O chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, afirmou nesta terça-feira (15) que a recuperação de centenas de corpos sob edifícios destruídos em Gaza reforça preocupações sobre possíveis crimes de guerra cometidos durante a ofensiva israelense no território palestino.
Segundo Türk, restos mortais que parecem ser de famílias inteiras vêm sendo retirados de áreas atingidas por ataques israelenses. Ele disse que muitas das vítimas são mulheres e crianças e defendeu a preservação de provas para investigações internacionais.
Corpos recuperados ampliam preocupação
A Defesa Civil Palestina informou que recuperou mais de 630 corpos e restos mortais sob prédios destruídos em Gaza desde novembro de 2025. As operações ocorrem em meio à devastação deixada pela guerra iniciada após os ataques liderados pelo Hamas contra Israel, em outubro de 2023.
As autoridades palestinas estimam que mais de 8.000 pessoas ainda estejam soterradas nos escombros. Para Türk, os achados já realizados podem representar apenas parte das vítimas que permanecem em áreas destruídas.
Neste mês, a Defesa Civil Palestina relatou a recuperação de 96 corpos e restos mortais em um único ponto da região de Zeitoun, na Cidade de Gaza. Entre eles, segundo o órgão, estavam 58 crianças e 23 mulheres.
As autoridades palestinas estimam que mais de 8.000 pessoas ainda estejam sob os escombros em Gaza.
Dados mostram dimensão das buscas
Os números divulgados por órgãos palestinos dimensionam a dificuldade das buscas e da identificação das vítimas. Além disso, eles indicam que a retirada de destroços permanece ligada à localização de pessoas desaparecidas.
O quadro reúne os dados informados sobre corpos recuperados e pessoas que podem continuar soterradas no território.
| Dados sobre vítimas sob escombros | ||
|---|---|---|
| Indicador | Número | Recorte informado |
| Corpos e restos mortais recuperados | Mais de 630 | Desde novembro de 2025 |
| Pessoas possivelmente soterradas | Mais de 8.000 | Estimativa das autoridades palestinas |
| Corpos e restos recuperados em Zeitoun | 96 | Neste mês |
| Crianças entre os recuperados em Zeitoun | 58 | Entre os 96 corpos e restos |
| Mulheres entre os recuperados em Zeitoun | 23 | Entre os 96 corpos e restos |
A Guerra em Gaza produziu cerca de 61 milhões de toneladas de destroços e detritos, de acordo com as Nações Unidas. A organização estima que a remoção desse material poderá levar sete anos.
A escala dos escombros, portanto, afeta tanto a recuperação dos corpos quanto a possibilidade de reunir evidências sobre as circunstâncias das mortes.
Relatório embasa alerta da ONU
Türk afirmou que as descobertas retomam preocupações levantadas por um relatório da ONU divulgado em 2024. Segundo ele, o documento concluiu que ataques israelenses contra prédios residenciais e outros locais civis nas primeiras semanas da guerra podem ter violado o direito internacional humanitário.
O alerta atual não apresenta uma decisão judicial sobre os episódios citados. A manifestação do chefe de direitos humanos da ONU trata de possíveis crimes de guerra e relaciona as novas recuperações de corpos ao debate já registrado pela organização.
O chefe de direitos humanos da ONU afirmou que famílias de pessoas desaparecidas recebem agora confirmações sobre o destino de parentes procurados há longo tempo. Ele associou esse processo à dor dos familiares diante da identificação de restos mortais.
Türk também acusou Israel de continuar a destruir áreas de Gaza onde suas forças seguem posicionadas. Segundo ele, escavadeiras operam nesses locais sem respeito pelos mortos que podem estar sob os destroços.
Israel contesta acusações sobre civis
Israel rejeita repetidamente as acusações de atacar civis deliberadamente. O país sustenta que suas forças atuaram conforme o direito internacional durante a guerra contra o Hamas em Gaza.
O governo israelense também afirma que adotou todas as medidas possíveis para evitar vítimas civis. Além disso, acusa o Hamas de usar moradores de Gaza como escudos humanos em regiões densamente povoadas, alegação negada pelo grupo palestino.
O gabinete do primeiro-ministro de Israel e o Ministério das Relações Exteriores do país não responderam imediatamente a pedidos de comentário sobre as declarações de Türk.
Os ataques liderados pelo Hamas em Israel, em 2023, mataram 1.200 pessoas e resultaram no sequestro de outras 251, segundo dados israelenses. Já as autoridades de saúde de Gaza informam que mais de 73 mil palestinos morreram na campanha militar israelense.
Trégua não encerra violência
Um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos encerrou os combates em grande escala em outubro de 2025. No entanto, a trégua não impediu ataques regulares de Israel, enquanto os dois lados passaram a acusar um ao outro de violar o acordo.
A recuperação dos corpos ganhou força desde novembro de 2025, depois do início da trégua. Dessa forma, a busca sob prédios destruídos tornou-se uma das consequências humanitárias mais visíveis da devastação acumulada durante a guerra.
A retirada de destroços, porém, não é apenas uma tarefa de reconstrução. Para a ONU, ela envolve a localização de desaparecidos, a identificação de vítimas e a preservação de elementos que podem ter relevância em processos em andamento sobre a conduta no conflito.
Türk afirmou que Israel bloqueou a entrada de máquinas pesadas necessárias para remover os escombros. A limitação, segundo ele, dificulta o trabalho de recuperação no território.
Investigadores precisam entrar em Gaza
O chefe de direitos humanos da ONU pediu que investigadores internacionais tenham acesso a todas as áreas de Gaza. A solicitação busca, segundo ele, preservar provas relacionadas a processos judiciais que analisam a atuação das partes durante a guerra.
Francesca Albanese, especialista da ONU para os territórios palestinos, também defendeu que as evidências sejam recolhidas antes da limpeza total das áreas destruídas. Ela ressaltou a necessidade de identificar os restos mortais encontrados.
O pedido ocorre enquanto famílias aguardam informações sobre desaparecidos e equipes locais continuam as escavações. Ao mesmo tempo, a dimensão dos escombros limita a velocidade das buscas em diversos pontos de Gaza.
A possibilidade de investigação depende da preservação dos locais atingidos e do acesso aos territórios onde ocorreram as operações. Esse é o ponto central do apelo feito por representantes da ONU diante das novas recuperações de corpos.


