A exportação de cachaça voltou a crescer em 2025, mas ainda representa uma parcela pequena da produção declarada no Brasil. No Dia Nacional da Cachaça, celebrado neste domingo, 13 de setembro, o contraste ajuda a explicar por que uma bebida exclusiva do país continua com presença limitada no comércio mundial.
Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária mostram que o setor produziu 234,4 milhões de litros no ano passado e exportou 7,95 milhões. O volume embarcado equivale a aproximadamente 3,4% da produção declarada, embora nem toda a bebida fabricada no período tenha sido destinada à venda imediata.
O cenário reúne sinais positivos e desafios antigos. O país ampliou o número de produtores e produtos registrados, chegou a 76 destinos e recuperou parte das perdas de 2024. No entanto, ainda precisa transformar diversidade, origem e qualidade em marcas reconhecidas, distribuição e valor no exterior.
Exportação reage, mas segue pequena
As vendas externas somaram US$ 17,07 milhões em 2025, alta de 17,4% sobre o ano anterior. O volume cresceu 19,4% e alcançou 7,95 milhões de litros, de acordo com o Anuário da Cachaça 2026.
A recuperação veio depois de um ano difícil. Em 2024, os embarques haviam caído 22,7% em volume e 28,1% em valor, atingindo o segundo menor volume da série analisada pelo Ministério, acima apenas do resultado de 2020.
A comparação dos últimos três anos revela uma retomada parcial, ainda abaixo do patamar registrado em 2023.
| Ano | Volume exportado | Valor exportado | Destinos |
|---|---|---|---|
| 2023 | 8,62 milhões de litros | US$ 20,24 milhões | 76 |
| 2024 | 6,66 milhões de litros | US$ 14,54 milhões | 74 |
| 2025 | 7,95 milhões de litros | US$ 17,07 milhões | 76 |
Fonte: Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa)
Além disso, o preço médio ficou em US$ 2,15 por litro em 2025, ligeiramente abaixo dos US$ 2,18 do ano anterior. Assim, o crescimento do volume não se converteu na mesma proporção em valorização por litro.
Escala doméstica expõe a diferença
O mercado interno absorve a maior parte da cachaça brasileira. O Anuário aponta 1.538 estabelecimentos elaboradores registrados em 2025, espalhados por 844 municípios, além de 8.379 produtos cadastrados.
Minas Gerais lidera a atividade, com 564 estabelecimentos e 2.922 cachaças registradas. São Paulo aparece em seguida, com 230 produtores e 1.185 produtos, enquanto o Rio Grande do Sul reúne 106 estabelecimentos.
Essa capilaridade fortalece a identidade regional, mas também fragmenta a oferta. Muitos produtores são pequenos e enfrentam custos de certificação, adaptação de rótulos, logística, formação de estoque e manutenção de distribuidores em outros países.
A formalização avançou, porém não resolve sozinha o acesso ao exterior. Para exportar com regularidade, uma empresa precisa atender exigências sanitárias e tributárias, proteger a marca, manter padrão de qualidade e sustentar ações comerciais por mais de uma safra.
Mercados valorizam o produto premium
Paraguai, Alemanha e Estados Unidos aparecem entre os destinos mais importantes. O Paraguai se destaca pelo volume, enquanto o mercado norte-americano tradicionalmente paga mais por litro e concentra produtos de maior valor agregado.
O posicionamento premium oferece uma saída para competir sem depender de grande escala. Cachaças envelhecidas em madeiras brasileiras, edições limitadas, origem regional e uso na coquetelaria ajudam a diferenciar a bebida de outros destilados de cana.
Carlos Lima, presidente da diretoria executiva do Instituto Brasileiro da Cachaça, avalia que o setor deve ser tratado como uma atividade econômica capaz de gerar renda. Para ele, a bebida precisa ocupar mais espaço além da associação imediata com a caipirinha.
A coquetelaria tem contribuído para mostrar ao consumidor outras formas de consumir a cachaça”
Carlos Lima, presidente da diretoria executiva do Ibrac
Ao mesmo tempo, o reconhecimento internacional da denominação “cachaça” é decisivo. Sem proteção comercial, a bebida pode aparecer no exterior apenas como um destilado genérico de cana, o que reduz a capacidade brasileira de capturar valor pela origem.
Promoção tenta abrir novos destinos
A ApexBrasil e o Ibrac anunciaram em 2026 um investimento de R$ 2,63 milhões para ampliar a presença do produto no exterior. A nova etapa prevê feiras, aproximação com compradores e rodadas de negócios.
O projeto pretende atender entre 70 e 80 empresas, com foco em mercados como México, Canadá e países europeus. Dessa forma, o setor busca reduzir a dependência de poucos compradores e criar canais para marcas de diferentes portes.
O acordo entre Mercosul e União Europeia também pode melhorar o acesso, caso suas regras comerciais entrem plenamente em vigor. A cachaça aparece entre os produtos contemplados por tratamento tarifário, enquanto a proteção da indicação geográfica pode reforçar sua identidade.
No entanto, promoção comercial precisa caminhar com capacidade de entrega. Ganhar espaço global exige regularidade, preço compatível, comunicação sobre origem e uma rede de importadores que leve a garrafa ao varejo, aos bares e aos restaurantes.
O avanço de 2025 mostra que existe demanda. Ainda assim, superar a faixa de poucos milhões de litros dependerá de transformar a cachaça em categoria reconhecida no exterior, e não apenas em ingrediente ocasional de um drinque brasileiro.


