A Justiça de São Paulo retoma nesta quarta-feira (23/9) a audiência de instrução e julgamento para ouvir novas testemunhas sobre a morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos. A jovem morreu em junho deste ano após ser arremessada de uma altura de aproximadamente 40 metros, sem corda de segurança, durante a prática de rope jump na Ponte do Esqueleto, localizada no município de Limeira, no interior paulista. O caso ganhou ampla repercussão após a circulação de registros em vídeo nas redes sociais que mostravam o momento em que a participante foi lançada da estrutura sem a fixação adequada.
Nesta etapa do processo judicial, o tribunal dá continuidade à coleta de depoimentos iniciada na última quinta-feira (17/9), quando as primeiras testemunhas prestaram esclarecimentos. Ao todo, quatro pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) por envolvimento direto no episódio trágico. A apuração conduzida pelas autoridades apontou falhas graves de segurança, ausência de protocolos essenciais e negligência por parte dos organizadores da atividade comercial de turismo de aventura.
O inquérito policial e a denúncia formalizada pelos promotores detalham que os três instrutores presentes no local — Maicon Fernandes Cintra, Luis Felipe Feliciano Egoroff e Vitor de Freitas Gonçalves — respondem criminalmente por homicídio com dolo eventual, qualificado por motivo torpe e por recurso que impossibilitou a defesa da vítima. Além deles, Evelyne dos Santos Gonçalves, apontada como a CEO da empresa organizadora do evento, também foi denunciada pelo mesmo crime sob a modalidade de omissão imprópria, além de responder por fraude processual.
Investigação aponta negligência e fraude
De acordo com os apontamentos do Ministério Público, os responsáveis pela execução do salto comercial tinham pleno conhecimento dos riscos inerentes à modalidade, mas negligenciaram medidas básicas de precaução. Entre as irregularidades apontadas na denúncia constam a falta de conferência da conexão da corda de segurança e a ausência de dupla checagem obrigatória dos equipamentos antes do lançamento dos participantes. Os investigadores destacam que o grupo atuava sem definição clara de funções e priorizava o apelo comercial e a divulgação de vídeos em redes sociais.
No caso específico da dirigente da empresa, a acusação sustenta que ela possuía o dever legal e operacional de garantir padrões mínimos de segurança e de interromper a atividade caso houvesse risco iminente. No entanto, os promotores afirmam que ela omitiu-se mesmo após ter conhecimento de uma falha operacional semelhante ocorrida anteriormente. Além da acusação de homicídio, a empresária é apontada como autora de fraude processual por supostamente tentar ocultar provas ao buscar a câmera GoPro utilizada pela vítima logo após o acidente.
A atuação da empresa ocorria à margem de diversas exigências legais estabelecidas para o setor de turismo de aventura. Conforme a peça acusatória, a atividade comercial de rope jump era explorada sem a devida inscrição no Cadastro de Prestadores de Serviços Turísticos (Cadastur) do Ministério do Turismo. Os organizadores também falharam ao não contratar seguro obrigatório de responsabilidade civil e ao omitir a elaboração de termos formais de ciência de risco e responsabilidade a serem assinados pelos frequentadores da atração.
Próximas etapas do processo judicial
Com o andamento da audiência de instrução nesta quarta-feira, a Justiça cumpre a fase destinada a ouvir a acusação e as testemunhas arroladas no processo criminal. A oitiva específica dos réus denunciados pelo Ministério Público deve ocorrer somente em uma etapa posterior do trâmite judicial, após a conclusão dos depoimentos testemunhais. Os quatro envolvidos permanecem presos preventivamente por decisão da Justiça paulista, que manteve a custódia cautelar diante da gravidade dos fatos apurados durante a fase policial.
O impacto do ocorrido mobilizou autoridades e gerou forte comoção pública em decorrência das circunstâncias em que a jovem perdeu a vida. Um amigo de Maria Eduarda que acompanhava o salto no local sofreu forte choque emocional ao presenciar a queda e precisou ser encaminhado para atendimento hospitalar. Enquanto o processo avança na comarca de Limeira, a instrução criminal busca consolidar as provas materiais e os depoimentos necessários para definir a responsabilidade penal dos quatro acusados perante o Tribunal do Júri.
Detalhes da denúncia do ministério
A promotoria destacou em sua peça acusatória que os réus agiram com desrespeito flagrante às normas técnicas mínimas para a prática de atividades verticais. A falta de conferência dos equipamentos e a ausência de procedimentos padronizados tornaram o salto um evento de altíssimo risco para a segurança dos frequentadores. Os promotores ressaltaram que a busca por visibilidade digital superou qualquer preocupação com a integridade física de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas.
A defesa dos acusados ainda busca reverter a prisão preventiva decretada pelo poder judiciário, enquanto o andamento processual segue focado na produção antecipada de provas e oitivas. A complexidade do caso exige rigor técnico na análise das responsabilidades individuais de cada um dos envolvidos na operação da empresa de turismo de aventura. A expectativa é que novas diretrizes sobre a fase de debates ocorram após o encerramento dos depoimentos previstos para esta semana.
Segurança e normas do turismo
Especialistas em turismo de aventura reforçam que a prática de modalidades como o rope jump exige certificações rígidas, equipamentos homologados e equipes rigorosamente treinadas para resgates. A ausência de Cadastur e de seguros obrigatórios, apontada pelo Ministério Público no caso de Limeira, agrava a situação jurídica dos responsáveis pela empresa. A legislação brasileira estabelece obrigações severas para prestadores desse segmento para justamente evitar tragédias decorrentes de falhas operacionais humanas.
O desdobramento judicial em Limeira serve como marco para a fiscalização de atividades de turismo radical em todo o estado de São Paulo. Órgãos de segurança pública e de proteção ao consumidor intensificaram o alerta para que praticantes exijam comprovação de regularidade antes de participarem de eventos extremos. A instrução do processo deve esclarecer definitivamente o grau de participação de cada denunciado nos eventos que antecederam a queda fatal da jovem.


