Chuvas atrasam moagem e pressionam produção de açúcar no Brasil

Excesso de umidade no Centro-Sul reduz a qualidade da cana, prolonga a safra e aumenta a possibilidade de queda na oferta de açúcar e etanol

Da
Redação
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Excesso de chuvas no Centro-Sul atrasa a moagem da cana e reduz a qualidade da matéria-prima destinada às usinas.
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As chuvas acima do esperado no Centro-Sul do Brasil estão atrasando a moagem da cana-de-açúcar e elevando o risco de queda na produção de açúcar e etanol. O excesso de umidade prolonga o crescimento vegetativo da planta, retarda a maturação e limita o acúmulo de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR), indicador usado para medir a qualidade da matéria-prima.

Estimativas de mercado apontam que o atraso da safra já supera 20%. Normalmente, a moagem na região se concentra até o fim de novembro. Com a persistência das precipitações, porém, parte das usinas pode estender as operações até dezembro ou janeiro, aumentando a pressão sobre custos, equipamentos e logística.

Chuvas atrasam moagem no Centro-Sul

O calendário da safra depende tanto da maturação da cana quanto das condições para a colheita. Quando o solo permanece muito úmido, as máquinas enfrentam mais dificuldade para entrar nos canaviais, enquanto a planta acumula menos ATR.

Esse atraso afeta diretamente a matéria-prima que chega às usinas. A cana colhida em períodos de chuva tende a carregar mais terra, o que dificulta o processamento e reduz a eficiência industrial.

Segundo o empresário José Pessoa Queiroz Bisneto, a presença de terra também aumenta o desgaste dos equipamentos. Dessa forma, o problema climático se espalha do campo para a etapa de produção.

Qualidade menor afeta mais o açúcar

A queda na qualidade da cana tende a atingir a fabricação de açúcar com maior intensidade do que a produção de etanol. Com menor concentração de ATR e determinadas características da matéria-prima, a cristalização pode ser prejudicada.

Quando o açúcar não cristaliza adequadamente, o material pode ser convertido em mel e direcionado à fabricação de etanol. Por isso, as usinas podem alterar o mix de produção conforme a qualidade da cana disponível.

Hoje não tem falta de açúcar.”

José Pessoa Queiroz Bisneto

A produção de açúcar no Centro-Sul pode cair 7,8% e ficar abaixo de 39 milhões de toneladas. Na safra anterior, a região produziu 42,3 milhões de toneladas, segundo as projeções citadas no material.

Projeções reduzem oferta brasileira

As estimativas indicam uma perda superior a 3 milhões de toneladas de açúcar no Centro-Sul. A eventual redução ocorre justamente quando o mercado internacional acompanha com maior atenção o equilíbrio entre produção e consumo.

A ausência momentânea do tradicional relatório de acompanhamento da safra da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) acrescenta incerteza às avaliações do mercado. O levantamento é tradicionalmente usado para acompanhar o ritmo de moagem e a evolução da produção.

Além disso, a postergação das operações pode elevar custos operacionais e empurrar parte do processamento para o fim do ano ou para o início de 2027. O efeito final dependerá da duração das chuvas e da recuperação das condições de colheita.

Mercado global calcula déficit

A preocupação com a oferta brasileira ocorre em um cenário internacional mais apertado. A projeção mais recente da Organização Internacional do Açúcar, publicada em agosto, estima produção mundial de 180,1 milhões de toneladas na safra 2026/27, abaixo das 180,7 milhões de toneladas previstas para 2025/26.

O consumo global, por outro lado, deve alcançar 180,4 milhões de toneladas. Com isso, a organização calcula um déficit mundial de 200 mil toneladas.

As projeções, no entanto, divergem. A Datagro trabalha com uma diferença superior a 3 milhões de toneladas entre oferta e demanda. Essa distância entre os cenários ajuda a explicar a volatilidade das cotações, já que o mercado incorpora diferentes níveis de risco para a oferta futura.

Dependendo, nem cristaliza. Se nem cristaliza, vira mel.”

José Pessoa Queiroz Bisneto

Preços antecipam risco de oferta

A alta das cotações não significa que exista falta de açúcar no mercado neste momento. Os preços reagem principalmente às expectativas sobre as próximas safras e à possibilidade de menor disponibilidade adiante.

As cotações, que haviam permanecido próximas de US$ 0,13 por libra-peso em períodos anteriores, superaram US$ 0,18 por libra-peso nas últimas semanas. O movimento refletiu a mudança nas expectativas sobre a produção brasileira e o balanço mundial.

Como ocorre com outras commodities agrícolas, fatores como chuva, produtividade, qualidade da cana e ritmo de moagem funcionam como sinais antecipados para compradores e vendedores. Por isso, o mercado pode reagir antes de uma eventual redução física da oferta.

Outras regiões ampliam pressão

A perspectiva de menor oferta não se limita ao Centro-Sul. No Nordeste, a produção pode recuar por causa do clima excessivamente seco e ficar em 55 milhões de toneladas, ante 56,3 milhões na safra anterior.

O setor também enfrenta efeitos de uma dinâmica econômica desfavorável. Preços baixos do açúcar nos últimos anos reduziram o estímulo ao plantio e aos investimentos, enquanto produtores e usinas trabalharam com margens mais pressionadas.

Fora do Brasil, Índia e Tailândia podem sofrer com condições mais secas associadas ao El Niño. Regiões produtoras de beterraba na Europa também enfrentam o risco de estiagens prolongadas, o que amplia a sensibilidade da oferta global a eventos climáticos.

O empresário José Pessoa Queiroz Bisneto afirmou que a reação do mercado ocorre por causa das expectativas sobre a oferta futura, e não por uma escassez já instalada.

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