A ONU alerta para possível crime de guerra em Gaza após a recuperação de centenas de corpos e restos mortais sob os escombros de edifícios destruídos durante a guerra. O alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, divulgou a avaliação em 15 de setembro.
Segundo Türk, equipes têm encontrado o que parecem ser famílias inteiras nos locais atingidos, com muitas mulheres e crianças entre as vítimas. As descobertas ocorrem meses após o cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, que encerrou os combates em grande escala em outubro de 2025, mas não interrompeu ataques regulares, segundo o material divulgado.
ONU relaciona achados a violações
Türk afirmou que a recuperação dos restos mortais renovou preocupações apontadas por um relatório da ONU de 2024. O documento havia concluído que ataques israelenses contra prédios residenciais e outros locais civis, nas primeiras semanas da guerra, podem ter violado o direito internacional humanitário.
A manifestação do alto comissário não apresenta uma conclusão judicial sobre crimes de guerra. Ela aponta, porém, que os novos achados reforçam a necessidade de examinar possíveis violações cometidas no curso das operações militares.
O chefe de direitos humanos da ONU disse que os corpos agora encontrados pertencem a pessoas que estavam desaparecidas havia longo tempo. Para familiares das vítimas, a identificação dos restos mortais confirma temores mantidos desde a destruição dos imóveis.
Corpos são retirados dos escombros
A Defesa Civil Palestina informou ter recuperado mais de 630 corpos e restos mortais sob prédios destruídos em diferentes áreas da Faixa de Gaza desde novembro de 2025. O número se refere ao período posterior ao fim dos combates de grande escala.
Autoridades palestinas estimam que mais de 8 mil pessoas continuem soterradas. A dimensão dessa estimativa está ligada ao volume de prédios derrubados e à dificuldade para remover os destroços acumulados no território.
A ONU calcula que a guerra deixou cerca de 61 milhões de toneladas de escombros e detritos em Gaza. De acordo com as Nações Unidas, a retirada desse material pode levar sete anos.
Destruição amplia dificuldade de buscas
Türk avaliou que os restos mortais já recuperados podem representar apenas uma parte das vítimas ainda sob os escombros. Grande parte de Gaza foi destruída por bombardeios israelenses ou por operações posteriores de demolição e retirada de destroços, segundo sua declaração.
O alto comissário também acusou Israel de continuar arrasando áreas onde suas forças permanecem posicionadas. Na avaliação dele, o trabalho de escavadeiras nesses locais não considera adequadamente a presença de mortos enterrados sob os edifícios.
A dificuldade de localizar corpos se soma ao impacto humanitário da destruição disseminada. Sem a remoção dos escombros, famílias que procuram desaparecidos enfrentam obstáculos adicionais para obter respostas sobre o destino de parentes.
Guerra começou após ataque do Hamas
Israel lançou sua ofensiva em Gaza depois dos ataques liderados pelo Hamas em território israelense, em outubro de 2023. Dados israelenses citados no material atribuem ao ataque a morte de 1.200 pessoas em Israel e o sequestro de outras 251.
Desde então, a campanha militar israelense matou mais de 73 mil palestinos, segundo autoridades de saúde de Gaza. Os números refletem fontes distintas no conflito e compõem o quadro de mortes mencionado no material.
O cessar-fogo de outubro de 2025 reduziu os confrontos de grande escala. Ainda assim, Israel e Hamas passaram a trocar acusações de violações da trégua, enquanto ataques regulares continuaram a ser registrados.
A cronologia abaixo organiza os principais marcos relacionados à guerra, ao cessar-fogo e à retirada de corpos relatada pelas autoridades palestinas.
| Marcos da guerra e buscas | |
|---|---|
| Período | Fato |
| Outubro de 2023 | Ataques liderados pelo Hamas em Israel dão início à guerra. |
| Outubro de 2025 | Cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos encerra combates em grande escala. |
| Desde novembro de 2025 | Defesa Civil Palestina relata a recuperação de mais de 630 corpos e restos mortais. |
Israel rejeita acusação de ataques deliberados
Israel rejeita repetidamente a acusação de atacar civis de forma deliberada. O país sustenta que atuou conforme o direito internacional ao combater militantes do Hamas na Faixa de Gaza.
O governo israelense também afirma que o Hamas utiliza civis palestinos como escudos humanos em regiões densamente povoadas. O grupo palestino nega essa acusação.
O gabinete do primeiro-ministro de Israel e o Ministério das Relações Exteriores do país não responderam imediatamente a um pedido de comentário sobre a manifestação de Türk, conforme o material que fundamenta esta reportagem.
Famílias aguardam identificação das vítimas
Para a ONU, os achados têm impacto direto sobre pessoas que aguardam notícias de familiares desaparecidos. A identificação dos corpos pode encerrar uma busca prolongada, mas também confirma perdas em meio à destruição acumulada pela guerra.
Türk descreveu como doloroso o momento em que parentes recebem confirmação sobre pessoas que não eram localizadas. A declaração relaciona a recuperação dos restos mortais à situação de famílias que esperaram por respostas durante meses ou anos.
Além da busca por desaparecidos, a retirada dos corpos mantém em evidência as preocupações da ONU sobre a proteção de civis e o respeito às normas humanitárias. A entidade havia apontado, em seu relatório de 2024, possíveis violações ligadas a ataques contra estruturas residenciais e civis.
Enquanto as equipes seguem removendo destroços, a extensão das áreas destruídas indica que o trabalho de localização e identificação das vítimas continuará sendo um dos efeitos humanitários mais duradouros da guerra.


