A universalização do saneamento no Brasil pode exigir R$ 1,2 trilhão em investimentos, segundo estudo do Itaú BBA em parceria com a Inter.B Consultoria. O levantamento considera a expansão completa dos serviços de abastecimento de água e coleta e tratamento de esgoto.
O banco estima que seriam necessários R$ 95,2 bilhões por ano até 2033 para cumprir as metas previstas no marco legal do saneamento. Ao mesmo tempo, projetos contratados e anunciados já formam um pipeline de R$ 201,5 bilhões entre 2026 e 2030.
O setor também deve alcançar o pico de aportes em 2027, com R$ 44,2 bilhões previstos para aquele ano. Ainda assim, os dados indicam que o ritmo atual precisará aumentar, sobretudo na coleta e no tratamento de esgoto.
Estudo estima recursos para universalizar
O levantamento traçou um panorama da infraestrutura de saneamento no país, reunindo investimentos já contratados, necessidades futuras de capital e possíveis impactos macroeconômicos da expansão dos serviços.
Segundo o Itaú BBA, o valor total necessário para a universalização supera o volume atualmente previsto nos projetos contratados e anunciados. A diferença mostra a dimensão do esforço financeiro que ainda será necessário ao longo dos próximos anos.
Rogério Yamashita, responsável pela área de infraestrutura em project finance do banco, afirmou que o país concentra oportunidades relevantes para novos investimentos. Ele também avaliou que os pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos fazem parte da dinâmica de concessões de longo prazo.
De acordo com o executivo, as tratativas com as agências reguladoras têm evoluído. Ele destacou, porém, que os projetos no Norte e no Nordeste tendem a ser mais complexos, porque essas regiões apresentam maior carência de cobertura de água e esgoto.
Projetos ampliam a carteira
Desde a aprovação do marco legal, 70 leilões contrataram R$ 227,5 bilhões em investimentos, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon). A entidade também calcula que mais de 30 projetos estão em elaboração.
Esses projetos envolvem cerca de 640 municípios e investimentos estimados em R$ 32 bilhões. Além disso, os empreendimentos já em curso somam mais de R$ 420 bilhões e podem beneficiar mais de 100 milhões de pessoas em 2.460 municípios.
O banco avalia que novos leilões, concessões e parcerias ainda podem acrescentar R$ 58 bilhões ao volume de investimentos. O conjunto inclui diferentes modelos de contratação e fontes de financiamento.
Tem muita coisa para fazer por aqui”
Rogério Yamashita, responsável pela área de infraestrutura em project finance do Itaú BBA
Os principais instrumentos citados são financiamentos do BNDES, emissões no mercado de capitais, debêntures incentivadas e de infraestrutura, crédito bancário e capital próprio dos operadores.
O quadro abaixo reúne os principais valores mencionados no levantamento e nas informações setoriais.
| Valores do ciclo de investimentos | ||
|---|---|---|
| Indicador | Valor | Período ou referência |
| Necessidade total para universalização | R$ 1,2 trilhão | Estimativa do estudo |
| Investimento anual necessário | R$ 95,2 bilhões | Até 2033 |
| Projetos contratados e anunciados | R$ 201,5 bilhões | 2026 a 2030 |
| Investimentos contratados desde o marco legal | R$ 227,5 bilhões | 70 leilões |
| Projetos em elaboração | R$ 32 bilhões | Mais de 30 projetos |
Fonte: Itaú BBA, Inter.B Consultoria e Abcon
Cobertura ainda expõe desigualdades
Os indicadores de atendimento mostram que a expansão dos investimentos continua necessária. Dados do Instituto Trata Brasil apontam que apenas três das 5.570 cidades brasileiras têm cobertura integral de coleta de esgoto: Curitiba, Santo André e Juiz de Fora.
O mesmo levantamento indica que somente sete capitais apresentam índice de atendimento de esgoto superior a 90%. Na oferta de água, apenas cinco das 27 capitais alcançam pelo menos 99% de cobertura.
A média de abastecimento de água nas capitais é de 93,67%, mas o resultado esconde diferenças relevantes entre as cidades. A situação da coleta e do tratamento de esgoto permanece mais distante da universalização.
O estudo estima que seriam necessários R$ 95,2 bilhões por ano até 2033 para alcançar a universalização dos serviços.
Leilão em Rondônia atrai atenção
O próximo leilão citado no levantamento está marcado para 29 de setembro, na B3, em São Paulo. A disputa envolve 40 dos 52 municípios de Rondônia e prevê R$ 8,5 bilhões em investimentos.
O vencedor será definido por uma combinação entre o maior desconto na tarifa para os consumidores e o maior valor de outorga fixa oferecido ao governo estadual. A estrutura coloca preço ao usuário e remuneração pública no centro da concorrência.
A concessão prevê a administração integral dos serviços de água e esgoto, incluindo a cobrança das tarifas. Esse formato difere de modelos recentes adotados em Goiás e no Ceará, nos quais a captação e o tratamento de água ficaram fora dos contratos de algumas PPPs.
Para Isadora Cohen, sócia-fundadora da ICO Consultoria, o projeto de Rondônia combina uma modelagem mais madura, menor risco regulatório e potencial para atrair novos operadores. A avaliação é que a concessão integral pode reduzir a dependência da Companhia de Águas e Esgotos de Rondônia (Caerd).
Criar um ambiente mais favorável aos investimentos e posicionar o setor em uma nova etapa de desenvolvimento”
Eduardo Corsetti, codiretor da área de infraestrutura e energia do Itaú BBA
Regulação define sustentabilidade
O avanço dos investimentos dependerá não apenas da realização de novos leilões, mas também da estabilidade dos contratos e da capacidade de fiscalização das agências reguladoras.
Fernando Vernalha, advogado especialista em saneamento, PPPs e concessões, afirmou que o setor vive um ciclo de investimentos impulsionado pelo marco legal, pelos leilões e pelas metas de universalização. Para ele, o desafio é transformar o pico de aportes em uma trajetória sustentável.
O especialista também defendeu o fortalecimento técnico e institucional das agências regionais e locais. Segundo sua avaliação, esses órgãos terão de acompanhar contratos cada vez mais complexos e fiscalizar a execução de concessões e parcerias.
Eduardo Corsetti, codiretor da área de infraestrutura e energia do Itaú BBA, avaliou que o setor atingiu maturidade suficiente para uma discussão mais qualificada sobre financiamento e planejamento de longo prazo.
Financiamento pode ampliar o impacto
O mercado de capitais já ocupa papel relevante no financiamento da infraestrutura. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o volume destinado a projetos do setor chegou a R$ 589,9 bilhões desde 2018.
As debêntures incentivadas representam 86% desse montante. No saneamento, o Itaú BBA calcula que as captações por meio desse instrumento somaram R$ 67 bilhões desde 2020, ano de aprovação do marco legal.
O banco estima ainda que a universalização pode elevar o PIB potencial do Brasil entre 0,36 e 0,46 ponto percentual no médio e no longo prazo. A projeção considera ganhos associados à infraestrutura, à saúde, à educação e à produtividade.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, cada dólar investido em saneamento gera, em média, US$ 4,30 em benefícios econômicos. No Brasil, o retorno estimado pode chegar a 8,9 vezes o valor aplicado em esgotamento sanitário e a 2,5 vezes o investimento em abastecimento de água.
Para Rogério Yamashita, antecipar os investimentos também antecipa os benefícios da universalização e transforma a expansão do saneamento em uma alavanca de desenvolvimento econômico e social.


