A produtora de Dark Horse, Karina Ferreira da Gama, negou que o filme sobre Jair Bolsonaro tenha recebido emendas parlamentares e afirmou que sua empresa não teve relação direta com Daniel Vorcaro nem com companhias ligadas ao banqueiro. Em entrevista, ela também relatou pressões para aderir a uma delação premiada.
Karina foi alvo da Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal na quinta-feira (10), em investigação sobre suposto desvio de emendas parlamentares. O caso envolve ainda duas apurações no Supremo Tribunal Federal (STF) relacionadas ao longa, uma sobre emendas e outra sobre repasses ao fundo Havengate.
Produtora delimita sua atuação
Karina afirmou que foi contratada para executar a produção de Dark Horse, sem participação na gestão do Havengate, fundo que ela apontou como investidor do projeto. Segundo seu relato, cabia ao fundo avaliar a produtora, aprovar o projeto e liberar os recursos destinados ao filme.
A produtora disse que apresentou documentos pessoais e empresariais durante o processo de análise conduzido pelo fundo. No entanto, sustentou que não tinha atribuição de investigar a origem do dinheiro investido.
Para ela, a aprovação do orçamento transferiu sua responsabilidade para a etapa prática do projeto. A função, afirmou, envolvia conduzir as filmagens e os demais serviços necessários à realização do longa.
Orçamento muda durante as filmagens
Segundo Karina, o valor inicial do filme era uma projeção, sujeita a revisões à medida que roteiro, elenco, locações, câmeras e outros elementos técnicos fossem definidos. Ela afirmou que a decupagem do roteiro permitiu estabelecer com mais precisão o custo da produção.
A produtora relatou que os problemas financeiros começaram a aparecer no fim de 2025, quando a equipe já trabalhava no filme. A produção previa 40 dias de filmagem, e o grupo teria simplificado etapas para conseguir concluir o projeto.
Ela declarou que o custo total chegou a US$ 13,3 milhões. Também afirmou que os recursos usados foram privados e negou a presença de dinheiro público no financiamento do longa.
Não vou [ser o próximo Mauro Cid], (…) porque eu não tenho como incriminar ninguém. Eu não tenho, eu não vi, eu não participei de nada que incrimine pessoas. Tudo que a gente fez foi um filme.”
Karina Ferreira da Gama, produtora de Dark Horse
Delação cita repasses ao Havengate
O ministro André Mendonça homologou, na quarta-feira (9), a delação do doleiro Antônio Carlos Freixo Júnior. Conforme o relato apresentado por ele, foram feitas sete transferências que totalizaram US$ 12,3 milhões ao fundo Havengate em 2025.
Freixo Júnior atribuiu os repasses a uma determinação de Daniel Vorcaro, após pedidos do senador Flávio Bolsonaro. A homologação da colaboração, porém, não comprova por si só as afirmações feitas pelo delator.
Karina disse que não recebeu valores diretamente de Vorcaro e negou qualquer vínculo entre sua produtora e empresas do banqueiro. Ela afirmou que soube pela imprensa qual companhia teria investido no fundo.
A produtora acrescentou que contratos comerciais têm cláusulas de confidencialidade. Ainda assim, declarou que pode apresentar as informações às autoridades, caso seja formalmente requisitada.
Investigação alcança emendas e filme
A Operação Make Up apura um suposto desvio de emendas parlamentares. Além da ação da Polícia Federal, há duas investigações no STF que abordam questões ligadas a Dark Horse.
Uma delas está sob relatoria do ministro Flávio Dino e trata de emendas parlamentares. A outra, relatada por André Mendonça, examina os repasses de Daniel Vorcaro ao Havengate que, segundo a delação homologada, ocorreram a pedido de Flávio Bolsonaro.
Karina rejeitou a hipótese de que emendas tenham bancado o longa. Ela também afirmou que não houve projeto público para a produção cinematográfica.
Produtora relata ameaças e cobrança
Na entrevista, Karina associou parte das denúncias que chegaram à imprensa a conflitos ligados a um projeto de Wi-Fi. Segundo ela, os episódios envolveram um ex-marido e um ex-fornecedor.
Dark Horse não tem emenda. Não existe emenda para Dark Horse, nenhuma emenda. Nunca foi feito projeto público para o Dark Horse, nunca foi.”
Karina Ferreira da Gama, produtora de Dark Horse
A produtora afirmou que o fornecedor deixou de cumprir obrigações relativas à iniciativa e que o sinal chegou a ser desligado. Depois disso, segundo sua versão, começaram pressões sobre a continuidade do projeto.
Ela disse que o ex-fornecedor pediu R$ 2,5 milhões para não prejudicar a iniciativa. A declaração descreve a versão apresentada pela produtora sobre o conflito.
Karina também citou projetos sociais ligados à sua atuação, entre eles o Lutando pela Vida, voltado a artes marciais para crianças, adolescentes e idosos, e o Jovem Empreendedor.
Karina diz rejeitar delação premiada
Karina afirmou que um advogado ofereceu auxílio jurídico e mencionou ter relacionamento no STF. De acordo com ela, o profissional também apresentou a possibilidade de ajudá-la caso optasse por uma delação.
Posteriormente, conforme seu relato, um pastor amigo entrou em contato para dizer que havia pessoas dispostas a ajudá-la. Ela afirmou que ele também mencionou a hipótese de colaboração premiada e citou acesso a pessoas, mas não revelou nomes.
A produtora declarou que se sente pressionada a oferecer uma versão que outras pessoas desejam ouvir. Ela atribuiu o que enfrenta a preconceito, perseguição política e ganância.
Karina disse que pretende colaborar com as autoridades dentro dos procedimentos legais. Ao falar sobre a comparação com Mauro Cid, afirmou não ter informações que, segundo ela, pudessem incriminar outras pessoas, pois sua participação se limitou à produção do filme e a projetos sociais.


