Suco de laranja perde valor com estoques maiores e demanda menor

Safra anterior mais volumosa, consumo enfraquecido e avanço do greening pressionam a rentabilidade da citricultura brasileira.

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Safra anterior mais volumosa, consumo enfraquecido e avanço do greening pressionam a rentabilidade da citricultura brasileira.Divulgação CitrusBr
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A queda do suco de laranja ganhou força após a recomposição dos estoques da indústria e o enfraquecimento da demanda externa. Em 12 meses até 3 de agosto, a cotação do suco negociado em Nova York recuou cerca de 40%, para perto de US$ 154,95 por libra-peso, enquanto a laranja entregue à indústria caiu aproximadamente 30%, para R$ 30,57 por caixa, segundo o Cepea.

O movimento ocorre depois de uma safra 2025/26 mais volumosa, que não foi acompanhada no mesmo ritmo pelas exportações brasileiras. Ao mesmo tempo, os custos de produção seguem elevados devido ao manejo contra o greening, doença que reduz a produtividade dos pomares e amplia as exigências sanitárias.

Estoques reduzem pressão sobre preços

A safra 2025/26 produziu mais laranjas, mas os embarques brasileiros de suco avançaram apenas 3,7%, para 805 mil toneladas em equivalente FCOJ. A receita das exportações alcançou US$ 2,54 bilhões na temporada.

Como a produção cresceu 27% na comparação indicada pelo levantamento, a demanda internacional não absorveu todo o aumento de oferta. Dessa forma, a indústria recompôs seus estoques e passou a contar com uma reserva capaz de amortecer uma eventual redução na produção seguinte.

Em dezembro de 2025, os estoques brasileiros de suco somavam 616,46 mil toneladas, alta de 75,4% ante o mesmo mês do ano anterior, de acordo com informação divulgada pela CitrusBR em março. O volume estocado reduz o risco de escassez imediata, mesmo com uma safra menor projetada para o ciclo seguinte.

Safra projetada fica abaixo do ciclo anterior

A primeira reestimativa do Fundecitrus para 2026/27 apontou produção de 263,15 milhões de caixas de 40,8 quilos no cinturão citrícola de São Paulo e do Triângulo/Sudoeste Mineiro. A projeção divulgada em setembro representou aumento de 3,1% sobre a estimativa anterior.

Ainda assim, o volume previsto permanece abaixo das 295 milhões de caixas produzidas em 2025/26. O reajuste positivo na projeção decorreu, principalmente, do maior peso dos frutos, favorecido pelas chuvas durante o desenvolvimento da safra.

Em relatório de agosto, o Itaú BBA trabalhava com estimativa de 255 milhões de caixas e avaliava que uma safra próxima de 300 milhões seria mais adequada para recompor estoques e atender à indústria. Para o banco, contudo, a oferta de suco no curto prazo não depende apenas da produção da nova temporada.

Consumo americano encolhe em volume

Os Estados Unidos continuam como destino relevante do suco brasileiro, mas o consumo no varejo do país perdeu fôlego. Dados da Nielsen citados pelo Itaú BBA indicam vendas de 274,7 milhões de galões nas 52 semanas encerradas em 11 de julho, queda de 8,3% ante o período anterior.

O recuo foi mais intenso nas categorias associadas ao suco concentrado. Por outro lado, o NFC, ou suco não concentrado, apresentou perda menor e ampliou sua participação no total comercializado no mercado americano.

O quadro abaixo organiza as variações de volume por categoria no período monitorado.

Vendas de suco nos Estados Unidos
Categoria Variação em volume
Total de suco de laranja -8,3%
Suco reconstituído -12,1%
Concentrado congelado -15,2%
NFC, não concentrado -5,2%

Fonte: Nielsen

Mesmo após a correção das cotações da matéria-prima, o preço ao consumidor americano ainda se manteve elevado. Em junho, o suco concentrado e congelado era vendido a US$ 4,87 por lata de 473,2 mililitros, um dos maiores valores nominais da série histórica citada.

NFC amplia espaço nas exportações

A mudança de hábitos nos Estados Unidos também aparece na pauta exportadora brasileira. O NFC respondeu por 43% dos embarques do Brasil em equivalente FCOJ na safra 2025/26, participação superior ao dobro da registrada uma década antes.

No varejo americano, esse tipo de produto representou 68,1% do volume vendido, ante 65,8% anteriormente. A categoria é associada a uma demanda por produtos considerados mais naturais e tem maior valor agregado para a cadeia.

Porém, o avanço do NFC aumenta as exigências operacionais. O produto demanda fruta de melhor qualidade, mais cuidado no processamento e uma logística mais complexa, pois ocupa mais espaço no transporte e requer estrutura robusta de armazenamento e distribuição.

Destinos compram em ritmos diferentes

As compras dos dois principais mercados externos tiveram resultados distintos na safra passada. Os Estados Unidos elevaram em 16% suas importações de suco brasileiro, para 360 mil toneladas em equivalente FCOJ.

Com esse volume, o mercado americano respondeu por 45% dos embarques brasileiros. A dependência tende a continuar relevante porque a produção de laranjas na Flórida enfrenta há anos os efeitos do greening, de furacões e da redução da área cultivada.

Já a União Europeia importou 369 mil toneladas, queda de 5,8%, e concentrou 46% das exportações brasileiras. Portanto, embora os Estados Unidos tenham ampliado as compras, a retração europeia pesa no equilíbrio da demanda externa pelo produto.

Greening mantém custos elevados no campo

A redução das cotações chega ao produtor em um momento de despesas elevadas. O greening exige aplicações mais frequentes e manejo intensivo, além de afetar a produtividade dos pomares.

Segundo o Itaú BBA, a doença impediu a colheita de 49,6 milhões de caixas na safra 2025/26. Considerando a referência de R$ 37 por caixa usada pelo banco, o impacto potencial sobre a receita bruta no campo alcançou cerca de R$ 1,8 bilhão.

O Fundecitrus apontou incidência de 47,6% do greening no cinturão citrícola em 2025/26. Parte dos investimentos em novos pomares vem migrando para outras áreas: cerca de metade das mudas produzidas em São Paulo segue para municípios fora do cinturão, principalmente em Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e Goiás.

A expansão territorial, no entanto, não elimina o risco sanitário. Para o Itaú BBA, escala, irrigação, sanidade dos pomares, tecnologia e eficiência operacional tendem a ganhar importância em um ambiente de preços menos remuneradores.

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