O desabamento de um prédio em construção na Penha, zona leste de São Paulo, continua sob intensa investigação das autoridades policiais e órgãos de controle. O engenheiro civil Fábio José de Oliveira, que realizou uma vistoria no local em fevereiro de 2026 a pedido da construtora New Home, afirmou em depoimento prestado à Controladoria Geral do Município que identificou falhas estruturais graves e recomendou a remoção das famílias dos imóveis vizinhos devido ao risco iminente de colapso.
A tragédia ocorreu por volta das 2h do dia 12 de setembro de 2026, quando a estrutura do edifício veio abaixo e atingiu uma residência vizinha. O acidente resultou na morte de seis pessoas, incluindo uma mulher grávida e uma criança, enquanto outras duas pessoas foram resgatadas com vida pelas equipes de socorro. As vítimas eram de nacionalidade boliviana e paraguaia. Desde então, a Polícia Civil apura as responsabilidades administrativas e criminais pelo caso.
Segundo o depoimento do profissional, a visita técnica revelou diversas incongruências em relação ao projeto original. Embora o alvará de aprovação e execução previsse 39 unidades habitacionais, cerca de 50 foram projetadas no local. Além disso, , além de constatar que a obra puxava uma das casas vizinhas e empurrava outra, apresentando rachaduras visíveis em muros e sarjetas.
Engenheiro detalha falhas estruturais em depoimento
Durante a oitiva realizada na sede da Controladoria Geral do Município, o engenheiro civil detalhou os problemas constatados durante a visita técnica efetuada meses antes do desabamento. O profissional explicou que o orçamento inicial apresentado pela construtora era totalmente inviável para corrigir os danos detectados na estrutura da obra irregular na zona leste paulistana.
O especialista relatou que a construtora estimava gastar uma determinada quantia para reestruturação, mas os custos reais para deixar o edifício em condições habitáveis poderiam alcançar cifras milionárias. Sem a devida análise de solo, que a empresa não apresentou, o cálculo exato tornava-se inviável, evidenciando o grau de improvisação na execução do projeto imobiliário na região da Penha.
A recusa da construtora em prosseguir com a contratação da empresa de engenharia após o laudo técnico reforça os indícios de negligência na condução dos trabalhos. O depoimento prestado às autoridades auxilia na reconstrução da linha do tempo que culminou na morte de seis pessoas após a queda da estrutura sobre a residência vizinha.
Histórico de irregularidades marca a construção
A construção do edifício na Rua Tequici já acumulava registros de fiscalização e medidas administrativas por parte da Prefeitura de São Paulo ao longo dos anos anteriores. O município havia autuado e interditado o empreendimento ainda em 2019 devido à completa ausência do alvará de funcionamento exigido pela legislação urbana vigente.
A vistoria apontou estreitamento nas escadas, ausência de reservatório de combate a incêndio e falta de caixa d’água prevista em projeto”
Fábio José de Oliveira, engenheiro civil
Anos mais tarde, em 2021, a administração municipal acionou a Justiça com o objetivo de impedir que os responsáveis desressem as interdições e continuassem avançando com a obra irregular. Mesmo diante das restrições legais impostas pelos órgãos públicos, os trabalhos prosseguiram até a madrugada do fatídico dia do desabamento.
A investigação conduzida pela Polícia Civil busca agora esclarecer como a construção conseguiu se erguer e ampliar o número de unidades habitacionais planejadas, saltando de 39 para cerca de 50 apartamentos, ignorando por completo os limites estabelecidos pelo projeto original aprovado.
Polícia Civil aponta possibilidade de indiciamentos
As autoridades policiais que conduzem o inquérito sobre o desabamento indicaram que quatro pessoas podem ser formalmente indiciadas pelo crime de homicídio com dolo eventual. As investigações avançam para determinar o grau de participação de cada um dos envolvidos na tragédia que vitimou cidadãos bolivianos e paraguaios na zona leste.
Mandados de prisão temporária já foram expedidos pela Justiça contra os sócios da construtora New Home. Um dos apontados como sócio oculto da empresa foi preso preventivamente, enquanto outros investigados, incluindo o responsável técnico pela obra e a proprietária formal, permanecem na condição de foragidos da Justiça.
Além dos representantes da construtora, uma servidora pública municipal também entrou na mira das investigações policiais após assinar um documento que atestava falsamente a demolição prévia do prédio em ano anterior, gerando desdobramentos administrativos adicionais.
Servidora municipal é afastada após o acidente
A coordenadora de planejamento e desenvolvimento urbano da Subprefeitura da Penha foi oficialmente afastada de suas funções pelo prazo de 120 dias após a repercussão da tragédia. A funcionária pública prestou depoimento às autoridades para esclarecer os motivos que a levaram a assinar o documento que declarava o imóvel como demolido.
A defesa da servidora argumenta que o procedimento administrativo instaurado contra ela possui origens em apurações de natureza patrimonial datadas de anos anteriores e que não guardam relação direta com o relatório emitido posteriormente a respeito da obra da Rua Tequici.
Enquanto os órgãos competentes confrontam as declarações da funcionária com documentos oficiais e processos administrativos em andamento, a Polícia Civil prossegue com as diligências para localizar os demais investigados e concluir o inquérito policial sobre o desabamento.


