados Unidos, China, Rússia, França ou Reino Unido antes do envio do nome à Assembleia Geral.


