O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, acusou a Alternativa para a Alemanha (AfD) de agir em favor dos interesses da Rússia contra o país e criticou suas propostas migratórias. A declaração ocorreu no Parlamento alemão, na quarta-feira, 9 de setembro, após a vitória eleitoral da legenda de extrema direita na Saxônia-Anhalt.
Merz reagiu à plataforma defendida pela AfD no estado do leste alemão, que combinou restrições à imigração e a defesa da retomada de relações com Moscou. O embate amplia a pressão política sobre o governo após a derrota do partido do chanceler na eleição regional realizada no domingo, 6 de setembro.
Merz critica agenda da AfD
No discurso parlamentar, Merz afirmou que a ideia de “remigração”, usada pela AfD, equivaleria a uma política de limpeza étnica se fosse colocada em prática. A crítica respondeu a uma fala anterior da colíder do partido, Alice Weidel.
O chanceler vinculou a proposta à origem e à cor da pele dos imigrantes. Assim, tratou o termo adotado pela legenda como uma medida que ultrapassaria o debate sobre regras migratórias.
A AfD defende políticas de “remigração” em seu programa eleitoral para a Saxônia-Anhalt. A sigla propõe acelerar deportações de solicitantes de asilo que tiveram o pedido rejeitado e de estrangeiros condenados por crimes, além de incentivar partidas voluntárias.
AfD rebate acusação
A AfD contestou a interpretação de Merz. Em declaração à Reuters, o partido afirmou que o chanceler distorceu deliberadamente sua posição para demonizar a legenda.
O deputado Bernd Baumann, da AfD, declarou que o partido usa “remigração” para defender a deportação, dentro da lei, de estrangeiros obrigados a deixar a Alemanha. Segundo ele, essa é a política defendida pela sigla.
Nenhuma casa de repouso funcionará. Nenhum hospital na Alemanha permanecerá operacional, e nenhum restaurante conseguirá se manter no mercado — esse seria o resultado da política de remigração deles”
Friedrich Merz, chanceler da Alemanha
Baumann também classificou a acusação de que a AfD teria a limpeza étnica como objetivo político como uma tentativa de preservar uma barreira contra o partido por meio de demonização. A legenda afirmou ainda que suas políticas são legais.
Eleição aumenta pressão sobre governo
A disputa ganhou força depois da eleição na Saxônia-Anhalt, vencida pela AfD. O resultado representou uma derrota para o partido de Merz em um estado do leste alemão.
O chanceler tenta recuperar a iniciativa política após o pleito. Seus índices de aprovação chegaram a níveis historicamente baixos, o que colocou sua posição e o programa de reformas do governo sob questionamento.
Merz rejeitou sugestões de que poderia renunciar. Portanto, seu pronunciamento no Parlamento também ocorreu em meio à pressão interna gerada pelo resultado eleitoral e pela queda de popularidade.
Programa propõe separação escolar
Além das medidas sobre deportação, o programa da AfD na Saxônia-Anhalt prevê que filhos de refugiados estudem em turmas segregadas. A proposta integra a plataforma eleitoral apresentada pelo partido no estado.
A legenda foi classificada como extremista de direita pelo escritório regional do serviço de inteligência interna da Alemanha. Essa classificação aparece no contexto da disputa sobre imigração e das críticas feitas pelo chanceler.
Ao mesmo tempo, a AfD sustenta que suas propostas obedecem à legislação. O confronto público, porém, mostra a distância entre a definição dada pelo partido à “remigração” e a leitura apresentada por Merz no Parlamento.
Por ‘remigração’, a AfD se refere à deportação consistente — de acordo com a lei — de todos os estrangeiros obrigados a deixar o país; nada mais”
Bernd Baumann, deputado da AfD
Rússia vira foco da disputa
Merz também criticou a defesa da AfD pelo fim do apoio alemão à Ucrânia. Para o chanceler, o partido está firmemente ao lado da Rússia nessa questão.
A acusação foi feita após um episódio envolvendo um ataque planejado com drones a um aeroporto alemão no mês anterior. Segundo Merz, Moscou realizou a ação; a Rússia negou a responsabilidade.
A plataforma eleitoral que levou a AfD à vitória na Saxônia-Anhalt incluiu a restauração das relações com Moscou. Dessa forma, política externa e imigração se tornaram os dois principais eixos do confronto entre o governo e a legenda.
Imigração afeta debate sobre trabalho
Merz argumentou que uma saída forçada de imigrantes provocaria escassez de trabalhadores qualificados na Alemanha. Ele citou impactos potenciais em serviços como assistência a idosos, hospitais e restaurantes.
O argumento do chanceler desloca parte da discussão para os efeitos econômicos da política migratória. Segundo ele, a redução da presença de imigrantes teria consequências diretas para setores que dependem de mão de obra.
Por outro lado, a AfD mantém a defesa de deportações de pessoas obrigadas a sair do país, conforme sua interpretação das regras legais. O impasse evidencia como a imigração permanece no centro da disputa política alemã.


