A Polícia Civil de Mato Grosso deflagrou nesta quarta-feira (23/9) a Operação Janus para desarticular um núcleo do Comando Vermelho suspeito de utilizar o comércio de alimentos e a distribuição de cestas básicas como fachada para lavar dinheiro de crimes como tráfico de drogas e golpes virtuais.
As apurações indicam que os recursos utilizados para a aquisição dos produtos eram provenientes de atividades ilícitas. A estrutura servia tanto para ocultar a origem do montante quanto para tentar fortalecer a influência territorial da facção criminosa.
Entre os alvos da ação, a investigação patrimonial identificou movimentações financeiras incompatíveis com a capacidade econômica declarada. Contas atribuídas a uma das investigadas registraram mais de R$ 36 milhões, enquanto outro alvo movimentou R$ 4,7 milhões.
Esquema com empresas de fachada
As autoridades apontam que o grupo utilizava empresas formalmente constituídas para dar aparência legal aos valores obtidos de forma criminosa. Uma das companhias, sediada em Várzea Grande, movimentou R$ 13,2 milhões em quatro anos sem apresentar estrutura física compatível com a atividade declarada.
O planejamento financeiro do esquema envolvia a simulação de operações comerciais para injetar o capital ilícito no mercado formal. Com isso, a organização tentava burlar os mecanismos de fiscalização e garantir a sustentação financeira de suas operações ilícitas.
A investigação também apontou que alguns integrantes atuavam na obtenção dos recursos, enquanto outros gerenciavam a logística de aquisição e entrega dos mantimentos, contando inclusive com a participação de pessoas que já se encontram presas.
Assistencialismo e expansão territorial
Segundo a Polícia Civil, a distribuição dos mantimentos funcionava como uma ferramenta de assistencialismo voltada a integrantes e simpatizantes. Essa estratégia era utilizada para tentar ampliar o controle e o fortalecimento da facção em diferentes regiões.
Um dos suspeitos investigados era o principal responsável por coordenar essa logística de assistência. O objetivo principal dessa frente era consolidar o domínio territorial por meio do apoio prestado a comunidades e aliados do grupo criminoso.
A corporação destacou que a fachada humanitária ocultava o fluxo financeiro do tráfico e de fraudes eletrônicas, unindo a fachada de solidariedade à movimentação de capital obtido por meio de delitos graves.
Ordens judiciais e bloqueio de bens
Ao todo, a Operação Janus cumpre 14 ordens judiciais expedidas pelo Núcleo de Justiça 4.0 do Juízo das Garantias – Polo Cuiabá. O pacote inclui 11 mandados de busca e apreensão, além de medidas de sequestro de bens móveis e imóveis.
Entre os patrimônios alvos de constrição judicial estão um veículo e um imóvel localizados em Goiânia. As medidas visam preservar bens que podem ser fruto ou proveito das atividades ilícitas investigadas pela polícia.
As diligências são conduzidas pela Gerência de Combate ao Crime Organizado e pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, com suporte de outras unidades especializadas e da Polícia Civil de Goiás.
Origem do nome e desdobramentos
O batismo da operação faz referência ao deus romano Jano, representado tradicionalmente com duas faces. A denominação ilustra a dualidade do núcleo investigado, que combinava a fachada de assistencialismo com a criminalidade financeira.
As ações policiais ocorrem simultaneamente em Cuiabá, Várzea Grande e Rondonópolis, em Mato Grosso, além da capital goiana. O trabalho conjunto busca desarticular completamente o fluxo de capitais da facção.
As investigações prosseguem para reunir novos elementos probatórios, concluir o inquérito policial e assegurar a responsabilização criminal de todos os envolvidos no esquema de lavagem de dinheiro.


